Texto de apoio para o Bate-Papo com Ivam Cabral sobre o tema: Transformação da realidade social e cultual por meio de ações Artístico-Pedagógicas

Publicado em: 23/03/2010

IC – Muito trash. Os travestis barra-pesada enfrentavam a gente. Sentavam-se ali na praça e dominavam, mandavam naquilo. Os traficantes da praça também começaram a prestar atenção na gente. Quer dizer, fomos pressionados por todos os lados. E apesar disso inauguramos o Espaço dos Satyros no dia 1° de dezembro de 2000. Foi bacana, a imprensa deu-nos um espaço legal.

Estava montado então nosso projeto, com o Retábulo da avareza, luxúria e morte em cartaz. Foi muito difícil, no entanto, porque daí acordamos para a realidade: a dificuldade de atrair o público. Daí, fiz o trabalho de ligar para todo mundo, convidar as pessoas. E ouvia delas coisas como: “Não vou ao centro”, ou percebemos, ao contatar essas pessoas, que estávamos em um lugar perigoso, estranho, difícil, ao qual muita gente se recusava a ir. Daí chegamos a 2001 sabendo que teríamos essas complicação. Tivemos que negociar inclusive com os meninos de rua que dominavam a praça. Era tudo muito escuro. Pedíamos para a Prefeitura trocar as lâmpadas queimadas. Eles resistiam, não vinham imediatamente, mas enfim apareciam, trocavam as lâmpadas durante o dia, elas acendiam por volta das seis horas, sete horas, e os traficantes mandavam quebrar todas. No dia seguinte, ligávamos para a Prefeitura, demoravam mais não sei quanto para vir, colocavam as lâmpadas, os traficantes quebravam de novo.

O lugar era muito escuro e eles enfrentavam a gente de frente. Sentavam na mureta em frente ao Espaço dos Satyros marcando a gente, encarando, fazendo cara feia, ameaçando. Resolvi chegar para conversar, e foi bacana esse processo, porque começamos um diálogo. Entre mim e o outro só o que faltava era um cumprimento, então eu chegava: “Olá, tudo bem, como é teu nome?” Eles ficavam completamente perdidos, balbuciavam um nome. Muitos perguntavam: “Por que você quer saber meu nome?” Porque era tão esquisito isso pra eles, parece que nunca ninguém chegava e queria saber quem eles eram, mas mudava alguma coisa a partir daí. E percebi então que era uma questão de relação.

Chegou um momento em que o Rodolfo chegou a se preocupar: “Olha o que você está fazendo”. Mas eu sabia que eu queria uma relação de cúmplices. E foi bacana. Acho que se criou aí uma forma de amizade. E eles passaram depois de determinado momento a nos proteger. Até hoje temos o Ricardo, que é daquele tempo. Digo que ele é um anjo da Praça Roosevelt. É o único que ficou daquela turma. Cuidava da gente. Se alguém queria mexer nos carros, impedia:” o carro do Ivam não pode mexer, dos amigos do Ivam não pode mexer, do pessoal do teatro não pode mexer”. Ele virou um amigo. E mais tarde essa proteção deixou de ser necessária, mas conquistamos isso quando foi preciso.

Fragmento de texto extraído do livro Cia de Teatro Os Satyros:um palco visceral, de Alberto Guzik, publicado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo no ano de 2006, páginas 211 – 213.

 

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