Skip to content Skip to footer

Eu cão eu

“Se, na minha exclusão, tantas passagens me são vetadas, eu caminho ali no desafio, na beira do abismo, onde você não sobreviveria”, disse o andarilho. E completou: “Nada, nada! Não tenho nada a perder”!

Despojado de tudo, ele voa bem alto, despreocupado de qualquer lastro. Sua casa é o mundo. Pássaro sem âncora…

1- Louco de rua.

Loucos de rua são, talvez, espécime em extinção. Não porque a miséria e a loucura deixaram de existir, muito pelo contrário ­— quem sabe se tornaram tão comuns e impessoais que dar a elas um rosto passa a ser irrelevante. Aliás, muitas coisas se tornam invisíveis pela ubiquidade e não pela escassez!

Há não muito tempo, andarilhos eram figuras familiares aos moradores de bairros de São Paulo.  Tinham nome próprio e nós os reconhecíamos. Indumentárias maltrapilhas, caminhando, atravessavam regiões inteiras da cidade. Pela manhã, podiam estar no Centro, e, à tarde, em Guaianazes. Tudo a pé.

O figurino atemporal do louco de rua se parece com alguma vestimenta da idade média. Cinza, preto, bege, marrom, sujo. Um tipo de pijama milenar que, inalterado, penetrou a noite da alma. Atualmente, a Cracolândia nos dá alguma dimensão desses vultos. O que eles têm a nos dizer?

Por sua simples presença, desafiam a ordem. Excluídos, habitam a margem e operam na clandestinidade, mesmo que à luz do dia. Note-se: o marginal é aquele que, por definição, vagueia pelas fronteiras (pelas margens, literalmente). Perambulando, ele é memória ambulante e é testemunha dos acontecimentos da cidade. Ele vê aquilo que está oculto para os demais.

No filme alemão “O vampiro de Dusseldorf”, de Fritz Lang (1931), é justamente um mendigo cego quem fareja o assassino – identificado porque assobia sempre a mesma canção (um trecho da composição de Grieg, criada para Peer Gynt, dramaturgia máxima de Ibsen…).

Personagem gauche da pólis, na contramão, o nômade errante articula dois verbos: caminhar e devanear. Devanear é percorrer “a pé” e descalço os labirintos tortos da alma. Ruelas em que estão marcados os traços de uma memória coletiva. Devaneio é caminhada “imaterial”. Não serve para emagrecer. Ambos, devaneio e peregrinação, equivalem a “errar”: são errância!

A esmo, ao léu, e ao sabor dos acasos… Circulando, o peregrino parece buscar uma zona virtual inatingível. Os confins, limites, fronteiras, margens… Perambular sem mapa ou guia da cidade é a sua receita. Assim, vagando, ele se aproxima de um ponto em que a loucura pode desabrochar como oráculo da verdade.

Pois a verdade, geograficamente, está localizada no lusco-fusco! Na vaguidão. É preciso ser vira-lata para obter as chaves de sua porta. É preciso ser sujo e vagabundo. Muita limpeza espanta qualquer revelação. É preciso chafurdar nos pântanos virulentos. Assepsia não nos conduz muito longe!

Equilibrando-se numa zona cinzenta de divina infecção, sem bússola, o marginal tem de ser um pouco daltônico para distinguir formas e sombras ali onde os outros não enxergam nada. É assim que ele sobrevive, caminhando na corda bamba, numa linha que separa e circunscreve dois mundos. Flanando, desenha o limite onde se acaba a cidade e começa outra coisa.

Essa “outra coisa” é faixa de passagem e de mistério. O lado escuro da Lua! Território de fronteiras não tão bem definidas entre muitas polaridades perigosas (porque vitais): os limites entre o selvagem e o civilizado, entre a fome e o amor, entre a linguagem e a vertigem, entre a luz e a escuridão… Uma zona sem certezas conectada ao contraditório, àquilo que “é e não é” ao mesmo tempo. Aqui é ali, mas já não é mais aqui, e ainda não é ali!

Aquele que se debruça nessa matéria e esculpe esse barro tem nas mãos um passaporte: ticket que leva aos elementos primordiais, dos quais a criatividade se serve. Vagabundear é método para insights: devaneio e perambulação são as primeiras etapas do ato criativo.

É preciso que o artista, ao criar, seja louco e miserável. Ele tem de reafirmar sempre a circulação e o movimento como índices de saúde. Sem coleira! Navegar é preciso…
Cachorro vira-lata.

Tanto quanto o louco de rua, também o cachorro vira-latas era figura familiar dos bairros de São Paulo e hoje parece espécime em extinção. Subsiste em regiões afastadas do centro. O cão sem dono pertence à mesma zona de fronteira do andarilho. É um animal de borda, “de passagem”, por assim dizer. Por ser animal, não é humano nem civilizado; por ser cão, nunca é completamente selvagem: não é lobo, não é gente.

2- Sem Capote…

Em três de maio próximo passado, no Espaço Parlapatões, deu-se a última apresentação da peça “Eu cão eu”, solo de Hugo Possolo, dirigido por Rodolfo García Vázquez. Escrita em 2011, o monólogo mereceria muitos prêmios! Não só pela performance do ator/autor, mas especialmente pelo seu texto.

Kafka é — em muitos sentidos e, talvez involuntariamente (o que é melhor!) —ressuscitado. E, ainda assim, com um caldo da Europa do Leste, a peça é cheia de brasilidade. Ela é conduzida nesse fio de fronteira que o louco e o cachorro desenham. Possolo os põe como espelhos e segue seus rastros com fidelidade canina! Ali no espetáculo estão contidos todos os enigmas relativos ao andarilho e ao vira-lata.

Esboçando o percurso errático de um homem em rota de colapso, “Eu cão eu” capta as misérias desumanizantes da rotina — à moda russa que, tanto quanto o tcheco Kafka, expõe os labirintos aprisionantes da burocracia. “O Capote” de Gogol, por exemplo, de 1842, traz um cidadão ruminando ideias obsedantes relativas a um capote, imagem da imobilidade!.

Do lado de cá, na linha debaixo do equador, e bem mais a oeste, “Eu cão eu”, por outra via, também problematiza as capturas que nos engessam diariamente. Entretanto, o personagem aqui criado parece o avesso do de Gogol: Possolo retira o seu capote! E, assim, sem nada que o contenha, mas aferrado a uma lógica peculiar (que lembra Policarpo Quaresma), essa figura brasileira que vemos no palco se desdobra em inúmeros eixos, frutos da observação do autor pelas esquinas da vida.

É dessa forma que a peça traz — enquanto metáfora essencial — a perambulação como marca de liberdade: a circulação do olhar, que arranca delírios dos becos e revela cenas habitadas, cheias de verdade.
A quem devemos rogar que “Eu cão eu” volte aos palcos?!

Em tempo: a peça de Possolo evidentemente dialoga com “Comunicação a uma Academia”. De quem? De Kafka, claro!

3- Créditos! 

A ideia de uma atemporal indumentária do louco de rua, eu a devo à cineasta/psicanalista Miriam Chnaiderman — em comunicação pessoal por ocasião de suas pesquisas que resultaram no filme “Dizem que sou louco” (direção Miriam Chnaiderman, 12 min., formato 16 mm, color, produtora Sequência Um, 1994). E ainda: em um artigo, Chnaiderman e Hallack, tomam o louco de rua como objeto de reflexão, fazendo conexões das quais me utilizo aqui. Baseando-se em Rousseau (de 1776, “Devaneios de um caminhante solitário”) e Vernant, entre outros autores, as psicanalistas nos mostram as relações entre a noção de “vagar” e a palavra francesa rêverie (ver Miriam Chnaiderman e Regina Hallack, Estranhas urbanidades, 1995, p. 37 —  in Maria Cristina Rios Magalhães (org), “Na sombra da cidade”, 1995, p. 33-43).

 

* por Sergio Zlotnic, especial para o portal da SP Escola de Teatro – zzzzlot@gmail.com

Inscreva-se em nossa newsletter