“Zé do Burro no TikTokVerso” acerta ao atualizar personagem com artifícios do aplicativo em espetáculo que exalta a resiliência humana

Publicado em: 05/12/2020

Por Isaque Sousa, especial para SP Escola de Teatro

 

Em apenas 14 minutos de duração, peça lida com assuntos universais ao traçar com fervor e tecnologia a trajetória de personagem em busca de redenção

 

Não há dúvidas de que o aplicativo TikTok é um dos destaques de 2020. Lançado há quatro anos, foi no ano do novo coronavírus que ele mostrou a que veio. De dancinhas despretensiosas à dublagem de discursos calorosos, é incontestável a sua presença na mass media. E é pegando carona nesse triunfo que Zé do Burro no TikTokVerso se propõe a acompanhar um histórico personagem de Dias Gomes em odisseia recheada de recursos especiais.

 

Em termos narrativos, o esqueleto é o mesmo da obra original, O Pagador de Promessas, de 1960: Zé do Burro, com sua cruz nos ombros, e sua mulher, Rosa, caminham do interior da Bahia até Salvador com o objetivo de pagar uma promessa. Ao se deparar com a intolerância religiosa e demais adversidades, Zé compreende que a simples tarefa de levar a cruz até o altar da igreja de Santa Bárbara não será tão viável quanto pensava.

 

Se a narrativa não sofre transformações, a sua condução sim. Gravado ora pela câmera regular do celular, e pela câmera do Instagram, utilizando efeitos, o espetáculo usa diversos artifícios possíveis, imagináveis e disponíveis na plataforma, referenciando-se a recursos similares do TikTok. Desde as mais simples transformações sonoras, que muitas vezes são onomatopeias, até intervenções visuais mais profundas, que ajudam a contextualizar o intuito do personagem em cena. Sentimentos como fúria, pena, indagação, compaixão e violência são ilustrados de forma criativa sem deixar o texto de Gomes cair no desuso. Os recursos do aplicativo não se sobrepõem ao discurso, apenas o complementam. 

 

Interpretando Zé, Alain Catein, apesar do tom cômico, não erra e deixa transparecer com riqueza a ambição de seu personagem. Por vezes melancólico, a defesa de Catein é contundente e exprime o melhor e o pior da resiliência humana em temas como religiosidade, adultério e condição social. No papel de Rosa, mulher de Zé, está Rodrigo Gil, que obtém êxito ao fazer uma mulher cínica, mas não por menos engraçada. Nos demais personagens, como o padre, Bonitão, os atores se revezam fluidamente, sem parecer com o papel anterior em que estavam. 

 

Com esta nova roupagem, Zé do Burro no TikTokVerso se junta às demais adaptações consagrando, acima de tudo, o texto eminente e atemporal de Dias Gomes. Em um ano como 2020, todos parecemos ser um pouco Zé do Burro. Nossa cruz é o coronavírus, e a inviável igreja, por vezes, parece ser o próprio ano, que não raramente se mostra interminável. Resta saber se teremos o mesmo clímax do personagem.

 

* Isaque Sousa é participante da oficina olhares: poéticas críticas digitais, oferecida pela SP Escola de Teatro e ministrada pelo crítico Amilton de Azevedo, que supervisiona a produção e edita o material resultante.




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