Opinião: Propostas para pensar

POR JHONNY SALABER, a partir dos experimentos do módulo amarelo do segundos semestre de 2019.

O que seria uma cena que não só se anuncia conta o racismo, machismo, LGBTQfobia e qualquer tipo de opressão em discurso, mas também em forma e pensamento? O que seria uma ação artística e concreta que pontue a real posição de cada indivíduo cercado por esses dilemas? O que torna possível a presença de um corpo dissidente que fala de si?

Essas perguntas martelaram em minha cabeça ao assistir a terceira etapa dos experimentos cênicos do núcleo amarelo da SP Escola de Teatro em dezembro de 2019. Os materiais de pesquisa e a maneira como as cenas foram construídas, me trouxe uma responsabilidade que passa por minha individualidade enquanto artista, mas sobretudo pela coletividade enquanto peça montante de um sistema que é maior que eu, afim de pensar a construção de pensamento que torna possível a escrita espacial e a materialização das narrativas marginais em corpos fora da ordem. E quando digo corpo fora da ordem, eu quero dizer o pretx, o feminino, o transicionadx, o em transição, o gordx, o magrx, e todo aquelx que tudo se agrega e nada se é. O material apresentado reforça uma reciclagem, ainda que a passos de formiga, de um sistema opressor que dita quais corpos podem falar e quais não, quais podem ouvir e quais não, quais devem viver e quais devem morrer. Achille Mbembe e sua “Necropolitica” desenvolve uma ideia de uma magnetização do poder, o pertencimento social e político sobre a existência das pessoas numa balança entre vida e morte, seja ela simbólica ou física. E não atoa, esse foi o tema de estudo do semestre na escola. O material revela um entendimento e urgência em falar sobre corpos dissidentes que buscam espaço para impor e ocupar seus lugares de direito, dando voz a historicidade de seu estado presente no século atual. Xs muitxs aprendizes negrxs, gays e trans que apresentaram os estudos, mostram em suas singularidades a magnitude e encantamento que a representação pode gerar quando alguém que seja negrx, gay ou trans assiste as obras. Aí está a vírgula da questão: o direito e a oportunidade de se reconhecer através dx outrx, de se identificar com as questões dx outrx e mais do que tudo, de ter a certeza de que as questões são universais; da singularidade oprimida para a pluralidade liberta.

Ao assistir os experimentos pude notar a riqueza de imagens levantadas pelxs aprendizes em trabalho coletivo, desde a dramaturgia à cenografia, passando pela direção, luz, som, e os corpos dxs atores, atrizes e atrozes em cena. A ironia das palavras em seus contextos políticos e as soluções muitas vezes simples que deram à encenação, me aproxima de um lugar otimista, como se me dessem uma caixa de presente transparente e dentro dela tivesse uma semente para que eu pudesse plantar onde eu quisesse. Uma pílula de reflexão sobre os diversos assuntos tratados de uma maneira quase sempre maleável, indeterminando qualquer tipo de conclusão ou ponto final. Propostas para pensar! Acredito que esse seja o lugar da poesia, uma fenda de tempo e espaço sem determinação de nada, mas com sugestões de caminhos a seguir que corre em direções diferentes do pensar somente de forma racional. Embora a poesia seja livre, para mim, ela nunca deve ser ingênua. É a construção de imaginário que se tem sobre o mundo e a memória corporal que constitui possíveis caminhos para a criação. É preciso que a obra aponte soluções para se pensar outros modos de resolver os conflitos que permeiam as relações. Nesse sentido, o texto “Buraquinhos ou O vento é inimigo do picumã” de minha autoria e eixo de estudo no semestre na escola, contribuiu poética e estruturalmente na construção de alguns experimentos apresentados com foco na leveza, apresentado outras maneiras de tratar sobre as questões que foram levantadas. Identifiquei diversas relações dramatúrgicas e cênicas à imagens que o texto propõe, ressignificando e operando de forma bem cirúrgica sobre todas elas. No texto, um menino negro e periférico corre o mundo inteiro no primeiro dia do ano para salvar a sua vida depois de se chocar com um policial branco. Ao longo do percurso, ele é atingido por 111 tiros de arma de fogo do policial que o persegue. Uma nítida referência ao caso dos cinco meninos que morreram depois de levar 111 tiros em Costa Barros – RJ em 2015, ou ao Massacre do Carandiru com 111 presos mortos em São Paulo em 1992. A dramaturgia foi construída sob o número de tiros em relação ao número de corpos, dentro de uma estrutura de realismo fantástico através do conceito Leveza, muito influenciado pelo escritor Italo Calvino e seu livro “Seis propostas para o próximo milênio”. Neste conceito, Italo sugere a leveza como possibilidade de resistência, como reação ao peso do viver. Nos experimentos, o festejo de final de ano, imagens surrealistas sobre objetos cotidianos, metáforas reais com camadas “finas” de ironia sobre o atual estado político ou até mesmo referências estéticas, a meu ver, operam e caminho junto na busca por novos modelos de forma e conteúdo, presentificando ainda mais a caixa de presente transparente.

No entanto, algumas propostas dramatúrgicas e cênicas tornam-se confusas ao tentar aglomerar diversos discursos em uma panela só. O arranjamento de ideias e propostas cênicas em cima do texto que mais afasta do que aproxima, faz com que a compreensão do tema seja dificultosa e cansativa, se consolidando enquanto obra ainda em estado de esboço, mesmo sendo um estudo. O recorte sobre o discurso nesse sentido é essencial, ele permite que o mergulho sobre o material seja aproveitado em sua máxima potência, dando a oportunidade de descobrir diversas camadas durante a pesquisa. Muitas das vezes, a lupa de aumento em algo específico é necessário para compreender qual dos caminhos seguir. Cada universo contém em si vários outros e, a arte de escolhê-los, para mim, é o que constitui o olhar artístico sobre o tema. Quando isso acontece, é uma dádiva! A comunicação se manifesta e o entendimento sobre o que é feito é comum, com várias perspectivas diferentes. O bom teatro é aquele que acontece não somente na cena, mas também na cabeça do espectador, seja durante ou depois da apresentação. Não posso deixar de citar a construção dramatúrgica que o Núcleo 3 propõe no estudo apresentado, uma estrutura simples e ao mesmo tempo profunda sobre o estado do corpo urbano em seus filtros sociais e políticos que constitui o funcionamento do país. Corpos em pé, sem fé, que juntos formam a ralé: conjunto de peças dentro de um sistema arcaico e opressor. O ônibus, locomoção coletiva que materializa as subjetividades de pingos d’água numa tempestade sem fim; o trânsito, o conflito naturalizado que inutiliza a função da praticidade de ir e vir; e o local de trabalho, o inevitável mote para a sobrevivência. É nítido que existem várias portas possíveis de serem descobertas nesse estudo, camadas de aprofundamento, como em todo trabalho. Mas, há um lugar de ligação entre a identificação e a subjetividade de cada corpo ali narrando sua história que permite uma abertura do corpo que assiste para o corpo que se mostra. Uma estrutura com peças de uma espinha dorsal firme, brincando ora com repetições de textos introdutórios que passeiam pelas diversas bocas – isso muitas vezes, quando se tem muitas narrativas diferentes, ajuda a construir um fio condutor -, ora com a transposição da palavra para a imagem. Além disso, e para além desse estudo, a oportunidade de contar uma história é sempre muito bem-vinda. São as histórias que alimentam o imaginário coletivo e que contribuem que novos olhares sejam construídos. Na África Ocidental, o Griot é aquele que é responsável por contar as histórias de seu povo aos mais jovens, preservando a cultura e conhecimento de sua ancestralidade. Para eles, contar uma boa história é a melhor maneira de afetar e deixar ser afetado pelo próximo. Em nosso contexto, essa relação se perdeu e as produções artísticas estão cada vez mais se distanciando disso, construindo narrativas subjetivas que mais fala do conflito de fora do que do conflito de dentro, se colocando muitas vezes distante da situação. O diálogo na cena entrando em extinção e, por sua vez, sumindo também do cotidiano. Quando se tem a oportunidade de se contar uma história, nem sempre pelas formas convencionais, mas preservando a comunicação, a troca acontece.

Muitas são as possibilidades de criar, e experimentar todas elas, é a delícia de tudo. O tema escolhido para estudo é uma tentativa de ressignificar representações antigas, e isso é algo a ser lapidado sempre. Muitos são xs aprendizes negrxs, gays, trans, gordxs, magrxs e plurais em suas diversidades, bem como – e há uma certa novidade nisso – xs formadorxs e funcionárixs da SP Escola de Teatro, também negrxs, gays, trans, gordxs, magrxs e plurais com muitos “X” e “S”. Porém, as urgências e narrativas marginais precisam ser conteúdo e não só tema, já que são elas que constitui a engrenagem da pirâmide social. Só assim será de fato possível a tão escrita, pautada, desenhada, argumentada, comprada e desejada reformulação social para todos os tipos de corpos e de fala. A verdadeira tríade entre a história, a obra e o povo. Asé!

JHONNY SALABER é dramaturgo, autor da peça “Buraquinhos ou o vento é inimigo do picumã”




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