SP Entrevista | Jo Clifford fala sobre dramaturgia e transexualidade

Publicado em: 18/05/2016

Murilo Bomfim
 
Jo Clifford se apresentava em um pequeno teatro de Glasgow, na Escócia, em 2009. O espaço tinha lotação para apenas 36 pessoas. Enquanto este público se encantava com o espetáculo, um outro público, dez vezes maior, reunia-se em um protesto na porta do local. E, com a chegada da imprensa britânica, “The Gospel According to Jesus, Queen of Heaven” (ou “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”) virava notícia no mundo inteiro.
 
Escrita pela própria Jo Clifford, a peça é um monólogo em que Jesus profere seus ensinamentos, sobretudo, de aceitação e amor ao próximo. Este Jesus, no entanto, aparece como uma mulher trans. Segundo a dramaturga — que também é uma mulher trans — quem viu o espetáculo, sentiu-se tocado. Talvez da mesma forma que Jo toca seus interlocutores pessoalmente. Pelo menos foi assim com a reportagem do portal da SP Escola de Teatro, recebida por ela na sede do British Council, em São Paulo.
 
É a organização britânica que traz Jo para uma temporada no Brasil, pela segunda vez. Ela já esteve no Brasil em 2014, quando aproveitou para participar de um bate-papo sobre o movimento LGBTS na SP Escola de Teatro com Paloma Assunção, Kimberly Luciana, Renata Peron, Flavia Araújo e Brenda Oliver (mulheres trans que trabalham na Instituição), além de nomes como Laerte Coutinho, Marici Salomão, Rodolfo García Vázquez e Ivam Cabral. A conversa foi registrada em vídeo e está disponível no canal da Escola no Youtube.
 
 
Desta vez, Jo veio ao Brasil para apresentar sua polêmica peça no Festival Internacional de Teatro, Palco & Rua de Belo  Horizonte, o FIT BH, em sessões legendadas de 21 a 23 de maio (veja a programação do festival). Em São Paulo, ministrou um workshop no Núlceo de Dramaturgia SESI-British Council e, no dia 30 de maio, ela participa do ciclo de palestras “Mediações Acessíveis” falando sobre o tema “LGBT e a Promoção da Diversidade na Cultura — Desmitificando Lugares Comuns”. Gratuito , o evento ocorre no Instituto Tomie Ohtake das 15h às 18h.
 
Jo ainda prepara, junto às diretoras Susan Worsfold e Natalia Mallo, uma versão brasileira de “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”, que será protagonizada pela atriz trans Renata Carvalho. A montagem ainda não tem data para estreia. Na última quinta-feira (12), Susan, Jo e a produtora Annabel Cooper visitaram a SP Escola de Teatro. Na ocasião, fizeram ensaios e tiveram uma reunião de projetos com Elen Londero e Marcio Aquiles, respectivamente analista de Projetos Especiais e Relações Internacionais da Instituição.
 
A programação da dramaturga no Brasil começou no Rio de Janeiro, na Cidade de Deus, participando da Festa Literária das Periferias, a Flupp. “Foi impactante demais, tinha muita gente”, diz a gerente de Artes do British Council, Liliane Rebelo. “Foi avassalador. Muita gente de teatro sério, pesquisadores… um público esclarecido, com uma linha de pesquisa evoluída.” Na ocasião, Jo fez um dos sermões da peça, colocando o público de mãos dadas e emocionando a todos.
 
Para Liliane, a vinda da dramaturga ao Brasil é de extrema relevância. “A pauta LGBT está muito em voga. Existe uma sede, uma ânsia em discutir o assunto. O que se vê, no entanto, é que a pauta é debatida em nichos”, pondera, destacando a necessidade de se debater o assunto no centro da produção artística. “É uma ação para as pessoas que nunca conheceram uma pessoa trans, que nunca estudaram o assunto. A ignorância sobre esse universo é que traz o preconceito.”
 
Veja, a seguir, os melhores momentos do bate-papo de Jo Clifford com o portal da SP Escola de Teatro.
 
 
SP Escola de Teatro – Quando foi que você começou a escrever?
 
Jo Clifford – Comecei em 1963, quando eu tinha 12 ou 13 anos. Venho escrevendo desde então. Cometi um erro: tentei virar uma romancista por muitos anos. Só comecei a escrever teatro em 1980. Traduzi uma peça do [dramaturgo espanhol] Calderón de la Barca, que acabou nem sendo um grande sucesso. Mas fui a uma sessão da peça e vi o público rindo das piadas. Naquele momento, entendi que queria mesmo ser dramaturga.
 
Em 1980 eu já tinha 30 anos. Comecei bem tarde. Em 1985, tive minha primeira peça em cartaz, em Edimburgo. Aí tive um sucesso que me fez realmente começar. E venho trabalhando como dramaturga há 35 anos. Vivo disso.
 
SP – E por que você diz que ser romancista foi um erro?
 
JC – Porque eu nunca consegui finalizar nada. Obviamente, não era o que eu deveria fazer. Quando eu tinha uns 14 anos, estudava em uma escola só para meninos. Em uma atividade teatral, tive que fazer papel de mulher e eu realmente adorei. Adorava fazer performances, sentia que eu pertencia àquilo.
 
Uns dois anos depois, finalmente entendi alguns sentimentos que eu tinha desde os quatro anos de idade. Eu queria ser uma menina, e aquilo me deixou horrorizada. Fiquei com muita vergonha. E, naqueles dias, eu estava sozinha. Eu era a pior pessoa do mundo, não tinha palavras para me descrever. E, infelizmente, o teatro estava bloqueado para mim. E foi uma grande luta: só depois de 20 anos eu entendi que queria ser atriz e dramaturga.
 
SP – Tinha alguém com quem você pôde contar nesse momento de descoberta?
 
JC – Quando eu tinha 21 anos, encontrei uma mulher e nós nos apaixonamos. E eu pude contar para ela. Fomos pra cama, então ela precisava saber. Eu estava aterrorizada. Ela me respondeu dizendo ‘Eu sei que tem algo feminino em você, e é por isso que eu gosto de você’. Foi algo lindo para se dizer. E, sem dúvidas, aquilo salvou a minha vida. Tivemos filhos e vivemos juntos por mais de 30 anos, até ela morrer. Ela era o amor da minha vida, era o que me mantinha viva.
 
 
“Escrever é ouvir. Ouvir o que está dentro de você. A gente ouve os personagens”

 
SP – E como surgiu a ideia de escrever “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”?
 
JC – Por volta de 1993, percebi que precisava montar uma peça sobre ser trans. Era um grande erro, nos termos da minha carreira. As duas peças que eu tinha escrito sobre o tema foram rejeitadas no Reino Unido. Eu tive que virar professora, ensinar HIstória do Teatro, para ter condições de pagar pela produção do meu próprio espetáculo. Era “God’s New Frock” [“A Nova Túnica de Deus”, em tradução livre], sobre o deus do Antigo Testamento.
 
Em 2007, a peça foi traduzida para o italiano e executada em Florença. Eu vi, e foi um sucesso! Aí pensei em fazer uma sobre o Novo Testamento. Eu disse à companhia: ‘Se vocês conseguirem um lugar para que eu fique por quatro noites, escrevo uma peça pra vocês’. E, assim, escrevi “O Evangelho”.
 
SP – Então a peça foi escrita em apenas quatro dias?
 
JC – Sim. Escrever é ouvir. Ouvir o que está dentro de você. A gente ouve os personagens. Jesus foi o personagem que veio, e comecei a ouvir a voz dele.
 
Quando eu comecei minha carreira como dramaturga, entendi que não queria ser pobre, não queria que meus filhos fossem pobres. Para ganhar um bom salário, cheguei à conclusão de que teria de escrever cinco peças ao ano. Então me treinei para escrever muito rápido. 
 
As peças vêm do subconsciente, não da sua mente consciente. Se você se abre do jeito certo, as coisas vêm rápido. Eu escrevi muitas peças, sou segura da minha arte e sei o que consigo fazer. Também sei que minhas peças não são usuais… são diferentes. Fogem do padrão. E eu confio nisso. E gosto disso, é claro!
 
SP – Você diria que “O Evangelho” é o seu maior sucesso? Porque teve uma polêmica em torno da peça…
 
JC – Teve uma polêmica. Mas o meu maior sucesso é “Great Expactations” [“Grandes Esperanças”], minha dramatização para o romance de Charles Dickens. Já não sei quantas adaptações a peça teve… mas teve versões até em japonês!
 
Quando estreei “O Evangelho” em 2009, em Glasgow, apresentei o espetáculo em um teatro pequeno, para 36 pessoas. E fiz cinco sessões. Tudo esgotado, é claro, o espaço não era grande. Então cerca de 150 pessoas viram a peça. Mas tinham 300 pessoas fora, todas as noites, protestando. Toda noite tinha uma grande manifestação de cristãos e evangélicos. Eles, que normalmente se odeiam, se juntaram para me odiar.
 
 
SP – Então as manifestações eram contra a peça, não contra você…
 
JC – Eram contra mim! Disseram que eu era uma bruxa, que eu era imoral. Uma amiga minha foi ver a peça e, quando saiu, perguntou a um manifestante: “Por que você está tão aborrecido? Você não sabe nada sobre esta peça!”. E ele respondeu: “Você não precisa chegar perto de uma bruxa pra saber que ela fede”. Disseram que minha peça era a maior afronta à fé cristã que poderia ser imaginada.
 
SP – E isso tomou uma proporção imensa, não?
 
JC – Foi para o site da BBC e o mundo inteiro viu. Se você procura pela peça no Google, encontra milhares de resultados. As pessoas escreviam sobre o espetáculo sempre com muito ódio. Quem viu a peça, adorou. As reações ocorreram até novembro passado, quando me apresentei em Belfast. O público questionou o governo local, achando um absurdo uma peça como esta ter patrocínio público.
 
Mas eu sabia que eu estava fazendo algo importante. E eu também sabia que, se eu quisesse que a peça durasse, eu teria que controlá-la. Se eu deixasse o texto com uma companhia de teatro qualquer, a peça desapareceria. E eu tive sorte com a minha diretora e com a minha produtora.
 
 
“Eram 150 pessoas no teatro, vendo a peça. E isso teve impacto no mundo inteiro. Se dramaturgia não é poder, eu não sei o que é!”
 
 
SP – Com todas estas reações, como você acha que a Escócia lida com as questões trans?
 
JC – O país mudou enormemente, mesmo depois de 2009. Nossas leis são progressistas. Uma pesquisa concluiu que a Escócia é o melhor país da Europa para ser transgênero. Isso em termos de proteção trabalhista, direito à identidade, ao casamento, à saúde. É o melhor país na Europa para nós. Eu já conversei com a Nicola Sturgeon [primeira-ministra da Escócia] sobre isso, e ela é fabulosa.
 
Lá fora, o Brasil tem uma reputação terrível, em função do alto número de assassinatos de transexuais. Confesso que, quando vim apresentar minha peça aqui, eu estava aterrorizada, lembrando de todo o medo que tive nas apresentações anteriores. Mas eu tenho que dizer que as pessoas aqui estão muito abertas, estão aceitando bem. E não houve nada errado. Acho que você estão no caminho.
 
SP – Por que “O Evangelho” é tão difícil para algumas pessoas?
 
JC – Acho muito estranho. Eu fui totalmente pega de surpresa. A peça é muito cristã! Ela diz o que Jesus diz: que devemos amar uns aos outros e não devemos nos julgar. Isso significa que, eu sendo uma mulher trans, não devo ser julgada. E sabemos que Jesus foi marginalizado. Ele ficaria feliz em me encontrar. 
 
Muita gente protestou. Eu acho que o que acontece é que a peça realmente força as pessoas a reexaminar seus preconceitos. E, claro, há muito mais preconceitos contra pessoas como eu. Se você odeia pessoas como eu e, ainda assim, se considera cristão, bem… isso é muito louco!
 
SP – Você disse ao diário britânico The Guardian que dramaturgos são perigosos. Você se considera perigosa?
 
JC – Pense no que acontece com “O Evangelho”. Eram 150 pessoas no teatro, vendo a peça. Um teatro pequeno, cinco sessões. E isso teve impacto no mundo inteiro. Provocou pensamentos no mundo inteiro. Se isso não é poder, eu não sei o que é! E eu acho que há algo no teatro, o fato de que estamos juntos numa sala nos comunicando. Minhas peças sempre tem um contato maior com a plateia, um contato humano. E isso é poderoso. É importante para o ser humano estar junto e se ajudar. A cooperação é muito mais importante do que a competição.
 
 
“Se nós, como LGBTs, podemos amar, nos expressar, estamos ajudando a humanidade”
 
 
SP – Você também deve ter recebido retornos positivos sobre a peça…
 
JC – As pessoas que viram ficaram muito tocadas e me escreveram mensagens pacíficas. Cristãos me disseram que era um trabalho de devoção. Um homem que coordena uma igreja me contou que conheceu uma mulher trans em um hospital, já em estado terminal. Ela leu minha peça e se sentiu muito confortada pelo texto. É muito importante que minha peça faça isso pelas pessoas. Isso asserta meu valor como ser humano e asserta o valor das mulheres trans.
 
Aqueles que me odeiam, no fim das contas, odeiam a si próprios. Algumas pessoas gritavam comigo na rua, mas eu sabia que eu representava algo que existia neles e lhes provocava medo.
 
Se nós, como LGBTs, podemos amar, nos expressar, estamos ajudando todo mundo a se libertar do próprio ódio. Isso pode soar pretensioso, mas estamos ajudando a humanidade. Todo mundo é ajudado na liberação LGBT. Eu realmente acredito nisso.
 
SP – E temos novas peças por vir?
 
JC – Estou escrevendo uma peça para o Teatro Nacional da Escócia, sobre minha vida como uma mulher trans. Muita gente ainda não entende o que significa ser trans. Aqui no Brasil as trans são quase sempre glamourosas, por exemplo. Mas não… são pessoas normais, que envelhecem, como eu. É importante transmitir essa mensagem, ainda que ela seja simples. E é maravilhoso trabalhar com o Teatro Nacional falando sobre isso. 
 
Eu também vou escrever uma peça para o Manchester Royal Exchenge Theatre, sobre escravidão. A protagonista vai ser uma mulher trans. É uma forma de colocar uma personagem trans normal em um espetáculo normal.
 
SP – Há mais alguma coisa que você gostaria de dividir conosco?
 

JC – [Jo pega seu celular e mostra uma foto] Estas são minhas filhas e meu neto. Eu os amo muito. As minhas filhas me chamam de pai, porque eu sou o pai delas. E meu neto me chama de vó, porque eu sou a avó dele. Isso significa muito pra mim. Essas são as pessoas mais preciosas da minha vida e eu sou muito orgulhosa deles. 




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