Um olhar ligeiro sobre o Festival de Curitiba

Publicado em: 18/03/2014

* por Marici Salomão, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

SAUDÁVEL COMBINAÇÃO

Enquanto me preparo para correr para a reunião das terças na SP Escola de Teatro, puxo pela MEMÓRIA para focar sobre a PROGRAMAÇÃO da edição 2014 do FESTIVAL DE TEATRO DE CURITIBA, para o qual fui convidada. Com as atividades da SP e do SESI-British Council, vou poder assistir somente aos ESPETÁCULOS da primeira semana. Mas me encho de SATISFAÇÃO ao pensar nos espetáculos com forte acento na DRAMATURGIA CONTEMPORÂNEA nacional e latino-americana, além de uma certa ansiedade ao pensar no encontro presencial que está sendo combinado entre SPREGELBURD e eu (estamos tentando trazê-lo a São Paulo no segundo semestre).

 

RAFAEL SPREGELBURD, dramaturgo, diretor e ator argentino, é um dos nomes mais cultuados do teatro CONTEMPORÂNEO mundial. Responsável por uma cena altamente expandida, que trafega na contramão de um teatro palatável. Em 2011, levamos “APÁTRIDA – DOSCIENTOS AÑOS Y UNOS MESES” ao FIT-Rio Preto. Tive o privilégio de integrar o corpo CURADOR e, entre um evento e outro, troquei rapidamente algumas palavras com esse multiartista portenho, que, aliás, é dono de uma simpatia e uma educação ímpares.

 

“SPAM”, o espetáculo com direção, dramaturgia e atuação de SPREGELBURD, é uma ópera falada, com um enredo que me pareceu deliciosamente intrincado, sobre um homem que depois de sofrer um acidente e perder a memória, é obrigado a RECONSTRUIR SUA VIDA e envolve-se em situações anódinas.

 

Outra montagem que aguardo com ansiedade é “2 X MATEI”, textos do romeno MATÉI VISNIEC, com direção de outro multiartista, GILBERTO GAWRONSKI. O dramaturgo é considerado um reinventor do ABSURDO, herdeiro maior de BECKETT. Aliás, um dos textos leva no título o nome mais famoso de personagem contemporâneo  “O ÚLTIMO GODOT”. (Lembrando que as peças de VISNIEC hoje podem ser lidas em português, graças à publicação vertiginosa da obra dele pela editora É REALIZAÇÕES).

 

O FESTIVAL centra um olhar sobre as questões da DRAMATURGIA CONTEMPORÂNEA, com foco na América Latina. Mas o Brasil me parece MUITO BEM representado, por exemplo, no espetáculo “CAIS OU DA INDIFERENÇA DAS EMBARCAÇÕES”, com texto e direção de KIKO MARQUES, um trabalho de pesquisa intensa e de resultado exuberante em torno de três gerações de famílias da ILHA GRANDE. Imperdível.

 

Imperdível também conhecer os trabalhos textuais do brasileiro WALTER DAGUERRE, da italiana LETIZIA RUSSO, do IURI KRUSCHEWSKY, do DIOGO LIBERANO e do DIB CARNEIRO. Mas lembro que também há os clássicos SHAKESPEARE (“Ricardo III”, com o ator CHICO CARVALHO, é obrigatório) e um EDUARDO DE FILIPPO, com direção do mestre MARCIO AURÉLIO. Claro que nesse rápido debruçar sobre a memória da programação, estou cometendo lapsos e, com eles, alguma injustiça. No entanto, é possível afirmar que sob a chave textual, esse festival oferece um saudável equilíbrio entre dramaturgias contemporâneas e clássicas, nacionais e internacionais, literárias e cênicas.