Scarpellini e Bolot’s
contam D.Pendy

Publicado em: 06/09/2012

Os atores Suzana Aragão e Rodrigo Scarpelli, que interpretam, respectivamente, os palhaços Bolot’s e Scarpellini, assinam a seção Bravíssimo desta semana, com os nomes de suas personagens, numa homenagem a D. Pendy, palhaço interpretado pelo ator Dagoberto Feliz.

“Santos, 10 de dezembro de 2061

 

Festa de aniversário

Num casarão antigo e bem cuidado à beira-mar, todos estão eufóricos com a comemoração dos cem anos de D. Pendy (Dagoberto Feliz).

 

No salão de festas, no canto direito, encontra-se um piano preto de cauda. Demiam Pinto toca e come croquetes nos intervalos entre notas musicais. A música é ‘El dia que me quieras’.


D.Pendy escuta atentamente, sem expressão alguma…

 

Benvindo (Danilo Grangheia), em um dos seus breves surtos de contradição, encontra-se num canto fazendo o exercício da sementinha e cantando pra si mesmo, baixinho, recordando belos momentos de uma eterna parceria: ‘Amigo é coisa pra se guardar…‘.


D.Pendy, parecendo bocejar, olha, coça o olho, torna a olhar.

 

Valdisney (Val Pires), Nani de Oliveira, Pata Barros e Carlos Francisco (Carlão) discutem proposituras para a 72ª Edição do Proac Idoso (talvez remontem as ‘Três Velhas’, de Jodorowski, acrescentando uma personagem, a ‘criada manca’. Carlão já se propôs a fazê-lo, convidarão D.Pendy para a direção).


D.Pendy olha para um porta-retrato com sua foto interpretando Carlos Gardel.

 

Sentados à mesa, Zabobrim (Ésio Magalhães), com a vista turva e D.Pendy, em silêncio, aguardam a chegada da última convidada, Madame Elizabeth de Queen (Bete Dorgam).

 

Scarpellini (Rodrigo Scarpelli) e Srtª. Bolot’s (Suzana Aragão), ainda jovens, na flor dos seus 73 anos, cuidam da decoração aproveitando os cenários de ‘Cabaré da Santa’ (2008) e ‘Medeia’, ‘A Mulher-Fera’ (2009), uma mistura de cabaré cafona e circo de horror pobre. Mesas encapadas com fotos eróticas e sensuais, um contra-azul e muita fumaça.

 

Eis que adentra ao recinto, ela, Madame Elizabeth de Queen, belíssima, radiante, em passos muito… muito lentos e acompanhada de uma matilha de cães, todos adestrados, correndo e brincando por toda casa. Um deles, num gesto de enorme carinho, abraça a perna direta de nosso aniversariante, D. Pendy levanta-se e bufa. Madame diz:


– Hein?

Depois, se senta à mesa ao lado de seu centenário amigo.

 

Estão todos em volta da mesa, que tem em seu centro uma cascata feita de papel pedra e crepom azul, onde está o bolo gelado envolto em papel alumínio, criatividade da organização da festa.

 

Zabobrim começa um discurso, em Latim, emocionado, olhos cheios de lágrimas, lembranças:

 

Carlão e Valdisney relembram belos momentos juntos na cidade de Tupã, o palco, a mata, a mata no palco… Suas apresentações no D. Maria I, em Portugal… Ai, velhos tempos… Cantam um fado.

 

Demiam chora compulsivamente, seus dedos, já sem controle por conta das tremedeiras, acompanham sua emoção e começa a tocar ‘Verás que Tudo és Mentira’…

 

Pata e Nani recordam do tufão em Cuba, e propõem uma vivência cênica na sala de jantar…

 

A Nani quer discutir a respeito do trabalho do ator, cita Stanislavski. Pata não concorda e diz que precisa ter distanciamento histórico.

 

Demiam se empolga e começa a tocar uma Polka…

 

Pata cita Brecht, Demiam toca Kurt Weill. Mas logo interrompe a canção, pois não consegue controlar o intenso tremor dos dedos, já sem domínio, por conta do Parkinson…

 

Madame Elizabeth se delicia e, às gargalhadas, assiste na TV o remake de ‘O Vigilante Rodoviário’.

 

Scarpellini e Bolot’s, os organizadores, pedem atenção e fazem entrar na sala um belíssimo ator contratado. Ele veste um vestido de seda, longo, azul claro, usa um manto e um colar de conchas. Tem uma coroa estrelada na cabeça. É Iemanjá. Ele entra cantando: ‘Carcará, pega, mata e come…’

 

E nosso aniversariante?

 

Senhor D.Pendy, que sempre está atento a tudo, se levanta vai até a cozinha, pega um frasco, abre-o e joga fora todos seus comprimidos de Fosfosol, um por um, religiosamente… Volta pra sala e, após um longo suspiro, diz:


– O esquecimento é a melhor lição. Canta ‘Um Pierrot Apaixonado…’”