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Análise clínica do DNA da SP Escola de Teatro

Publicado em: 02/10/2017

1- Sexo e morte

Muita lagartixa perde a cabeça (valem os dois sentidos) quando embriagada pela dança de sedução. Frequentemente o animal sacrifica a vida, desde que seus genes tenham sido transmitidos e lançados ao futuro.

 

Depois de ter cumprido a fecundação, como a aranha-macho, também a lagartixa-macho pode se entregar ao sacrifício, devorada por algum predador que, eventualmente, se aproveite de sua distração hipnótica. A força da transmissão de genes para a continuidade da espécie ultrapassa os instintos de preservação de si. Os cuidados com a integridade física cessam por um instante, quando a voz da espécie, num apelo, convoca um membro do clã.

 

Organismos muito primitivos, como amebas, se multiplicam através de um expediente diverso daquele que é posto em jogo no encontro sexual verificado nas espécies mais complexas do mundo animal. As amebas simplesmente se dividem em dois. A sexualidade é invenção posterior, um “novo” esquema operado para que a espécie prevaleça e sobreviva, e salte adiante, driblando a morte do organismo individual. A natureza não cria seres imortais, mas cada um deles se catapulta para o futuro, deixando sementes a serem vingadas, prolongando a vida da espécie. Um gato doméstico, por exemplo, pode viver 20 anos – mas a sua espécie existe e mia pelas esquinas há pelo menos 12 milhões de anos.

 

A multiplicação via sexo possui uma vantagem frente à divisão celular, como modo de se perpetuar no mundo. Na divisão das amebas, o resultado são dois indivíduos idênticos. Já no encontro sexual, há inclusão de arquivos fantasticamente heterogêneos na composição de nova vida.

 

Quanto mais diferentes entre si os parceiros que se encontram e copulam, mais desafiadora será a singularidade do novo organismo gerado. Mais formidável o arranjo. Vice-versa, quanto mais semelhantes os parceiros geradores, mais frágeis seus descendentes. Sabemos que cães de pedigree impecável pagam um alto preço pela sua fina estirpe. Quanto mais vira-lata, mais apto. Pois a vida gerada via sexo entre parceiros heterogêneos é mistura de heranças diversas, de traços físicos diversos e de traços de caráter diversos, de tal sorte que: mais plural, mais evoluído.

 

As sementes lançadas, promessas de vida, são hoje, mais do que nunca, metáforas. Pois elas podem ser apenas ideias e palavras ao vento que alguém bem disposto encontra e recolhe, num tempo futuro e indeterminado, incorporando-as ao seu repertório. As sementes são também, no mundo do homem, cultura.

 

2- Natureza e cultura

O encontro sexual é, pois, tremenda injeção de novidade. É influxo de novas quantidades de estímulo, em que diferenças vitais são introduzidas, prolongando, melhorando, incrementando e transformando a vida do organismo gerado; e também da espécie que “darwinianamente” se apropria das novidades e das diferenças conquistadas.

 

Assim, as porções estrangeiras de que somos feitos, porções anteriores a nós, que vieram de fora e de longe, com as quais temos de nos haver, marcadas a ferro em nosso DNA, vitalizam, oxigenam, desafiam e enriquecem o campo. Há choque biológico e cultural em cada concepção, sinônimo de evolução e de criatividade. E isto é verdade, repito, tanto na cultura quanto na biologia. Pois guetos desde sempre empobrecem: neles encontramos tradição sem transgressão (tradição petrificada).

 

3- Uma biologia sociológica!

Sábia é a natureza, cujo método, antes de qualquer pedagogia moderna, é transdisciplinar! Método que inclui elementos oriundos de territórios e de códigos diversos, que falam línguas peculiares, com gramáticas próprias; elementos que – em seu choque, uns com os outros – embaralham fronteiras, produzem híbridos, provocam heresias, transgridem a ordem. E nos dão MUITO trabalho!

 

Nos anos 20 do século passado, esse modo de funcionar da natureza sexuada, que obriga diálogo entre linguagens heterogêneas, migrou para os campos de investigação acadêmica, escolar, científica, e informal. E transformou-se numa forma de pesquisa de ponta: o “utraquismo”, termo emprestado do discurso religioso antigo – talvez justamente porque, do ponto de vista da Igreja, se referisse a ideias religiosas consideradas heréticas. Alguns comentadores de Freud consideram que esse era seu método por excelência: abrir-se, com rigor e flexibilidade, às construções de outras ciências que fazem fronteira com a Psicanálise.

 

Hoje, a palavra transdisciplinaridade vigora. E deve vigorar ampla, geral e irrestritamente. Pois, ao fazer campos sintáticos, singulares e distintos entre si, conversarem e colidirem, essa maneira de investigar visa e produz fecundidade. Gera ninhadas e filhotes não-idênticos entre si.

 

4- Pedagogia da SP Escola de Teatro

E por que tudo isso, essa biologia, no portal da SP?!

Feliz o artigo de Ivam Cabral, “Acessibilidade no DNA”, de 25/10, aqui nesse espaço reservado aos colunistas, que desenha a política pedagógica da SP Escola de Teatro. Pedagogia que prega e celebra a palavra “acessibilidade”, de preferência à palavra “inclusão”, nos termos de Ivam.

 

“Inclusão” pode sugerir atitudes de comiseração daquele que inclui. Como se, ao incluir, estivéssemos fazendo um favor. O mesmo risco existe, penso eu, quando se fala em “tolerância”: ao tolerar, parecemos generosos senhores feudais diante de seres inferiores, portadores de desagradáveis defeitos – a serem, por nossa benevolência, “incluídos”. Nessa “inclusão”, a potência do incluído fica tremendamente atenuada!

 

Para Ivam Cabral, o problema da “inclusão” se dá quando não se preservam identidades particulares das novas forças em jogo. Forças que – para o bem da saúde social – têm de circular, carregando justamente as singularidades que as caracterizam. Trazendo novos repertórios, que serão mantidos e transformados, coexistindo ao lado de outros repertórios espalhados pelo mesmo campo, os inputs estrangeiros mantêm suas potencialidades fertilizadoras. Esse campo, dessa forma, não será jamais o mesmo. Como os índios, por exemplo, teriam feito conosco, caso não tivessem sido esmagados pela onda branca, cujo objetivo era aculturá-los.

 

Ivam afirma: “(…) não gosto de pensar, por exemplo, que deficientes ou nordestinos ou negros ou índios ou homossexuais precisam ser incluídos. Repudio essa ideia. Grupos como esses precisam – e urgentemente – de acessibilidade”.

 

Nos dias que correm, de incremento de xenofobias variadas, anacrônicas e terríveis, essas considerações são de máxima relevância. Como palavras de ordem num manifesto cuja “erótica metodológica” seja estímulo às “diferenças vitais”, marcas de singularidade que todos portamos! E para as quais temos que fundar territórios que as contenham.

 

Acessibilidade está no DNA da Escola, diz Ivam, estabelecendo em seu artigo uma posição eminentemente política. Pluralidade é a verdadeira política, pois monocultura e subdesenvolvimento caminham muito bem unidos.

 

5- Eu, estrangeiro de mim…

Finalmente, faço uma prescrição (muito embora evidentemente nunca haja receitas!): eis a boa posição que deve ser reafirmada para estarmos “pluralmente” vivos na vida.

Que – na privacidade e no escuro de cada quarto de cada casa de cada pessoa do Planeta Terra – se considere o estrangeiro que cada um de nós é, secretamente e em silêncio, ouvindo os sussurros de vozes estranhas que habitam nosso ser.

Dizem os sábios que no núcleo da alma residem alteridades que nos antecedem e determinam, a nossa revelia. São “outros” em nós, sobre os quais pouco sabemos. Vozes perversas polimorfas que, muitas vezes, preferiríamos calar.

O preconceito parece sempre ser manobra para amputar essas vozes de si. Amputação de porções pessoais malditas e caras. Tentativa de apagamento de traços que parecem não ter lugar no mundo e que talvez sejam sentidos como inadequados, discrepantes, medonhos, estapafúrdios.

Nesta manobra, uma projeção: suprimindo a voz do outro (externa), que recriminamos, há ilusão de jamais sermos descobertos e revelados em nossas marcas singulares e diferenças secretas. Porém… Sem acessibilidade a essas vozes dissonantes – sem o influxo de novas quantidades de estímulo, e sem as diferenças vitais introduzidas em nossos pequenos mundos – reduzimos a vida a uma existência de mera ameba. Idêntica, idêntica, idêntica…

 

6- Satyrianas 2013

Bem a calhar: As Satyrianas começam em poucos dias (14/11/13), na Praça Roosevelt e em outros lugares da cidade por onde o festival já se espalhou (sementes ao vento!). Celebração da primavera, da pluralidade, da “erótica metodológica”! Celebração das diferenças secretas que encontram enfim um lugar!

 

Em tempo: Simplifiquei aqui, num sacrilégio, alguns fiapos de ideias que Freud apresenta em 1920, em seu texto mais “biológico”: “Além do princípio do prazer”. Por isso, algumas frases e expressões usadas nesta coluna estão em itálico! Créditos também a Luis Claudio Figueiredo e a Sandor Ferenczi, a quem agradeço pelas palavras exatas – que entretanto não saberia mais indicar onde se encontram! Em que livro, em que texto, em que artigo??! Palavras ao léu… Frutifiquem!

 

7- Baleiazzul – autopropaganda de pessoa modesta!

Em 13/12/13, daqui a pouco mais de um mês, uma sexta-feira 13, dia de grande sorte, das 18 às 21 horas, haverá um lançamento, na SP Escola de Teatro – Sede Roosevelt, de um livro de ficção escrito por Sergio Zlotnic. “Baleiazzzul” é o seu nome. Ilustrado pelo famoso artista plástico Marcelo Cipis e produzido pela Editora Hedra, dizem as más línguas que se trata da melhor estória já escrita pelas mãos do homem (a mulher já teria escrito coisa melhor). A capa é de Rodrigo Rosa, atualmente aprendiz de cenografia e figurino da escola e o maior capista vivo! Save the date! E postamos aqui, em primeira mão, com exclusividade, um trecho inédito do livro pra você, leitor!

 

As meias-órfãs…

 

Unidos pela língua, perambulavam a esmo por ruas tortas e estreitas, à procura de acontecimentos…

 

Fazia tempo que não chovia e que Tom não engasgava, o que era indicador de uma escassez de ficção e de água. ‘Uma estiagem’, percebeu Cartolina, com melancolia, preocupada com os destinos do planeta.

 

No meio do caminho, descobriram-se, subitamente, diante de uma casa grande e velha, cujo chão misturava terra e paralelepípedos. No quintal, dependuradas num varal que atravessava todo terreno, meias-órfãs acenavam.

 

Eram meias unitárias, perdidas dos seus pares e abandonadas pelos seus donos… A triste cena prosperou dentro da cabeça dos cinco amigos… Compreenderam que ali era um abrigo para meias-órfãs.

 

“Que lindo trabalho social!”, constataram. E resolveram colaborar: “todo cidadão deveria usar meias des-combinadas; adote uma meia sem par, faça uma meia ímpar feliz; que se dê às meias-órfãs novos pés que as exibam’. Decidiram estender o benefício a outras minorias e causas relevantes: ‘e que se proteja também palavras sem teto e textos rejeitados’. Finalmente: ‘que se dê teto a todos os seres, animados ou desanimados ou inanimados’, gritaram todos, Jubileu, Pastilha, Escaleno, Cartolina e Tom, excitados.

 

Ao lado da casa grande, no mesmo terreno, encontraram trilhos de bonde desativados e, adiante, um anfiteatro. Para colaborar ainda mais, Cartolina decidiu dar uma palestra sobre a linguagem:

 

“Se falta ficção, vamos de ciência mesmo”.

 

Treze de dezembro do ano da graça de dois mil e treze, não perca, grande evento!

 

Em tempo: agradeço à grande atriz brasileira, Denise Sefer, pelo empenho para que este projeto se concretizasse!




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