SP Escola de Teatro entrevista Jesper Bræstrup Karlsen

Publicado em: 27/02/2015

Marcio Aquiles, poeta, dramaturgo e crítico de literatura e teatro que coordena o programa de intercâmbios e relações internacionais da SP Escola de Teatro, entrevistou o premiado dramaturgo dinamarquês Jesper Bræstrup Karlsen, que atualmente orienta o curso “Dramaturgia para o público infantojuvenil” na Instituição.

 

Jesper Bræstrup Karlsen (Foto: André Stefano)

 

O curso, promovido a partir de um intercâmbio entre o Instituto Cultural da Dinamarca e a SP Escola de Teatro, pretende incentivar a criação de peças para o público infantojuvenil brasileiro, além de propiciar o aprimoramento desta dramaturgia.

 

Leia abaixo:

 

– Você poderia nos dizer quais são os destaques do curso de dramaturgia infantojuvenil que você está ministrando na SP Escola de Teatro?

Sem dúvida é a experiência de poder dividir a minha paixão pelo teatro infantil com alunos motivados e famintos por conhecimento. É também uma troca entre artistas do teatro, de modo que podemos, olhando o trabalho de outras pessoas, avaliar o nossos próprios trabalhos e métodos.

No curso, nós iremos trabalhar com especificidades e procedimentos do teatro dinamarquês infantil. Os alunos vão escrever uma peça infantojuvenil em apenas três semanas, então eles vão trabalhar pesado. Ao longo desse processo, nós debateremos e discutiremos sobre dramaturgia, sobre como obter ideias e sobre como é possível para o teatro ser uma importante e indispensável parte das sociedades brasileira e dinamarquesa. 

 

– O que o dramaturgo precisa ter em mente quando está escrevendo uma peça especificamente destinada a uma plateia infantojuvenil? Quais são as estratégias?

O público! Pura e simplesmente. Você pode abordar qualquer tópico, seja político, social ou filosófico, quando conhece o seu público. A estratégia é dividir em grupos de idade: de 3 a 6 anos, de 6 a 10 ou 12, e de 12 anos para cima. E lembrando que um bom teatro infantil é um bom teatro para todo mundo.

 

– Existem hoje em dia escritores e dramaturgos dinamarqueses ainda influenciados pelos temas e estilos de Hans Christian Andersen?

Hans Christian Andersen criou, de muitas maneiras, o idioma dinamarquês que nós escrevemos atualmente. Então, de alguma maneira, nós estamos apoiados em seus ombros. Mais especificamente, o estilo mudou, naturalmente, mas o modo como Hans Christian Andersen via o mundo é ainda uma influência. E seus contos de fadas, que podem ser tenebrosos, são uma inspiração constante.

 

– Como você avalia o teatro dinamarquês contemporâneo?

Boa pergunta. Em grande parte do que está acontecendo, nós precisamos de mais oxigênio, absorção e inspiração vindos de fora da Dinamarca. E isso é exatamente o que o teatro infantojuvenil está fazendo ao me enviar a São Paulo. Em relação à dramaturgia, temos um grande problema, pois as novas peças sendo escritas atualmente não estão sendo encenadas em grandes teatros, apenas nos pequenos. E isso faz com que os dramaturgos fiquem invisíveis aos olhos do público. Há um mito na Dinamarca, de que as pessoas não virão assistir a espetáculos com dramaturgia contemporânea, o que não faz sentido, é claro. Se a peça é boa e tem algo a dizer, é claro que virão.

 

– Como funcionam os teatros na Dinamarca? Em sua maioria são públicos ou privados? Existem muitos teatros alternativos? E como é o mainstream? 

A maioria dos teatros na Dinamarca são financiados pelo Estado. Mas não são funcionários públicos de distribuem a subvenção, mas sim uma mistura de pessoas do mundo artístico e acadêmicos. A cena alternativa é vibrante, mas o mainstream está meio petrificado, embora melhorando.

 

– Você está trabalhando em alguma nova peça?

Sim, estou escrevendo uma peça biográfica sobre a primeira-ministra da Dinamarca, Helle Thorning Schmidt, que foi a primeira mulher a ocupar esse cargo em nosso país. Eu também estou escrevendo um libreto para crianças pequenas, chamado “Angry man”, sobre o relacionamento de um homem violento e esquizofrênico com seu filho.