A Idade do Desafio

Publicado em: 15/06/2018

MAURÍCIO PARONI

Especial para a SP Escola de Teatro
Chá e Cadernos 100.9

Quando registrei um roteiro cinematográfico na Writers Guild of America – WGA, a Associação dos Escritores da América com sede em Hollywood -, apresentei um Curriculum Vitae extensivo. Ouvi da responsável um conselho para melhor fruir de meu trabalho: “você será tão bom ou perfeito quanto a última coisa que fez.” Nessa declaração jazem, inteiros, o pragmatismo estadunidense, a superficialidade material do capitalismo, a transformação do que deveria ser um artista numa força de trabalho explorada até o ultimo sangue, e a remoção da adversidade na cultura das sociedades pós industrializadas.

Respondi com soberba e ironia mediterrâneas: “a ultima coisa perfeita que poderia fazer seria morrer. Não poderia usufruir das benesses de um ato impossível ser desfeito.  Poderia até perseguir tal perfeição pela percepção do erotismo do ato de morrer.” A agente ficou em silencio, sem entender ou achar qualquer graça em minha resposta.  Certamente ofendeu-se.

Desculpei-me, após refletir que a passagem do tempo em nossas existências encerra-nos numa condição diferente de qualquer minoria social; aquela dos explorados por classe, sexo, etnia, ou cultura. Todos envelheceremos se tivermos a sorte de não morrer antes. Não há exceção. Portanto erramos em remover a velhice de nosso horizonte. Deveria ter acrescentado àquela senhora o raciocínio direto “O  idoso de hoje será você amanha”.  Em qualquer condição. A menos que não estejamos mortos antes.  Ela certamente não iria entender ou ofender-se.

***

Procurei literatura não-panfletaria e contemporânea sobre o assunto. Constatei que somente o teatro de Tadeusz Kantor (1915-1990) (*) trata o tempo ultimo da existência com uma estatura artística no nível da cena dos coveiros do Hamlet.

Isso sugere um primeiro desafio dos bons:  fazer em teatro o que o mainstream “descolette” atual não faz seria vencer a maldita angustia da influencia citada pelo critico Harold Bloom (**).

Sobre a idade, a literatura clássica foi muito mais generosa, talvez pela ausência da indústria de massa. Particularmente, há três autores de leitura obrigatória: Platão (428-348 a.C.), e Cícero (103 – 43 a.C.) e Sêneca (4 a.C.-65 d.C.). Não aborrecem, não são panfletários, não fazem terrorismo de aposentadoria, não escrevem auto ajuda, não professam moralizações cristãs de resultados (para seus autores).

Para constatar a fatualidade da lacuna contemporânea ocasionada pela remoção literária sobre a velhice, referenciei-me a artigos da internet (***) e resumo algumas frases a seguir para clarear o assunto. Enumero também algumas passagens de Marco Túlio Cícero, de Saber Envelhecer (L&PM, 1997, tradução de Paulo Neves), estadista e maior orador da Roma antiga.

[Perdoe-me o leitor , mas não posso renunciar à seguinte digressão provocatória:

 – a retorica do Senado Romano era o verdadeiro teatro da Republica. Já na Grécia ateniense de Péricles, a mesma atividade atingia o ápice enquanto ato politico num edifício construído para esse fim: o Theatron. Esta designação é a forma derivada do verbo grego theomai – ver; e do substantivo thea, vista em grego; o “lugar onde se vai para ver” – o teatro como o conhecemos hoje. Trata-se de uma diferença fundamental entre as duas culturas; e de uma intrigante semelhança entre a nossa e a de Roma antiga: Seriam os parlamentos, senados e câmaras de hoje um edifício de apreciação ficcional ou uma atividade de governo?]

– “Senti tal prazer em escrever que esqueci dos inconvenientes dessa idade; mais ainda, a velhice me pareceu repetidamente doce e harmoniosa”.

– “Todos os homens desejam avançar a velhice, mas, ao ficarem velhos, lamentam-se. Eis aí a consequência da estupidez”.

– “Os velhos inteligentes, agradáveis e divertidos suportam facilmente a idade, ao passo que a acrimônia, o temperamento triste e a rabugice são deploráveis em qualquer idade”.

– “A memória declina se não a cultivarmos ou se carecemos de vivacidade de espírito. Os velhos sempre se lembram daquilo que interessa: promessas, identidade dos seus credores e devedores, et coetera”.

– “Acaso os adolescentes deveriam lamentar a infância e depois, tendo amadurecido, chorar a adolescência? A vida segue um curso preciso e a natureza dota cada idade de suas qualidades próprias. Por isso, a fraqueza das crianças, o ímpeto dos jovens, a seriedade dos adultos, a maturidade da velhice são coisas naturais que devemos apreciar cada uma em seu tempo.”

– Cícero lembra que Sófocles em idade avançada ainda escrevia suas tragédias. No fim da vida, Sócrates aprendeu a tocar lira. Catão, na velhice, descobriu a literatura grega.

***

Além da antiguidade, cito poéticas que podem indicar bons caminhos artísticos já trilhados:

“Velhinhas quedas e velhinhos quedos,
cegas, cegos, velhinhas e velhinhos,
sepulcros vivos de senis segredos,
eternamente a caminhar sozinhos”


[ Violões que choram,  de Cruz e Sousa (1861-1898), poeta simbolista brasileiro]

“A gente leva a vida inteira para entender o que realmente importa e, então, já não está mais lá.”

[O teatro de Sabbath, de Philip Roth(1933-2018), romancista norte-americano]

“Surpreende-te que os outros passem ao teu lado e não saibam, quando passas ao lado de tantos e não sabes, não te interessa, qual é o sofrimento deles, seu oculto câncer?”

[O ofício de viver (Il mestiere di vivere), de Cesare Pavese (1908-1950), poeta modernista italiano]

***

– Velhice e doença não são a mesma coisa. Nem a senilidade é deterioração mental. envelhecimento começa logo após o nascimento. Dificuldades e limites não são doenças.

– A exclusão do repouso, o isolamento da solidão são a peste do idoso. Impedir qualquer um, idoso ou não, de realizar tarefas produtivas e remuneradas é incivilidade induzida.

– Seja a visão “capitalista” da produtividade, seja  a “engenharia social” estalinista,  faz-se as pessoas valerem pelo que produzem e pelo que elas conseguem possuir.

– Idosos agem com lentidão e não possuem mais a atenção, memória e agilidade de suas juventudes. Porém são capazes de aprender e ensinar muito.

-Idosos são vistos como carentes de desejos sexuais e, no caso de manifestarem este desejo, são tidas como anormais. Sexualidade e as relações sexuais seria coisa para jovens; geralmente sexualidade é confundida com genitália.

***

Como já afirmado, nenhuma categoria deste universo escapa à sua relativa velhice e morte. Memento mori, como costumo lembrar-me todas as manhãs.

Nenhum humano escapará, neste planeta, ao destino de viver diante de um Rei Lear. Deste drama de Shakespeare ninguém escapa, estude-se, veja-se, represente-se ou não:  Memento Regis Lehar.

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(*) Veja artigo clicando aqui: http://www.spescoladeteatro.org.br/papo-com-paroni-lembranca-de-kantor )

(**) Publicado em janeiro de 1973, “A angústia da influência” é uma tentativa de explicar a influência entre poetas como algo fora da história e da ideologia. Cada poeta, forte ou fraco, diz, vale-se de uma maneira pessoal e inconfessável de assimilar seus antepassados poéticos. “Até hoje, dizem que minha teoria é derivada do complexo de Édipo de Freud, pois os poetas combatem a imagem do pai”, afirma. “Não tenho influência de Freud, nem naquele tempo nem agora. Os poetas para mim são pré-freudianos. Se eles têm algum complexo, é o complexo de Hamlet. Pois, como o Hamlet de Shakespeare, querem concorrer com a imagem do pai.” Bloom reitera sua paixão mística por William Shakespeare, para ele o Homero moderno que exerce fascínio sobre toda a posteridade de poetas, romancistas e filósofos. “Shakespeare é o inventor da noção de humanidade, o criador de textos e personagens mais vivos e inteligentes que muitos seres humanos”, afirma. Shakespeare é, diz ele, a origem de todas as influências da posteridade. – breve reportagem aqui: https://epoca.globo.com/vida/noticia/2013/11/bum-critico-ferozb-de-si-mesmo.html

(***)

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-arte-de-envelhecer-segundo-cicero-2/

https://leiturasdogiba.blogspot.com/2008/09/da-velhice-um-fio-puxado-do-quadro-de.html

 

Velho Homem em Tristeza
Vincent Van Gogh – óleo – 32 x 25 cm – 1890 – (Kröller-Müller Museum (Otterlo, Netherlands)




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