
Ao longo de décadas de trajetória, Newton Moreno consolidou uma das vozes mais originais e potentes da dramaturgia brasileira contemporânea. Sua escrita nasce do encontro entre a tradição oral nordestina, a religiosidade popular, os ritos de passagem e as histórias daqueles que, muitas vezes, permanecem invisíveis aos grandes discursos da história oficial. Em suas peças, a morte nunca é apenas um fim, mas um território de memória, afeto e transformação. O sagrado convive com o profano, o humor suaviza a dor e a poesia emerge das experiências mais cotidianas, revelando personagens profundamente humanos.
Essa capacidade de transformar o imaginário popular em linguagem teatral atravessa grande parte de sua obra. Em As Centenárias, texto que se tornou um clássico do teatro brasileiro desde sua estreia em 2007, as carpideiras percorrem o sertão conduzindo rituais de despedida que fazem do canto, da reza e da oralidade uma celebração da vida. Quase vinte anos depois, a peça retorna aos palcos em uma inédita versão musical, dirigida por Luiz Carlos Vasconcelos, com trilha original de Chico César e protagonizada por Juliana Linhares e Laila Garin. A nova encenação reafirma a atualidade da dramaturgia ao revelar que a música sempre esteve inscrita na própria essência dessas mulheres que transformam o luto em canto e a ausência em permanência.
Agora, Moreno volta a explorar esse universo simbólico em A Última Cova. O protagonista, Djalma, vivido por Marco França, é um coveiro nordestino que deixou sua terra em busca da mãe desaparecida e que, enquanto sepulta desconhecidos, também enterra e desenterra fragmentos de sua própria história. Entre situações marcadas pelo humor, pela crítica social e pelo fantástico, a peça transforma o cemitério em um espaço de encontros, lembranças e resistência, onde cada sepultamento revela algo sobre os vivos. Mais uma vez, o dramaturgo desloca o olhar para personagens marginalizados, conferindo-lhes espessura poética e filosófica.
Ao aproximar As Centenárias e A Última Cova, torna-se evidente que ambas as obras dialogam não apenas pela presença da morte como tema, mas pela maneira como investigam aquilo que permanece depois dela: a memória, os vínculos afetivos, a ancestralidade e a necessidade profundamente humana de narrar histórias para preservar identidades. Nesta entrevista, Newton Moreno reflete sobre o reencontro com um de seus textos mais emblemáticos, a criação de uma nova dramaturgia e os caminhos de uma escrita que continua encontrando, nas margens da sociedade e nos ritos populares, uma das mais belas formas de compreender o Brasil.
Bob Sousa – Quase vinte anos depois da estreia histórica de As Centenárias, o texto retorna em uma versão musical. Como foi revisitar essa dramaturgia e perceber que ela continua dialogando com o público, agora por meio de uma nova linguagem cênica?
Newton Moreno – A ideia do musical Centenárias veio do quarteto feminino, Andrea, Laila, Leila e Juliana. Quando vi as quatro mulheres animadas em retomar esta história senti que havia algo a ser ainda experienciado com esta narrativa. ‘Virar’ musical me pareceu orgânico porque carpideiras cantam como ofício; incelenças, benditos, hinos religiosos, cantam para conduzir almas e orquestrar despedidas. E no texto havia proposição de coco e música. Mas tudo foi potencializado claro com o trabalho de Chico e Elísio. Mantivemos a estrutura, musicando alguns textos da peça, mas minha maneira de participar desta sala de ensaio foi através das letras, fiz algumas e chico outras, assim pude ajudar a construir esta nova personagem, a música. O que vejo como potente é que em tempos de feminicídio desmedido, duas mulheres se unam para vencer a morte. Isso me fortaleceu muito nesta retomada.
Bob Sousa – Em As Centenárias, o luto é atravessado pelo humor, pela oralidade e pelo canto das carpideiras. Como esses elementos da cultura popular nordestina permitiram a você construir uma reflexão sobre a morte que, paradoxalmente, celebra a vida?
N.M. – Minha inspiração primeira vem da amizade de Andrea e Marieta para quem o texto foi escrito em 2006. Além de outras premissas, eu via ali uma conexão feminina muito forte que constrói um teatro, que ressuscita “mortos” todas as sessões. Um teatro para brincar de enganar a Morte. Aliás estão ao lado de um cemitério. Me fascina a fronteira sacro-profana da relação com a morte do povo nordestino. Sempre um chiste, um causo, um cântico, um bordado estético em torno d’Ela. Em Limoeiro, terra de minha mãe, nos dias de enterro ou dia de finados, tinha até uns confeitos todos embalados com papel colorido na entrada do cemitério. Tem um apuro estético até para carpir, mesmo no fim, a beleza está lá. E a base são as duplas da comédia popular, clown branco e Augusto, mestre e aprendiz. Quis explorar essa relação ambígua com a Morte, reverencia e a trapaceia, é jocoso mas há o temor. Este jogo teatral de enganar a morte, herança pícara, negociar com a dita-cuja. Vencer a morte não se sabe quem conseguiu, mas a gente se diverte tentando.
Bob Sousa – A adaptação musical, com canções de Chico César, parece revelar uma musicalidade que já estava presente na estrutura do texto. Você acredita que essa nova encenação evidencia aspectos da dramaturgia que talvez permanecessem apenas sugeridos na versão original?
N.M. – O texto solicita sim reza e cântico, mas nesta encenação do Luiz, ele trouxe para o primeiro plano a música dos mortos, para os mortos, o carpir, o rito nordestino; Aderbal foi mestre em trabalhar o circo, a festa e dor da relação com a morte, mas dentro do picadeiro, com duas excelentes palhaças. Sem dúvida, o Luiz, palhaço Xuxu que é, sabe fazer o circo, mas leu a peça pela sua memória musical do Nordeste. Luiz, apoiado claro pela ideia de ser um musical, deu vazão a celebração pelo canto, aboio, festa, sons sagrados e profanos. Fato é que nesta encenação unem-se outros imaginários nordestinos. Luiz, Chico, eu e as atrizes. Laila e Juliana trazem no seu canto, prosódia e principalmente imaginário e memórias a esta narrativa. Eu as percebo visitando sítios, cercas, são joão, quermesse e velórios seus através de nossas centenárias.
Bob Sousa – As protagonistas carregam uma sabedoria ancestral construída pela experiência e pela escuta das histórias alheias. O que essas duas mulheres ainda têm a dizer sobre memória, afeto e comunidade em um Brasil marcado pelo esquecimento e pela velocidade das relações?
N.M. – Você já disse tudo. Mas ressalto aqui o fato de dar protagonismo a terceira idade. A história se apoia na relação mestre e aprendiz. É sobre um saber ancestral que é passado e repassado; assim como é o saber do contador de história, do brincante, a quem a peça deve muito. E sobre a valorização do saber popular e reverência aos mestres, é desta forma também sobre o tempo, sobre memória. Acho que essas camadas se cruzam. E claro: são duas mulheres no centro da cena que só sobrevivem porque não se abandonam, se dão as mãos, sororidade sertaneja. Aqui o protagonismo é feminino porque nos meus textos sempre tento promover o protagonismo de mulheres; cangaceiras, carpideiras, Marias do Carito e além.
Bob Sousa – O cemitério costuma ser visto como um espaço de silêncio, mas na peça ele se transforma em um lugar repleto de histórias, afetos e conflitos sociais. O que esse território simbólico permite revelar sobre o Brasil contemporâneo?
N.M. – Ritos fúnebres traduzem modos de vida. Nessa aparente contradição reside grande aprendizado da ética e dos valores de uma sociedade, como bem sabem sociólogos, antropólogos e poetas. Relações de poder, valores e até questões de gênero atravessam A ULTIMA COVA porque a sociedade também pode ser estudadas nos cemitérios do Brasil, da Colônia aos periféricos cemitérios salpicados pelo país. Neste sentido, acho que A ULTIMA COVA é da família de centenárias, assombrações do recife velho, ela dá protagonismo aos povos que habita as margens da morte, os que trabalham, para a ‘dita-cuja’. Volto à ideia de tempo e ancestralidade e tradição. E como estamos sofrendo com a velocidade das demolições, dos esquecimentos, do abandono do patrimônio histórico. Esta inversão nos é fundamental: tornar velório e enterro, além de espaço de reflexão social, em espaços de celebração e poesia; pensar uma relação mais leve com a ideia do ‘fim’.
Bob Sousa – Djalma desafia normas institucionais para preservar a dignidade daqueles que chegam ao fim da vida. Em sua visão, a peça propõe uma reflexão sobre justiça, empatia e humanidade diante de estruturas burocráticas que frequentemente invisibilizam as pessoas?
N.M. – Sempre foi nossa intenção falar dos ‘invisíveis’ e suas estratégias de sobrevivência. E um recorte a luz do qual este texto foi pensado tem relação com a privatização dos serviços funerários e das limitações que isto trouxe a pessoas menos privilegiadas. Esta fome de privatização que ataca espaços sensíveis, até mesmo na morte, no luto. E acho que acaba sendo uma ode à força e resiliência do povo nordestino que subverte duras realidades para não morrer.
Bob Sousa – Observando As Centenárias e A Última Cova lado a lado, percebemos que ambas transformam trabalhadores ligados aos rituais da morte em protagonistas de grandes narrativas humanas. O que o atrai nesses personagens que vivem tão próximos do fim da existência e, justamente por isso, parecem compreender profundamente o valor da vida?
N.M. – Estes que estão pertinho do ‘fim’ sabem as coisas dos dois mundos, daqui e de lá; e não tem como não ser filósofo sendo porteiro do outro mundo. Mas eles me ensinam mesmo é a viver melhor.
Bob Sousa é fotógrafo, pesquisador e doutorando em Artes Cênicas no Instituto de Artes da Unesp (com orientação da Profª Drª Simone Carleto Fontes), onde também obteve o título de mestre em Artes. É jurado de Teatro da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes – e de Artes Visuais do Prêmio Arcanjo de Cultura. Autor do livro Retratos do teatro (Editora Unesp).

