UM FINO COSTURAR DE OPOSTOS

Publicado em: 22/07/2014

* por Marici Salomão, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

INVENÇÃO E TRADIÇÃO

 

O maior desafio do curso de Dramaturgia da SP ESCOLA DE TEATRO – e tomo a liberdade de soprar que o espírito do curso espelha o da própria ESCOLA – é o de se reinventar a cada semestre, compondo novas tessituras ou partituras para o conhecimento, sem perder, no entanto, o contato com as bases legadas pela tradição. Esse confronto entre dois estados – o presente e o passado, ou a invenção e a tradição – gera tensões muito positivas e produtivas. Contribui, na verdade, para a criação de um terceiro tecido, que é a intuição de futuro. Para ver lá na frente, é preciso saber como suspender o passo sem parar a marcha (citando o filósofo Giorgio Agamben) – eis o paradoxo motivador da criação de um curso!

 

Se a Escola estivesse engessada pela chamada grade curricular, talvez não fosse tão excitante o debruçamento sobre a criação de novos programas de aulas a cada semestre. E aí está um dos grandes diferenciais da Escola: respirar junto com o mundo contemporâneo, nesse pulsar frenético de sensações, imagens, teorias, práticas, de velocidade e vertigem, mas ao mesmo tempo – e, mais uma vez, que lindo paradoxo! – de conhecimento das bases da tradição, cujos anteparos só o passado nos dá. Criar matrizes na SP ESCOLA é como, ainda repetindo Agamben ao meu modo, estar entre um ainda não e um não mais.

 

Marici Salomão em sala de aula, em 2010 (Foto: Arquivo SP Escola de Teatro)

 

Desta maneira, o entusiasmo anda pari passu com a responsabilidade. E sempre em dose dupla – baseio-me no legado e nas teorias da dramaturgia, baseio-me no muito do que os mestres Antunes Filho e Luís Alberto de Abreu me ensinaram, e baseio-me na intuição, na vivência, nos relatos dos aprendizes e no que o mundo contemporâneo narra.

 

Turmas da manhã (módulo Amarelo) e tarde (módulo Vermelho). No primeiro caso, o eixo é a NARRATIVIDADE; no segundo, o chamado EIXO LIVRE, em que os aprendizes mergulham na descoberta e invenção de formas/estéticas/linguagens. Momento em que também vamos sobrevoar as zonas sombrias do capitalismo e poder, com Picketty como um dos guias.

 

Na Dramaturgia, uma equipe de formadores me enche de orgulho. Quero citar alguns deles, que estarão conosco neste semestre: Alessandro Toller, José Fernando de Azevedo, Aimar Labaki, Cláudia Vasconcellos, Alexandre Dal Farra, Rodrigo Fregnan, Evill Rebouças, Ricardo Aparecido Dias, César Augusto Batista. Sem falar nos convidados que pontuarão no curso para palestras, encontros muito breves.

 

Nas últimas semanas, entramos em recesso, mas a verdade é que trabalhamos muito na composição de programas estimulantes aos aprendizes e aos formadores. Gosto de pensar que não é importante meramente capitanear um rumo ao curso, mas cada vez mais ampliar a consciência de estar colaborando à emergência de novos talentos na dramaturgia, que não pensem o mundo sob regras ultrapassadas, nem, ao mesmo tempo, meramente “modernosas”. Um fino costurar de opostos, que marca a malha do curso de que tanto me orgulho coordenar.

 

* Marici Salomão é jornalista, dramaturga e coordenadora do curso de Dramaturgia da Escola