Veja os textos vencedores do 1º Concurso de Crítica da SP Escola de Teatro

Publicado em: 21/10/2015

Há um mês, a SP Escola de Teatro lançou seu primeiro Concurso de Crítica aberto ao público. O desafio era criticar o espetáculo “O Filho”, do Teatro da Vertigem, que faz temporada na Vila Itororó até o dia 1º de novembro.

 

Os vencedores do desafio são Dario Félix, Isabela Lisboa e Bruna Menezes. Parabenizamos os três e agradecemos a todos que enviaram as críticas.

Serviço
O Filho

Vila Itororó. Rua Pedroso, 238, Bela Vista.
De 5ª a sábado, 20h; dom., 19h. Até 1º/11.
R$ 40 (R$20 a meia)

 

Crítica de Dario Félix

Quando uma pessoa vai ao teatro, provavelmente espera embarcar numa história e ser levada para outro mundo, distante do seu. Ela quer se desconectar de sua própria vida, de sua realidade. Toda montagem deveria possibilitar ao público a imersão num novo universo. O espetáculo “O Filho”, do Teatro da Vertigem, atinge esse objetivo de maneira profunda, desde o primeiro momento, quando os espectadores adentram a área de encenação. Ali estão centenas dos mais variados objetos — relógios, berços, televisores, cabeceiras de camas, fogões, tudo assumidamente velho. Eles nos levam a sentir que estamos em meio a um entulho e, mais do que isso: somos parte desse entulho.

 

A proposta da cenografia de Marisa Bentivegna é ousada e essencial para que o trabalho cause o impacto que tem sobre o público. A proximidade entre atores e espectadores — que são convidados a sentar em sofás posicionados em vários lugares — permite que a troca ocorra de maneira mais intensa. Além disso, a escolha de onde sentar possibilita viver uma experiência única, pois a visualização do espetáculo será diferente de acordo com o lugar escolhido.

 

Esse caos visual, cheio de elementos a serem descobertos no decorrer do espetáculo, ajuda a enfatizar o foco da montagem, que é discutir as relações entre pais e filhos — em muitos casos, caóticas. Por mais que a história retratada tenha suas particularidades, os temas são universais: a convivência entre pais e filhos, a transformação de filhos em pais, o modelo de educação dos pais com seus filhos — inclusive, com a repetição dos mesmos erros, que antes eram criticados. A montagem é uma adaptação da obra “Carta ao pai”, de Franz Kafka. Por meio das palavras, o autor faz um desabafo, avaliando sua relação com o pai e tecendo uma série de críticas ao progenitor. O Teatro da Vertigem aproveita essa história singular para lembrar ao público que as relações humanas podem revelar muitas semelhanças.

 

O elenco é coeso e extremamente competente. As personagens são interpretadas de maneira visceral. Sergio Pardal dá vida a Bruno — o filho, que depois se torna pai. Os conflitos deste homem ficam explícitos nas nuances de Pardal. Impossível não falar sobre a presença de Antônio Petrin, que interpreta o pai de Bruno. O ator traz à cena sua experiência, mas se abre para o novo ao participar de uma montagem que exala contemporaneidade. A energia do elenco é contagiante e faz com que o resultado seja uma tensão crescente e recorrente. O desenho de luz e a trilha sonora auxiliam na conservação da atmosfera densa, por meio do uso de iluminação que valoriza a penumbra e de música incidental a quase todo o momento.

 

Outro aspecto da montagem a ser comentado é o texto, escrito por Alexandre Dal Farra, que mescla os registros dramático e narrativo. Este último possibilita a inserção do ponto de vista de cada personagem a respeito da história. Além disso, todas as cenas de sexo são narradas. A opção por narrá-las parece resultar num efeito mais violento do que dramatizá-las. As narrações, aliadas a imagens simbólicas belas e fortes — e de extrema conotação sexual — deixam que o espectador use sua própria imaginação para completar a cena. Há de se ressaltar que o ato sexual é necessário para o surgimento de um novo filho e, talvez, sejam esses os momentos mais marcantes do espetáculo.

 

A direção de Eliana Monteiro é acertada. Os elementos técnicos e humanos estão orquestrados de maneira equilibrada e inteligente. Apesar de haver uma encenação marcante, ela não encobre os atores. Ao contrário, está a serviço do elenco. As escolhas estéticas não são protagonistas da montagem, pois são coerentes e estão bem trabalhadas.

 

“O Filho” é um espetáculo primoroso do Teatro da Vertigem. Depois de seu término, é preciso um tempo para se desconectar da cena e voltar ao mundo real. Assistir à montagem é vivenciar uma experiência sensorial. E é difícil sair sem se questionar: “que mundo é esse que aguarda os nossos filhos?”. O espetáculo responde a essa pergunta. E na resposta, não há qualquer esperança.

 

Crítica de Isabela Lisboa

Ao adentrar o espaço cênico de “O Filho”, espetáculo do grupo Teatro da Vertigem, o público invade e é invadido por uma paisagem que denuncia acúmulo, desgaste e abandono. Com o decorrer da peça, livremente inspirada em “Carta ao Pai”, de Franz Kafka, nota-se que essa atmosfera de descarte e bagunça representa a vida do protagonista, Bruno (Sergio Pardal), em suas relações, atitudes e escolhas. São roupas, objetos e móveis quebrados que se repetem e se amontoam semelhantemente às suas falhas e hesitações.

 

Como um visitante invisível, cada espectador arranja um cantinho no sofá para assistir à desgraça de um filho que tenta ser pai, mas mal sabe ser homem. De tão próxima, a plateia acaba fazendo parte da mobília da(s) casa(s) por onde Bruno passa… Sentindo de perto a lascívia, a ojeriza e até mesmo a indiferença que emanam os corpos das mulheres que ele penetra… Rindo, desacreditada de sua sinceridade errante.

 

Do diálogo inicial, travado entre Bruno e seu pai (interpretado por Antônio Petrin), têm-se uma pista sobre de onde vem boa parte de sua covardia. O pai despeja no filho pressões de cunho financeiro e sexual com o brio de um macho alfa às pressas de fazer perpetuar sua linhagem. Suscetível, o filho faz também das mulheres uma espécie de depósito. E, desse moto-contínuo, surgem diversos vínculos frágeis, que se sustentam ora por rotina, ora por obrigação.

 

 “Ela ficou grávida do meu pinto”

 

A narrativa é manipulada com primor tanto pela escolha de palavras do dramaturgo, Alexandre Dal Farra, quanto pela mecanicidade intencional com que são ditas pelo elenco (composto também por Mawusi Tulani, Paula Klein e Rafael Lozano) em algumas situações. Nos diálogos, ocorre um preciso desrespeito ao que é falado, com ações que ignoram ou contrariam propositalmente o texto. Da mistura entre sentidos e inconsciente coletivo, constrói-se a cena em uma camada ainda mais subjetiva e perversa, onde a figura do patriarca é insistentemente questionada, diminuída.

 

No texto original, Kafka centraliza a interlocução em seu pai, Hermann Kafka, e discorre sobre a dificuldade em administrar a complexa herança relacional dele recebida ainda em vida. Na montagem, essa crise é atualizada por um contexto que inclui homens pressionados à frieza, à ascensão financeira e à virilidade entre @s reféns da cultura machista. Mesmo abrangente, o tema não tem dificuldade para caber na concepção intimista de Eliana Monteiro para a temporada na Vila Itororó.

 

É um Vertigem não tão ousado como de costume – e bastante ousado, exatamente por isso –, contando uma história que pode ser absolutamente particular ou não. Pode pertencer exclusivamente a Kafka e seu sentimento de opressão, lá em 1919. Ou a Bruno, esse cidadão comum que, por não ter grandes ambições, mais parece uma fábrica de fracassos. Mas pode também ser um prontuário que não apenas lista, como denuncia sintomas da representação social masculina e suas implicações.

 

Crítica de Bruna Menezes 

O Teatro da Vertigem, desde 1991, é reconhecido pela Concresp ( Conselho Municipal de Preservação do patrimônio histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo), como patrimônio imaterial cultural da cidade. Presente na cena teatral há vinte quatro anos, realiza espetáculos em locais não convencionais e se apropriando de espaços urbanos, uma forma de elucidar ao público a relevância da ocupação artística na cidade e resgate da memória desses espaços, como forma de expressão artística e política.

 

Em março de 2015 o grupo iniciou o processo colaborativo do projeto “Karta ao Pai – O Filho”, espetáculo que representa um ponto de virada na trajetória do grupo, no que diz respeito a adaptação de espaços. O local escolhido para a encenação foi o Galpão do Sesc Pompéia, antiga fábrica de tambores. O espetáculo assina a direção de Eliana Monteiro e dramaturgia de Alexandre Dal Farra.

 

A peça “O Filho” é uma tentativa de uma resposta contemporânea a esse pai tirano. O pai de Bruno, representa um pai que nunca deixou de ser filho, desde o inicio do texto ele sente a necessidade de ensinar ao Bruno “Coisas sobre a vida”, mas ele mesmo não se leva a sério e não se preocupa essencialmente com o filho. O Pai aparece na vida de Bruno de passagem, e como Pai “precisa dizer umas coisas que aprendeu com o tempo” e volta a seguir sua vida de bares e mulheres- trajetória construída pela encenação.

 

Bruno é levado pela vida e da mesma forma leva a história, se tornando pai sem perceber ou entender sua condição, não possui clareza do que é, o seu olhar perdido e fraco, organiza o olhar da peça, um olhar que destrói e se transforma em linguagem, um constante estado de desencache.

 

A personagem Bruno possui uma relação sexual forte com as mulheres que atravessam sua vida, entretanto, ao se tornar pai é como se não fosse capaz de se assumir nesse papel e vai embora, o único filho que ele não assume é o de Júlia “Não queria ver o corpo daquela mulher deformar e consumir tudo que ela tem”.

 

O filho de Bruno vai crescendo de forma paralela a trajetória do pai, criado pela tv, sem o controle e o conhecimento de Bruno. O filho que se envolve com drogas, é criado pelas ruas, e se relaciona de forma agressiva com o mundo. Bruno pulsa curioso na sua trajetória, ele é atravessado pelas personagens e pela vida. No ponto mais avançado da sua vida em que ele adquire um nível de consciência, é morto pelo filho. O filho que mata o pai por revolta e abandono, o sangue como vírus de geração em geração.

 

O discurso das personagens é construído como se não existisse um superego, tudo o que elas pensam transforma-se em fala.

 

O cenário propõe um deposito de famílias que não deram certo, tudo aquilo que pertencia a alguém e foi descartado, o cenário de Marisa Bentivegna, é composto por objetos que foram adquiridos na casa São Luiz, todos os objetos possuem histórias. O público é colocado em meio como descarte de famílias que não deram certo.

 

A encenação não se propõe a reproduzir ou reafirmar o texto, pelo contrário, o público é surpreendido por uma fricção de ideias e ações. Essa fricção é a linguagem do espetáculo, o ato sexual narrado no texto é representado por tudo que é líquido e que afoga, a morte de Bruno, facadas que recebe do filho, é representada em saltos sobre os colhões. O de Bruno ao usar cola é resinificado pela utilização de um saco plástico pelo ator, que dentro de um saco, torna o ato em si como uma abstração dos efeitos da droga, essa fricção torna visível a loucura do mundo, os estados de desencache.

 

O que existe de mais interessante nos gêneros textuais é o hibridismo, o texto comporta os gêneros dramático e narrativo, com fortes característica de inspiração literária. A peça se passa no tempo de 20 anos, os deslocamentos de tempo e espaço são inesperados com interferências bruscas, tornando-se assim um desafio de encenação e atuação. Bruno vai nos guiando pela sua vida de forma que ele não sabe exatamente para onde vai, e o público é conduzido nesse mergulho.




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