Vigilante na Patinete

Publicado em: 23/07/2000

 Valfrido está sentado num pufe à boca de cena em seu escritório de empresário com um telefone móvel no ouvido, mais ouvindo que falando. Às vezes faz intervenções de quem acompanha a exposição do outro, “sim, sim”, “é mesmo?”, “jura?”. Está inquieto, mas esforça-se por disfarçar isso. O escritório, num arranjo que lembra assessoria de estilista modificada pelo dono, com estante, troféus e quadro de fotos (uma de lutador), tem uma ampla janela de vidro fixo que exibe o cenário futurístico de São Paulo, o rio Pinheiros, edifícios empresariais, a ponte.

Ele se levanta do pufe e vai à janela, sempre ouvindo e pouco falando, volta ao pufe e afinal se lança na ampla poltrona reclinável que lhe inspira às vezes dormir. Resiste a essa vontade contra a conveniência de mostrar interesse na conversa.

Valfrido

E Cleo? (Ouve.) E Júlio? (Ouve.) É impressionante. De onde você tira tudo isso, Sófia? Será paranormalidade junto com sua imaginação poderosa? Estou pasmo. Esses grandes voos da fantasia, Sófia, são impossíveis para mim. Sou pé no chão, mal consigo acompanhar! E Marco? (Ouve.) Sófia, você é uma bruxa! Marco, grande, forte e delicado. (Ouve, mas pisca uma luz no interfone e soa uma voz baixa que o chama:“seu Val?”.) Sófia, a secretária quer me falar, aguarde um momentinho, pode ser Bob. (Aciona o interfone.)

Voz da secretária, num sussurro

Seu Val, dona Numa aqui.

Valfrido

Aqui?! Numa?! Ela não vinha à tarde?

Voz

Está aqui, seu Val. Entrou no banheiro.

Valfrido

(Nota que o telefone está ligado e deixa vazar sua voz e a voz do interfone, quer desligar em pausa o telefone mas não sabe que botão apertar; afinal, abre uma gaveta da escrivaninha, joga nela o telefone e a fecha. Aciona o interfone e fala nele com o cuidado dispensável de um quase sussurro.)

Ana Lúcia?

Voz

Sim, seu Val.

Valfrido

Estou mudo aí?

Voz

Sim, seu Val. Numa no banheiro.

Valfrido

Ouça apenas.

Voz

Sim, seu Val.

Valfrido

Não diga “sim seu Val”, ouça apenas. Numa não pode entrar agora, estou falando com Sófia, não posso desligar na cara dela. Diga pra Numa que falo com Bob, do Chelsea. Explique quem é Bob e o que é Chelsea, valorize isso. Não mencione Sófia, pelo amor de Deus. Segure Numa aí, só um pouco, não deixe entrar. Entendeu?

Voz

Sim, seu… Oh, perdão, não, seu…

(Ele tira o dedo do interfone e faz menção de pegar o telefone móvel, mas não o acha, procura no chão e lembra-se de que o guardou na gaveta. Pega-o e fala nele.)

Valfrido

Sófia, é tu? Desculpe, um assunto urgente. E Marco Antônio, como ficou nisso? (Ouve.) Acho fascinante, admiro sua imaginação, seu dom mediúnico. Cleo é uma personagem magnífica, fico feliz que você seja ela agora. Ela é sensual, intrigante, poderosa, tudo o que uma mulher de grande personalidade, você, tem o direito de ser. Já nem sei se chamo você de Sófia ou de Cleo. Cleo, rainha do Nilo, ou Sófia, a feiticeira das biografias empolgantes? Sófia ou Cleo? (Ouve, mas é interrompido por um sinal de luz piscante que precede a voz de Ana Lúcia no interfone. Diz um rápido “um momentinho”, põe de novo o telefone móvel na gaveta que ficou aberta e a fecha.) 

Voz (em quase sussurro)

Seu Val, dona Numa no banheiro. Mas pôs a cabeça fora e perguntou do senhor. 

Valfrido

Vou olhar. (Ágil, vai da poltrona à porta, abre-a, olha, faz um sinal e volta à poltrona.) Distraia Numa mais um pouco, vou abreviar aqui. (Desliga o interfone e pega o telefone móvel na gaveta.) E a cobra? Teve uma cobra que picou Cleo na mama ou na mão, pois não? (Ouve.) Fascinante, Sófia, ouça. Bob, do Chelsea, o homem do futebol, chegou aqui, preciso atender. Que tal jantarmos na terça e você me conta tudo? Terça, combinados, mas confirmamos antes. Comece já a esboçar a aventura de Júlio e Cleo, do jeito que você sabe, vamos falar disso. Sim, ligue ou te ligo terça de manhã. Até lá, Sófia, perdão, Cleo, parabéns pela revelação incrível, vai dar um livro incrível. Beijo, Sófia, Cleo meu amor, que lindo enredo, comece a pôr no papel, vislumbro um grande sucesso. (Desliga, está aliviadíssimo por isso. Suspira, feliz, e se espreguiça como quem quer dormir. Soa o interfone, com seu sinal de luz anterior e a voz de Ana Lúcia.)

Voz

Chefe, seu Eliseu chegou.

Valfrido

Mudo aí? 

Voz

Yes.

Val

Numa aí?

Voz

Yes, saindo do banheiro. Deu a descarga.

Valfrido

Mande entrar Eliseu. Entretenha Numa, conte seus amores pra ela.

Voz

Não tenho, senhor. Yes, senhor.

Valfrido levanta-se para receber Eliseu, que entra carregando uma maleta. É um homem jovem, bonito e simples, claramente fora de seu ambiente.

Valfrido

Amigo Eliseu, fez boa viagem?

Eliseu

Viajei a noite inteira, seu Valfrido.

Val

(Cordial.) Por sua culpa! Era simples, ia a bê-agá, pegava o avião. Pagamos tudo, meu amigo, providenciamos a passagem.

Eliseu

Não gosto de avião, fico nervoso. Voei uma vez, me deu um troço aqui. (Na barriga.)

Val

Seu filho voará sem parar. É melhor ir gostando de avião.

Eliseu

Eu é que não vou com ele, fico nervoso. Ele é cabeça fresca, eu não. 

Val

Seu filho vai passar mais tempo no ar que no gramado, pensou? Hoje cá, amanhã no Japão.

Eliseu

Não quero pensar, fico nervoso.

Val

Pegou táxi, não? (Ele faz que sim.) Ana Lúcia vai lhe reembolsar. Quanto foi?

Eliseu

Quarenta e oito.

Val (No interfone.)

Ana Lúcia, traga cinquenta reais para seu Eliseu. (Desliga.) O táxi lhe reembolsamos já, as passagens foram pagas e o que mais precisar cobrimos aqui. Você terá uma grana extra que lhe pagaremos hoje também. Bom assim?

Eliseu

Muito lhe agradeço. (Ana Lúcia entra, fecha a porta e entrega os 50 para Eliseu; vai sair, mas ele a chama e revira o bolso.) Foi 48, tem troco.

Val

Deixe disso, amigo Eliseu.

Eliseu

Comigo é assim. (Conta o troco em moedinhas que soma na palma da mão; enquanto isso, Valfrido e Ana Lúcia trocam sinais a respeito de Numa além-porta. Ela recebe as moedinhas e sai, cuidadosa ao abrir e fechar a porta. Valfrido a olha e vigia a porta.)

Val

Já cuidamos de tudo para você. Vai ficar num hotel ótimo, o melhor café da manhã de São Paulo, a melhor ducha quente. Cai água que nem cachoeira, chuá.

Eliseu

Disso eu gosto.

Val

Cuidado com o controle da ducha. Sei de um sujeito que entrou direto embaixo e se pelou todo, ui, ui. Tempere de fora, só entre depois.

Eliseu

Pode deixar. Sou mineiro, desconfiado.

Val

Cama com colchão pneumático, já pensou? (Faz gesto ondulatório.)

Eliseu

Não sei o que é.

Val

Logo saberá, não vai querer outra vida.

Eliseu

Gosto da minha vida.

Val

Frigobar, ou seja, geladeira no quarto do hotel. Beba o que quiser, coma o que houver, o que não houver peça pra copa e receberás. Recomendo o sanduíche de lombinho. O Escritório Valfrido, este, cobre tudo. Se quiser, encha o bucho sem sair da cama.

Eliseu

Vou beber, vou comer, com moderação.

Val

Quer mulher? Providenciamos mulher.

Eliseu

Tem mulher? (Olha em volta.)

Val

Tem tudo. Não é daqui, nem do hotel, pertence ao pacote vip externo, a depender da vontade do freguês. Você é vip. Quer? Mulher?

Eliseu

Gosto da que tenho.

Val

Mas você é viúvo.

Eliseu

Sou viúvo.

Val (Levando Eliseu à janela, mas parando no caminho para falar.)

Digo isso porque um rapaz que agenciamos exigia mulher, não vinha a São Paulo sem mulher pra ele. Não me cabe arrumar mulher pros outros, mas era um lutador do UFC, providenciamos mulher. Vai que ele dava com o pé na minha cara se ficasse sem mulher… Veja isto. Isto é São Paulo! O rio, a ponte, os cabos de aço da ponte, os prédios chanfrados. O rio até parece limpo.

Eliseu

Dá peixe ?

 

 

Val

Periga dar. No Natal eles iluminam os cabos e fazem outras graças, águas coloridas cambiantes e saltitantes dançando hula-hula. Chamo meus sobrinhos pra ver daqui. 

Eliseu (Olhando.)

Beleza, os prédios na água do rio. São Paulo! Estou em São Paulo!

Val

Você conhece São Paulo?

Eliseu

Vim uma vez, na mocidade.

Val (aponta)

Viu o guarda na patinete? Aquele? 

Eliseu

Não vi. (Olha.) É uma patinete?

Val

Motorizada. O bicho fica nela, pra lá e pra cá. Que vidão, não dá um passo! Se chove, bota capa e capuz e continua deslizando.

Eliseu

Eh, São Paulo! Inventam cada coisa! Patinete pra guarda.

Val

Ano passado fui a Cingapura. Os prédios de Cingapura, meu amigo, a roda-gigante, maior do mundo, seu filho vai lá. Vê aquele, um pouco mais baixo? Nele você vai dormir, sobre um colchão de ar. Fiz questão de que de lá, de uma janela, você me visse.  

Eliseu

Pra quê?

Val

Pra nada. Pra fazer tchauzinho. (Acenando.) Salve, Eliseu, tô aqui! 

Eliseu

Eh, São Paulo! 

Val

Você devia ter trazido sua nova mulher, Eliseu.

Eliseu (Olhando a paisagem e acenando também.)

Pois é.

Val

Quer uma de aluguel, pra aproveitar o colchão? Os casais navegam no colchão, uma delícia. Não é preciso iniciativa, o colchão inventa! Os lençóis alvíssimos te dão a sensação de que a mulher é só sua, que vocês se amam em lua de mel, é o amor! Te arrumo a mesma do lutador, ela aguenta porrada, ah, ah, ah. (Arrepende-se da piada.) Não supus que você dá porrada.

Eliseu

Bem me disseram que em São Paulo é fácil mulher. Não quero, fico nervoso.

Val

Você é que sabe. Mas também, o colchão é tão bom, que até sem mulher… Se mudar de ideia, avise pra alugar uma.

Eliseu

Eu trouxe a fita do garoto. (Caminha para a maleta que deixou na entrada.)

Val

A fita do garoto, maravilha. Ficou boa?

Eliseu

Muito boa. O garoto não dá bola fora.

Val

Com certeza. Tive referências dele. Excelentes referências, Eliseu.

Eliseu

É vocação, doutor Valfrido. Esse garoto foi um milagre que me aconteceu, pena que a mãe tenha morrido faz dois anos… Nem bem ele nasceu e já mexia as perninhas como um craque. Eu disse: “Vai ser craque!” Foi. (Tira da maleta a fita e acena com ela.) O senhor vai ver. Alguns podem falhar, meu menino, não.

Val

Vou apostar nele, Eliseu, não tenha dúvida. E ainda bem que sou eu. Nesse ramo como em todos há malandros, mas eu tenho uma tradição, eu tenho. (Ainda à janela.) Não é magnífica, São Paulo? No tempo de eu menino, São Paulo era o Viaduto do Chá, o Banco do Estado. Ai de mim, o Prédio Martinelli, em cima do bicho passou o zepelim. Este é São Paulo hoje. Não tarda e seu filho será o rei daqui, pensou? Ou o rei do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte, o rei de Roma. Enfim, rei. (A porta abre fortemente empurrada e Numa entra, seguida pela secretária Ana Lúcia. Está possessa e agita a bolsa como quem vai agredir com ela. Eliseu, mais próximo, se assusta e recua.)

Numa (Para Valfrido.)

Quem pensa que eu sou? Que eu sou uma cretina que fica fora e tudo bem? Que eu só tenho que esperar e mijar? Eu tenho meus direitos, cara, eu bem que tenho. Se isto existe, eu ajudei a fazer isto, cara. 

Val

Numa… querida?

Numa

Você ganhou muito dinheiro à custa de mim e agora eu fico lá, esperando como um poste? Qual é a sua, cara? Sou poste? Cachorrada é contigo, mije no poste. (Oferece-se como poste para isso.)

Val

Numa, querida, temos visita. Seu Eliseu é pai de um menino prodígio que eu vou agenciar colhendo as glórias do mundo. Ele viajou a noite inteira para estar aqui…

Numa

E eu? Eu vivi metade da vida para estar aqui, e estou na espera, lá. (Aponta a porta aberta para a sala de espera.)

Val

Você não estava agendada para agora…

Numa

Nunca precisei agendar. Agendar? Agora essa?

Val

Numa, querida…

Numa

Não diga “querida”! Não admito!

Val

Que posso dizer…?

Numa

Diga “Numa” apenas, apenas “Numa”, querida jamais!

Val

Acalme-se, Numa, temos visita. Seu Eliseu veio do coração de Minas, é pai de um prodígio, é um amigo…

Numa

Eu sou o quê? Eu que já fui tudo aqui? Me deixam lá, na espera… Horas! (Olha dramática para Eliseu, como se dele esperando resposta.)

Eliseu

Isso não se faz.

Numa

Horas! O senhor concorda?

Eliseu

Completamente. Quando cheguei, a senhora já estava, saiu do lavatório, voltou pro lavatório.

Val

Pegou-me de surpresa, fora da agenda…

Numa

Eu fiz a fortuna deste homem. (Aponta Valfrido.) Dei-lhe o melhor que eu tinha, a genialidade do meu pai, porque meu pai era gênio, e fico na espera. (Tem uma quebra na voz, como quem vai chorar. Aponta a recepção.)

Val

Numa, modere-se, peço-lhe.

Numa

E, não bastasse, dei-lhe meu amor…

Val

Numa!

Numa

Dei-lhe meu corpo…

Val

Numa!!!

Numa

Houve um tempo, senhor… senhor… Sua graça, por favor?

Eliseu

Eliseu, senhora. Eliseu Batista da Silva, seu criado.

Numa

Houve um tempo, seu Eliseu, em que eu não existia por mim, eu existia em função deste homem. Ele me comia todo dia, eu era dele. Comia-me aqui (indica o ambiente), ali (a poltrona reclinada) e ali (o tapete próximo à janela). Aqui (indica o traseiro). Penetrava-me como um garanhão aranhoso.

Val

Aranhoso?!

Numa

Era assim, seu Eliseu, todo dia ou noite. Agora me deixa lá enquanto fala com Sófia, a maluca das reencarnações, a Joana d’Arc do boquete. Porque eu bem sei que você falava com Sófia, Valfrido. (Olha para Eliseu.)

Eliseu

Não pode, ah não pode.

Val

Ela exagera, Eliseu. Ela aumenta pra lhe causar pena.

Ana Lúcia (que assistiu a tudo)

Seu Val, desculpe, não pude fazer…

Val

Tudo bem, Ana Lúcia, eu sei como as coisas são.

Numa (Ainda voltada para Eliseu.)

Um minotauro, penetrava-me à força na retaguarda, o senhor não imagina o que me fizeram nessa poltrona. Repugna-me olhá-la. E não era eu, era ele, coitada de mim. Meu pai genial cantou o amor, o amor corporal também, mas com torneios de linguagem, poesia e sentimento. (Apanha um livro em lugar de honra numa pequena estante, abre-o e declama.) “Ela, gazela, dele acercou-se. Despojando-se da peça íntima com agílima destreza e exibindo-se no despudor da púbis orvalhada, lhe disse fremente de paixão: toma-me!” O amor humano, seu Eliseu, corporal como é, pode ser belo, sublime e assim se realiza nas palavras imortais de meu pai. (Revira o livro encadernado, mostrando-o.) É ou não é?

Eliseu 

É o que eu sempre digo, dona Numa.

Numa (Indica Valfrido.) 

Já esse, seu Eliseu, abusado que é, aprofundava-se. Às vezes, muitas vezes, nem a persiana baixava e São Paulo via o que ele fazia com a pobre de mim. Aqui!

Eliseu

São Paulo, o santo?

Numa

São Paulo, a cidade. (Gesto largo indicando a cidade.)

Eliseu

Não pode.

Val

Afianço-lhe, caro senhor, há exagero em tudo isso. Ela só não exagera na genialidade do pai. Não sou abusado, muito menos aranhoso. Aranhoso, benza Deus! Era um gênio, o pai, a nação o homenageia. Mas…

Eliseu

Vou-me embora. (Abre a maleta correndo um zíper rascante, enfia nela a fita e fecha o zíper.) Pego o ônibus do meio-dia.

Val

Como pega?! Nem conversamos ainda. O senhor tem um contrato para assinar…

Eliseu

Não assino.

Val

Paguei sua passagem, paguei seu táxi, hotel, adiei compromissos…

Eliseu

Eu lá vou botar meu menino na sua mão? Pro senhor enrabar ele?

Eliseu

Meu senhor, sou um empresário, não sou um monstro. Esta senhora herdou do pai genial a imaginação sem limites. Fizemos amor, sim, mas eu a amava, Eliseu. No passado, no passado. Eu a amava, amo ainda, quanto é possível amar uma tal criatura. Amava e amo o pai dela, a obra do pai. O pai morreu; porém, para mim, viverá sempre. Para o mundo viverá, deixou sua obra magnífica. (Pega o livro e o mostra, abre e lê.) “Fremente de paixão, toma-me.” Esse trecho é tão emocionante que o livro, aberto ao léu, abre nele. “Orvalhada!” (Demonstra a abertura do livro na página.) “Toma-me.” (Dá um passo na direção de Eliseu, que recua.) Já nosso amor, meu e desta senhora, esse ainda vive, só que morreu, não existe como realidade carnal pra nenhum de nós, que se há de fazer, é a vida… O pai genial, sim, sua obra vive, e viva que vive!

Numa

Viva que vive, porque lhe dá lucro. 

Val

Porque enriquece o país espiritualmente. É o que não canso de dizer.

Numa

Meu pai foi, é Carlos Augusto Montalvo, seu Eliseu. Mineiro como o senhor, como João Guimarães Rosa.

Eliseu

Já ouvi falar de João Rosa, mas ouvi também de Augusto Montalvo, orgulhos de Minas.  É nome de rua, não na minha cidade.

Val (Indica Numa.)

Augusto Montalvo, um grande escritor, pai de Numância Montalvo, esta senhora, paulista mas mineira de sangue. Ela, filha única de Montalvo até segunda ordem, ela própria é escritora, ganhou prêmios. Escreveu “Borbulhas n’alma”, que esteve por uma semana na lista dos mais vendidos da Veja.

Numa

Duas semanas!

Val

Duas semanas.

Numa

E na lista ficaria se não tivesse esse título horrível, que você escolheu, você impôs. 

Val

Peguei uma frase do livro.

Numa

Uma frase é uma frase, está no contexto. Não servia pra título.

Val

Ademais, ene apóstrofo, “n’alma”, é criativo pra burro.

Numa

É uma merda.

Val

A maldita mídia, que o PT faz bem de esculhambar, implicou com o título. A mídia!

Numa

Fiquei sendo a mulher das borbulhas. Recebi um e-mail desenhado, eu borbulhosa! Borbulhoso é tu!

Val

Quem liga para piadas da mídia? Da mídia eletrônica? Vale a eternidade. E, caro Eliseu, “Borbulhas n’alma” é eterno, como a obra do pai desta senhora, Montalvo. (Inclina na estante outro livro, sem tirar.)

Numa

Jamais chegarei perto da eternidade de meu pai. E é justo, ele era gênio. Comparar-me a meu pai é diminuir meu pai, não admito!

Eliseu

Augusto Montalvo, sim, conheço o nome. Mesmo eu que sou do futebol ouvi falar.

Val

Todos ouviram falar. Fui amigo do pai dela, tenho quilos de fotos com ele, de manuscritos, bilhetes a mim endereçados, guardei, são relíquias. “Caro Valfrido, escrevo-lhe da Velha Albion.” Trabalhei em favor de Augusto Montalvo, orgulho-me disso. Sou um empresário e agente literário respeitado até em Nova York. E meu orgulho maior, profissional e humano, é ter contribuído para a fama e glória do pai desta senhora, seu Eliseu.

Numa

Seu orgulho é ter comido a filha de Augusto Montalvo…

Val

Não.

Numa

…com borbulhas n’alma e náldegas.

Val

Nada disso. É ter publicado a obra genial de Montalvo em mais de noventa países.

Numa

E embolsado a receita de oitenta.

Val

Ele é nome de rua… de rua, não, de um viaduto na Romênia, seu Eliseu. Esqueci como se diz “viaduto” em romeno, mas tenho fotos do Viaduto Augusto Montalvo, na Romênia. No viaduto começou um amor num livro de Montalvo, em meio às brumas do entardecer romeno, e a Romênia por isso o fez patrono do viaduto. O rapaz brasileiro na história de Montalvo não falava romeno e ainda assim brotou viçoso o amor pela linda romeninha. Boa vontade romena com o Brasil de Montalvo, o viaduto. Homenagem. 

Numa

Ele roubou meu pai.

Eliseu

Jamais roubei seu pai.

Numa

Vendeu livros pro governo e embolsou. Toda biblioteca pública do Brasil tem a obra completa de Augusto Montalvo, mas a família passa fome. Vendeu livros pro exterior e nunca prestou contas justas, prestou contas fajutadas.

Val

É uma infâmia e calúnia, isso. A família é rica. O pai dela é uma glória nacional, traduzido para 54 línguas: cinco, quatro. Graças a mim! Tem Montalvo em língua quíchua, em esquimó! Só não ganhou o Nobel porque morreu antes. Não foi pra Academia Brasileira porque esnobou a Academia, se recusou a fazer visitas pedinchando voto. Soberbo Montalvo! Queria ser aclamado sem curvar-se jamais: “Vinde a mim os pequeninos!”. Como eu prejudicaria uma tal instituição humana, Augusto Montalvo? Instituição nacional, Augusto Montalvo? Como eu poderia? (Põe o dedo numa foto na parede, de grupo de pessoas.) Este senhor. Felicito-me de cá constar, em sua excelsa companhia, Augusto Montalvo. Este.

Numa 

Prejudicar foi o que fez, além de comer Numância Montalvo, esta. (Põe o dedo na vagina.)

Valfrido

 

 

 

Eu articulei as traduções, cobrei os direitos autorais, que fluem sem cessar e lhe são repassados. Direitos autorais de paisinhos mesquinhos, ditaduras orientais que escondem a grana, árabes beduínos do deserto, fui atrás, pagaram. Pagaram com meu suor no Saara, meu risco de morte no lombo de um camelo.

Numa

E embolsou.

Val

Nem você jamais me acusou. Acusa agora, que o fluxo diminuiu, depois de tornar rica a família Montalvo. Você faz compras em Miami e espicha pra Quinta Avenida. Sua mãezinha viúva viaja com a amiga pra Europa todo semestre, e paga a passagem da amiga, a hospedagem, o perfume de Milão caríssimo. Me acusam agora, quando eu  estou aflito, agoniado, as dívidas crescem, abro essa porta e invade-me o fedor do perfume de Milão, a conta. Agora acusam.

Numa

Não tinha provas, pra sonegar você é competente. E pra me enrabar aí, foi competente. (A poltrona.)

Eliseu

Os senhores lavam a roupa suja. 

Val

Cheirando a perfume de Milão.

Eliseu

Não quero saber, vou-me embora pra minha terrinha e minha casinha. Não me acostumo com a gente daqui. (Pega a maleta de novo.)

Val

Eliseu, meu amigo, você não conhece São Paulo, a cidade. Não conhece os artistas de São Paulo, os intelectuais, os prósperos, sua fauna humana metida a besta, sua burguesia com seus carrões. Essas pessoas aqui, vou lhe ser sincero, são… cínicas. Exageradas, gozadoras, entende? Elas falam coisas em que não acreditam, falam por falar, para causar impressão. Xingam-se, depois vão beber cerveja. Eu amei esta senhora, oh, como a amei! Ela até me traiu uma vez e eu perdoei.

Numa

Valfrido, para com a roupa suja.

Val

Eu a amava. Oh, céus, a amava demais. Porque ela cá está, com esse jeito mandão de presidenta da República, mas sabe ser mulher, bem que sabe, quando quer. Sussurrou-me no ouvidinho ternos gemidos sensuais, ui, ui, mais, mais.

Numa

Não desça a baixarias, infame. Não seja mau-caráter além do que já é.

Val

Ela gosta das baixarias, por isso as digo, mais, mais, ui, ui, no rabinho, amiguinho. Eu quis casar com ela, já era casado, sou casado, meio separado. Fizemos amor aqui, confesso, três ou quatro vezes…

Numa

Trezentas. Não diminua nas trepadas como diminuiu nos livros vendidos.

Val

Fizemos para celebrar o ambiente, dar sorte. Este é um escritório que precisa da sorte contra o azar, porque aposta em talentos e os talentos são… furtivos, esquivos. Publiquei um outro sujeito que vendeu a primeira edição em duas semanas e encalhou a segunda edição, até hoje, tá lá encalhada no depósito, ele teimou em ser esotérico em tempos de evangélico, ou o contrário. E o sujeito me joga na cara que não vendo seu esoterismo. 

Eliseu

O senhor devia publicar as vidas dos grandes craques do futebol.

Val

Craque não tem vida, tem gols. Faz muitos anos já, amigo Eliseu, não aqui, mas no centro velho de São Paulo, subia-se pela escada no último andar, apostamos em Augusto Montalvo, mineiro como o senhor. Escrevia ótimas histórias de um jeito complicado, entre o alfabético e o escalafobético. Inventava palavras. Cultivava impulsos místicos de sensualidade, seus acasalados trepavam rezando. (Faz a mímica disso.)

Numa

Cafajeste, respeite meu pai, não deboche das suas trepadas transcendentais!

Val

Dentais, ele mordia. Daria certo, Augusto Montalvo? Pois não é que deu? Então prosperamos e Augusto Montalvo mais ainda, comprou sítio, apartamento de cobertura, viajava todo ano pra Jamaica. De minha parte comprei este escritório no novo cartão-postal de São Paulo. Eu estava no auge do amor pela filha única de Augusto Montalvo, a filha querida Numância, homenagem à Espanha e a Cervantes. Oh, por ela eu abandonaria meu lar, eu… Faria qualquer coisa desatinada. Fiz isso, desatinado: fizemos amor aqui, eu e Numância, Numa, esta. Aqui. E acolá, no colchão pneumático. (Gesticula ondulante para a janela.) Os amantes acreditam nessas coisas, que o local em que se exerceu o ato do amor se… se sacramenta.

Numa

Sacramenta, pois, pois.

Val

Sacramenta, exatamente.

Numa

Excrementa. Você peida aí. (A poltrona.)

Eliseu

Os senhores antes se arranjavam sem mim, continuem. (Pega a maleta.) Volto pra lá.

Val

Como volta? Acabou de chegar!

Eliseu

Ontem fui fazer barba e cabelo na minha terrinha, ia viajar, sabe o que o barbeiro Heliodoro me disse? Ele disse, “muito cuidado, Eliseu amigo, se o home lá te oferecer tudo, prometer o mundo e o fundo, abre o olho. Ele pode te engrupir, cai fora”.

Val

É natural que as pessoas desconfiem. Mas você logo vai ver, Eliseu, que nos negócios bem-feitos todos ganham, não é preciso que um passe a perna no outro. Todos compram sítio, todas fazem compra na Quinta Avenida, as viúvas se perfumam em Milão. Seu menino prodígio será prodigiosamente rico e você também, podes crer.

Eliseu

Meu barbeiro disse mais, ele é ladino. Disse, “se quiserem te dar mulher pra passar a noite, é batata: estão engrupindo você. As putas de São Paulo ajudam os negócios”.

Val

São Paulo não tem putas, tem mulheres sensuais.

Numa

Obrigada pelo que me toca. Seu Eliseu, reconheço que eu estava exagerando. Eu não recomendo para nenhuma mulher que ame este homem, é um amante cruel. Mas não é um negociante tão ladrão assim. Eu vigiei ele e meu pai ficou rico, é verdade. Não ricoooooo, mas rico. Não tão rico quanto o gênio dele merecia, faltou o Nobel, mas rico. Se o senhor quiser, me dê procuração e eu vigio as contas do seu filho para o senhor.

Eliseu (Para Val.)

O senhor concorda?

Val

Se eu concordar, amigo Eliseu, você vai pensar que esta nossa briga de antigos amantes é um truque combinado. Vai pensar que somos amantes ainda e estamos fingindo uma briga pra “engrupir” você. O seu barbeiro Heliodoro vai confirmar isso, aumentar, e você mais raiva sentirá de mim. 

Eliseu

Não penso uma coisa dessas, patrão.

Val

Não pensa porque você é uma pessoa boa. Ainda assim poderia pensar, você está entrando num mundo perigoso, Eliseu, o mundo dos negócios e do dinheiro. Quero lhe dizer que eu concordo, sim, com esta senhora Numância conferindo as contas, todas as contas. Não tenho o que esconder, ganhamos unânimes com isso. Aceito a fiscalização e vou pagar um pró-labore para dona Numância checar as contas, está bem assim? Tudo passará por ela, se o senhor quiser. Ela sabe fazer contas, contava o dindim do pai e me enchia o saco por centavos. Mas só se o senhor quiser, dona Numância não está aqui para se meter nesse negócio. O negócio dela é o bastardo, não é o prodígio seu filho, e do bastardo trataremos às quatro da tarde, não agora. (Para Numa.) O bastardo, dona Numância, não o prodígio. Às quatro, como a senhora está agendada.

Numa

Do bastardo cuidaremos. 

Eliseu

Pode ser.

Val

Pode ser o quê, Eliseu?

Eliseu

Ela pode ajudar nas contas e ganhar algum nisso. Confio nela.

Val

Mas… mas com ela é o bastardo!

Numa (para Eliseu)

Obrigada, o senhor é um amor. Dispenso o pró-labore, faço de graça. E saiba que quando faço de graça, faço bem! Gostei do senhor, seu Eliseu. Alguma coisa no senhor é limpa, autêntica. Nem entendi o que o seu filho faz, mas gostei. Por acaso é um menino prodígio da música, toca violão, canta? Música e violão é coisa de vagabundo mas dá dinheiro, se for uma bosta sertaneja.

Eliseu

Meu filho joga bola, dona Numa. Tem o dom da bola. Vai ser o melhor do mundo daqui uns anos.

Val

É um craque da bola. Um virtuose do século 21, com a vantagem de que não escarra sangue como o pianista Chopin. E é fácil de entender nas habilidades machas, sem as firulas de linguagem inventadas pelo gênio seu pai que atrapalham nas traduções. Os livros atrasavam nas traduções! Da China ligaram pra mim: o que é isto que Mister Montalvo escreveu? Eu lá sabia? Botem a chatice que quiserem. 

Numa

Santa ignorância! Um gênio, ele, montado num asno, tu.

Val

O garoto faz firulas compreensíveis, não as afrescalhadas de Augusto Montalvo. (Controla uma bola imaginária com pés e pernas.)

Numa

Você nunca entendeu meu pai. Entendia o dindim que ele trazia, ele mesmo disse. Disse que você não leu dez páginas de cada livro dele, no português dele, não no chinês. Cinco páginas!

Val

Cinco páginas eu li, sim senhora. Dez, já não juro…

Numa

Leu cinco da obra completa.

Val

Mais! Eu lia as sacanagens. Ele era sacana em muitas páginas.

Eliseu

Mas meu menino é um gênio, todos dizem. O senhor disse.

Val

Um gênio, sem dúvida.

Numa

Um gênio?!

Val

Sim, querida, um gênio. Seu pai tem sucessor, o filho de Eliseu, treze aninhos.  

Numa

Já não basta a ironia de me chamar “querida”?

Val

E eu terei a honra de promover um gênio depois que o outro virou nome de rua. Nunca supus que teria novo gênio na mão, agora tenho, o menino de Eliseu, gênio do pé.

Numa

Um gênio à altura do seu entendimento. (Faz a caricatura de uma firula do futebol.)

Eliseu

Fazem piadas com meu filho? Dão risada dele ser o que é? Dele não ser doutor? Pois ele é um craque. Ele um dia vai ter multidões gritando seu nome, herói da pátria na Copa, desfilar em carro de bombeiro. (Pega de novo a maleta que tinha largado.)

Val

Certamente que sim e ainda bem! De uns tempos pra cá, apanhamos sem dó na Copa. Nossos rapazes descem em Cumbica e só a família e a tevê esperam! Mas veja, amigo, o gênio já não é tudo. Seu menino… Jáquisson, não?

Eliseu

Jáquisson, sim.

Val

…Seu menino tem treze anos e quatro meses, na fase aguda do crescimento. É urgente trabalhar seu corpo, sem esquecer sua alma.

Eliseu

A alma vai bem, ele reza. Já não tem mãe, mas vigio isso.

Val

A alma e o espírito, falo da cabeça dele.

Eliseu

É boa cabeça! Cabeceia muito bem.

Val

Não basta a cabeça boa para os combates comuns, esses de todos os meninos. Ele terá combates especiais, fora do campo de batalha do futebol. Oxalá fosse apenas no campo. Ele vai lidar com a fama que cai no colo, o dinheiro que cai, as mulheres. Sim, as mulheres, e não serei eu arrumando mulheres pra ele, avise seu barbeiro. As mulheres vêm por si aos garotos de fama. Eles deitam na cama pra dormir, elas estão debaixo da cama. E logo engravidam por artes do prodígio seu filho, as marias-chuteiras.

Eliseu

E vêm meus netos da pouca-vergonha, as bebidas, as drogas, as más companhias da bandidagem, já sei. O barbeiro disse.

Val

 

Mesmo um gênio de outro tipo, gênio das palavras obscuras e piedosas trepadas, Augusto Montalvo, deu de beber depois da fama, fumou e cheirou o que pôde e desandou com mulheres. Era adulto, velhusco, superinteligente, gênio, e caiu na rede das mulheres. Até das jamaicanas! As mulheres são a desgraça dos homens bons. Não é mesmo, Numância?

Numa (Irritada.)

Não precisa pôr meu pai na gandaia.

Val

Você contou isso na biografia dele! Você! (Pega outro livro na estante e o exibe.) “Augusto Montalvo, meu pai”. Subtítulo: “Um gênio na contramão”. Autoria: “Numância Montalvo”.

Numa

Eu posso contar, eu conto com amor, você conta pra esculachar.

Val

E os dentes, Eliseu? É preciso cuidar dos dentes de Jáquisson.

Eliseu

O que tem, os dentes dele? Estão todos lá.

Val

Podem ter focos de bactérias. Descobriu-se cárie no canino.

Eliseu

Como sabe? Aparece na foto?

Val

Tenho minhas fontes, e fotos. Você não sabe, investiguei seu menino. Teve sarampo aos oito, escarlatina aos onze. Caxumba que desceu.

Eliseu

Desceu mas não ficou broxa. Sarou total. Já põe nas coxas das coleguinhas, me contou, e põe rijo. Com o maior respeito do cabaço delas.

Val

Eu sei, eu bem sei.

Eliseu

Como assim? Espiou ele? Como espiou?

Val

Mandei espiar. Não, claro, as encoxadas rijas. Mandei espiar, porque o organismo dele tem que ver com os meus negócios. E para isso há um custo. Estou investindo no seu menino faz quatro meses, Eliseu. Pus dinheiro aí que você nem faz ideia. Essa fita que você trouxe, a bem dizer não precisava. Um “olheiro” meu andou por lá, em Formiga, filmando o menino de dentro do carro, no bate-bola da quarta-feira. Sentou na beira do campo, o “olheiro”, coçava o saco. Não era o saco, era uma câmera ligada. Não perceberam em Formiga.

Eliseu

Como não? O barbeiro sabe. Ninguém coça o saco com um dedo só.

Val

Desconfiaram.

Eliseu

Truque demais em riba do menino. Vai que sequestram ele…

Val

Foi uma espionagem a favor do espionado. Fizemos um check-up do seu garoto antes de chamar você aqui. E ele mesmo não soube. Examinamos a urina dele, a saliva. Colhemos a urina no vestiário. A saliva no gramado. Os jogadores têm a mania de cuspir no campo, o seu cuspiu.

Eliseu

Craque cospe.

Val

Recolhemos, examinamos.

Eliseu

Ele nunca precisou se dopar.

Val

Não pensamos em doping. Queríamos uma checagem completa, saber do sangue bom ou ruim dele.

Eliseu

Se fosse ruim?

Val

Nada feito.

Eliseu

Se não fosse bom de bola, um craque?

Val

Não chamavam. Nem pisavam em Formiga.

Eliseu

Vou embora. (Pega a maleta.) Não quero meu garoto espiado.

Val

Espiado ele continuará sendo, é o destino dele. Vão xeretar cocaína em todo mijo de pós-jogo. Mas a fase inicial passou. Seu garoto foi aprovado, parabéns, você está aqui. Pagaremos os dentes, ele tem uma panela no canino.

Eliseu

Devo agradecer?

Val

Seria justo agradecer. São milhões de pais querendo filho craque Brasil afora e você aqui. Fique feliz, homem. Já lidei com um pai que queria o filho famoso e o filho era escrofuloso, pulmão fraco, nada feito. Com seu filho aprovado, obturado, tratado, treinado, logo você dará gorjetas gordas ao barbeiro.

Eliseu

O garoto quis vir junto, não deixei. O barbeiro disse pra não trazer.

Numa

Muito bem! Ele só pisa aqui com contrato assinado e “luvas” pagas.

Eliseu

Como a senhora sabe?

Numa

Sei também que foi ideia do barbeiro.

Eliseu

E foi. Então eu não trouxe ele. O senhor já tem o contrato aí?

Val

Está aqui, amigo Eliseu. Quer ler e assinar?

Eliseu

Vou ler no hotel, se o senhor não se importa. Assinar, amanhã.

Numa

Vai ler no telefone para o barbeiro.

Val

Eliseu pode ler pra quem quiser, é um papel honesto, bom para ambas as partes. (Pega da mesa o contrato e o estende a Eliseu.) Leve, leia no hotel, converse à vontade no interurbano, o Escritório Valfrido Lopes, este, paga tudo. Esgote o frigobar, tem um suquinho de uva com teor alcoólico. Temos firmas a reconhecer, você fica em São Paulo até depois de amanhã.

Eliseu (Pega o contrato, abre a maleta, guarda-o e tira outra vez a fita.)

Obrigado, patrão. Queria que vissem meu filho assim mesmo.

Val

Veremos já. Seu filho é o artista, vamos apreciar a sua arte que há de encantar o mundo. Mas ele tem treze anos, demora uns três até dar frutos. Nesses três, só vou ter despesas com ele e não são poucas. Considere isso ao ler o contrato. (Enquanto fala, cuida de ligar o televisor para pôr a fita, no que se revela incapaz e é ajudado por Ana Lúcia que vem da outra sala; ela é muito mais eficiente.)

Numa

Avise o barbeiro.

Eliseu

Eu não sou uma mula manca que depende do barbeiro. Heliodoro é meu amigo, mas eu tenho raciocínio. (Bate na testa.)

Faz-se um silêncio rápido, como se Numa e Val pensassem no que ouviram. Val bate palmas.

Val

Assim é que se fala, amigo Eliseu. É o que eu lhe dizia, os cínicos da capital. Eles se provocam, se cutucam, mas não levam as coisas a sério. Reaja a eles, responda à altura.

Eliseu

Vou reagir.

Val

Outra coisa, Jáquisson vai ter que falar línguas, inglês é fundamental, italiano, espanhol… russo, russo é importante.

Eliseu

O garoto não é de estudo, não. Negócio dele é a bola e eu aprovo. Se estuda, penso que tá doente.

Val

Tá doente. Lhe arranjamos uma namorada inglesa, depois uma italiana e assim vai. Russa, conheço uma Liudmila de Moscou. Nada de estudo. Aprende em cima do colchão pneumático, blá, blá, blá, babucha, cabucha, xoxótski, esporretóski.

Numa

Seu russo, pelo visto, é pior que seu inglês.

Eliseu

Não sei, não. Mulheres? Acabam com o gás do garoto. 

Numa (Para Val.)

Não tem vergonha de passar suas putas eslavas pra um garoto?

Val (Para Eliseu.)

Eliseu, amigo, vê como é São Paulo? Esta moça graciosa, meiga às vezes, diz coisas monstruosas em que ela mesma não acredita. Liudmila é uma russinha também meiga mas nunca cruel, filha do meu amigo russo Alexei, boníssimo, cultíssimo, fala seis línguas. Ela, Liudmila, aprendeu inglês em Oxford, é uma graça de garota virginal. Pensei numa amizade, num primeiro amor de pegar na mãozinha, de fazer coraçãozinho quando marca gol. (Faz coraçãozinho comemorando.)

Numa 

Um amorzinho neste valhacoito ininterruptus?

Eliseu

Melhor deixar o garoto fazer suas escolhas.

Val

Aí é que está. Garotos comuns fazem escolhas na vizinhança. Seu garoto não é comum. Se ele pode namorar e aprender russo, por que não? Se bem que não se manda um jovem craque pra Rússia, faz frio danado lá e a Rússia é a Sibéria das glórias futebolísticas. O paraíso é a Espanha, a Itália… (Entoa uma tarantella, até dança. A instalação da fita está concluída e as imagens, que o público não vê, começam a aparecer. A secretária Ana Lúcia havia voltado para seu posto na sala de espera, mas entra apressada e vem sussurrar no ouvido de Valfrido.)

Eliseu (Os olhos fixos na tela.)

Jáquisson, esse. Meu garoto. Eu joguei e não era mau. Mas Jáquisson! Deus faz uns milagres que não entendo. Tenho outro, Ericsson, quinze anos, é bom aluno na escola, não é craque.

Val

Gente boa, tenho que me ausentar uns minutos. Vou ao telefone na sala de espera. Continuem vendo, já volto. Ana Lúcia, senta aqui, veja enquanto eu atendo. (Sai.)

Eliseu (Ofendido.)

Se o dono do negócio não assiste, melhor é parar de ver e esperar.

Numa

Também acho. Podemos fazer pausa enquanto o dono telefona.

Ana Lúcia

Eu posso apertar “pausa”, mas é capaz que demore.

Numa

É ligação internacional?

Ana Lúcia

Não.

Numa

É Sófia?

Ana Lúcia

Não sei.

Numa (Convicta.)




 

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