Tributo a Eduardo Coutinho

Publicado em: 06/03/2014

* por Sergio Zlotnic, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

 

Diz um provérbio chinês: “O homem tem duas orelhas e uma boca. Deveria usá-los nessa proporção”.

 

i- estória e história

Antes de ser artista – e talvez só por isso o fosse –, Eduardo Coutinho tinha uma escuta maiúscula: era bom ouvinte de estórias. Punha personagens diante das suas câmeras perscrutadoras como um psicanalista coloca seus pacientes no divã.

 

Em seu filme “Jogo de cena” (2007), Coutinho põe mulheres a relatar acontecimentos significativos de suas vidas. E, num lance genial, ele mistura aquelas protagonistas, que efetivamente viveram os fatos narrados, com atrizes que “apenas” interpretam as falas e os papéis produzidos pelas primeiras.

 

Por ocasião da morte trágica e recente do cineasta, Vladimir Safatle assim escreveu: “(…) os documentários de Eduardo Coutinho quebraram a dicotomia entre fato e ficção para instaurar uma categoria singular. Uma categoria performativa da produção, das imagens que produzem o que filmam” (Folha de S.Paulo, “Filmar o real”, 04/02/2014).

 

Em sua coluna semanal, há alguns anos, Contardo Calligaris perguntou: “A gente se declara apaixonado porque está apaixonado ou pelo prazer de se apaixonar?” (“Amores silenciosos”, Folha de S.Paulo, 26/06/2008). Ali ele nos mostra que há pelo menos dois modos de expressão: o constatativo e o performativo. O primeiro seria quase neutro na percepção das coisas e do mundo. O segundo “cria” aquilo que nos ocorre: o que percebemos e sentimos é (como que) “produzido” por nós mesmos (por nosso discurso).

 

Numa síntese: minha paixão se alimenta do próprio fato de eu exibi-la, anunciando-a a altos brados. Faço performances da minha felicidade e das minhas desgraças, aumentando-as em tamanho e intensidade. Montar essas cenas dá uma espécie de prazer! Um prazer teatral. Quase histérico.

 

É forçoso reconhecer, entretanto, se formos guiados pelo dicionário de Eduardo Coutinho, um aspecto performático de toda constatação: mesmo a “pura” percepção carrega uma porção fabricada pelo sujeito. Pois até nossas percepções são habitadas por desejos. De um modo tal que o “percebido” leva a marca do sujeito “percebedor”. O viés daquele que observa e o viés daquele que relata tornaram nos dias de hoje a neutralidade uma utopia para sempre perdida.

 

Num artigo em que examina justamente os trabalhos de Eduardo Coutinho, a psicanalista Luciana Pires indaga, à semelhança da interrogação de Calligaris: “quem relata uma história viveu ou interpreta o que conta?” (“A verdade do encontro. Revista Mente e Cérebro, São Paulo, maio 2008).

 

Nesse texto, a autora aponta para o fato de que Coutinho, em seus documentários, procede à moda de um Freud de 1895, um Freud da cabeceira da psicanálise, experimentador, dos inícios das cartografias da alma. Ali, o médico austríaco se punha a escutar eventos traumáticos relatados pelas histerias do século XIX – eventos esses que estavam na raiz da enfermidade neurótica; e que, ao serem recordados, revividos e nomeados, essa era a tese, as libertariam de seu sintoma e de seu sofrimento.

 

Como se sabe, perplexo, Freud tropeça na mentira: os adultos perversos, personagens das histórias de infância de suas pacientes, eram – em sua maioria – fantasias criadas por elas, e que expressavam a sexualidade pululando com força na criança. Uma criança nem tão inocente quanto se julgava até então.

 

Fato e ficção fazem suas primeiras núpcias nas vésperas do século XX. Senão, pelo contrário, pela primeira vez alguém reconhece uma lua de mel nesse fenômeno. Erotizações… Por amor, dizemos o que julgamos que aquele que nos escuta deseja ouvir!

 

Em suma: Freud acreditou primeiramente que escutaria uma história. Mas constata em seguida que é possível somente escutar uma estória. Esse engano quase joga no lixo, num aborto, a psicanálise que ainda nem havia nascido. Não tivesse Freud compreendido que o engano e a mentira estão no jogo da língua e no núcleo das constituições dos sujeitos falantes…

 

Do mesmo modo, Eduardo Coutinho, em “Jogo de cena”, e também em outros trabalhos de sua safra, coloca pessoas a relatar eventos. Ao fazê-lo, o documentarista persegue e interroga o estatuto de verdade, para finalmente encontrar, problematizar e discutir a mesma pedra na qual Freud tropeçara cem anos antes.

 

ii- Efeito câmera e furor narrativo…

Hoje nos acostumamos à expressão “efeito câmera”: ao perceber-se filmado, todo cidadão procede a uma performance. Quer queira, quer não, quer seja ator, quer não seja, quer seja histérico, quer não, todo humano, ao sentir-se observado, constrói uma cena que carrega uma verdade fabricada por sua própria subjetividade. Eis a mentira sincera germinando, na forma de ficção, pelos cantos de todos os campos do saber, das artes – e para além de seus muros.

 

Ao lado desse “efeito câmera”, vemos surgir nos últimos tempos algo como um “furor narrativo”: eu desejo narrar qualquer coisa antes mesmo de ter vivido alguma experiência. E assim asfixio as narrativas, subtraindo delas a sua essência, deixando-as invertebradas. Seria este fenômeno um efeito tardio, adverso e colateral da constatação de que verdade e ficção, de uma vez por todas, não são mais antagônicos?

 

“Em caso de terremoto, saia do prédio antes de postar no Facebook!”. Dizia um post publicado no perfil de um norte-americano, que vive na Califórnia, área de risco de abalo sísmico de altíssima magnitude.

 

Daí a frase. “Fuja do cataclismo antes de relatá-lo! E salve a sua vida!”. Esse aviso é uma piada, claro. Mas o humor esclarece que a compulsão a narrar nos põe em perigo de vida: antes mesmo de ser uma questão de cunho estético, trata-se verdadeiramente de algo da ordem da sobrevivência!

 

Eduardo Coutinho foi este mestre da narratividade, tendo sido essencialmente performativo (estou com Safatle). Paradoxo! Filmava sem rede de proteção. Encarava os riscos e não caiu nunca da corda bamba que separa realidade e ficção.

 

Observação: devo a Rodrigo Rosa, o figurinista, a ideia de uma compulsão narrativa que nos leva a desejar relatar experiências antes mesmo de experimentá-las de fato.




 

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