Rubens de Mattos Teixeira por
Adriana Sorneicht

Publicado em: 09/08/2012

Especial para o portal da SP Escola de Teatro

Histórias e caminhares sem fim de um direcionador
Uma gentil deferência da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, que se tornou um desafio. Esta é a síntese do “problemão “que vejo pela frente: o de resumir, em algumas linhas, o que tem sido minha vida ao lado do ator-diretor-produtor-educador Rubens de Mattos Teixeira, o Rubão, ao longo de seis anos (divididos em dois, com um “breve” intervalo de duas décadas entre eles).  E, junto com o espanto pelo convite, encarar o próximo obstáculo: como não descambar para os clichês, não me derramar em elogios fáceis e melosos e não permitir que viesse à luz mais seu lado pessoal, humano, prosaico, cotidiano (que vale um livro, podem apostar), destilando cuidadosamente o artista do homem, extraindo o sumo de sua trajetória, ressaltando passagens que pelo menos tentem descrevê-lo tal como é ao respeitável público leitor. Com leveza, mas longe da superficialidade. Desde já, jogo a toalha, declaro minha incapacidade e antecipo meu fracasso. São 80 anos de vida, 60 de carreira. Muita história para um milionésimo do espaço necessário. Mas como a pior tentativa é aquela que não se faz, vamos às pílulas.

Comecei a reparar nas singularidades e pluralidades de Rubens Teixeira em 1984, quando fui sua aluna de Rádio e TV por dois anos, no curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. Apesar de moldado para os futuros profissionais de Comunicação Social, Rubens somou ao conteúdo programático tudo o que pôde sobre o teatro e o cinema mundial, além dos imortais da literatura universal e de sua própria experiência. Por seu intermédio, e graças ao estilo arrebatado e apaixonado pelo que faz, tivemos contato, durante as aulas e as jornadas de leituras teatrais por ele organizadas, com as lendas e deuses da mitologia (grega e romana) e os grandes textos clássicos – de Sófocles, Aristófanes e Plauto a Maquiavel, Cervantes, Camões, Gil Vicente, Shakespeare, Ibsen, Molière, Brecht, Sartre, Tennessee Williams…

Com seu vozeirão impostado e mise-en-scène de arrepiar (sempre um ator…), além da barba e sobrancelhas irretocáveis e intocáveis (sua logomarca), que lhe conferem um look de deus grego (encarnação de Zeus???), juntos percorremos a Grécia Antiga, aprendemos sobre a origem da Tragédia e da Comédia, seguindo, depois, por meio dos séculos, por todas as escolas e movimentos, em quase todo o território europeu (Alemanha, França, Inglaterra, Espanha, Áustria, Suécia, Hungria, Polônia, Rússia), para finalmente desembarcarmos no Brasil – quando ele se superava e falava, de cátedra, de José de Anchieta ao contemporâneo. O mesmo ocorreu em relação à sétima arte: um tour completo por todos os períodos, dos irmãos Lumière a Bertolucci. 

Nada mais natural para quem já havia interpretado, dirigido e produzido mais de uma centena de peças teatrais, no Brasil e no exterior, além da participação em filmes e programas de rádio. Rubão integrou as companhias teatrais de Cacilda Becker e Maria Della Costa, nas décadas de 50 e 60, e teve o privilégio da conviver e atuar ao lado dos maiores nomes das nossas telas e palcos – Ziembinski, Gianni Ratto, Ruggero Jacobbi, Eugênio Kusnet, Nelson Rodrigues, Antunes Filho, Flávio Rangel, Gianfrancesco Guarnieri, entre outros, que também se tornaram seus grandes amigos. Sua vasta experiência em televisão, rádio e publicidade lhe abriram portas nas emissoras Tupi, Record, Cultura e Bandeirantes, em novelas, musicais e humorísticos.

Mas, voltando. Segui depois por 22 anos consecutivos como repórter, editora de jornais e revistas, assessora de imprensa de entidades e empresas. Rádio e TV, jamais. Faltou coragem e não culpo nosso mestre. Uma boa terapia talvez explique a ojeriza em me expor. A imprensa escrita era meu esconderijo, minha trincheira. Apesar de temer a “ribalta”, lecionei por um bom tempo, naquela época e mais tarde. Rubão e eu fomos colegas na Cásper por dois anos, eu como professora assistente. E num belo dia de maio, em 1986, resolvemos entoar “por onde for quero ser seu par”(*). Decidi acompanhar o mineiro de Juiz de Fora, com sotaque meio carioquês, trio elétrico em forma de gente, eternamente louco de amor pelo povo e cultura nordestinas (tanto que lá se casou pela primeira vez e, com Leda Córdula, dileta representante de uma família de artistas e intelectuais da Paraíba, fez três lindas crianças, todas de certa forma seguidoras de seus passos).

Nessa fase, fui arrastada para todos os teatros, cinemas, museus, galerias de arte, livrarias, sebos, saraus e tertúlias, cursos, bibliotecas e centros culturais, em São Paulo e alhures, um verdadeiro banho de arte e cultura na “caipira” de Itapecerica da Serra.  Só “Xica da Silva”, dirigida por Antunes Filho em 1988, da qual Rubão participou como ator (personagem Bento Cruz) e com a qual teve a chance de conhecer Coreia e Japão, assisti umas duzentas vezes. Ia ao Sesc Vila Nova todas as noites em que havia espetáculo. Lembro-me até hoje da trilha musical, da marcação, do guarda-roupa, das inflexões. Comecei a circular e a me encantar com todo aquele faz-de-conta, face a face com o elenco, autores, técnicos, sonoplastas, cenógrafos, diretores. Perder o medo do próprio Antunes (ainda não consegui) e do palco (a fobia de que falei), visitar coxias e camarins, boquiaberta e de queixo caído. Na minha cachola de adolescente tardia e provinciana, tudo era lúdico, onírico, mágico. Um chamado irresistível, que no início era só brincadeira, aventura, diversão de fim de semana, a oportunidade de romper o casulo, uma vida mais trepidante. Sair, jantar, viajar, namorar. Ouvir poesia, ir ao cinema e ao teatro – todos itens do mesmo combo, pura descontração, alienada e sem compromisso.    

Até amadurecer e compreender a destinação das artes cênicas e a transformação social como uma de suas funções, utilizando corpo e voz como suporte do texto escrito. Em outras palavras, o teatro como espelho da sociedade, reflexo direto e indireto de nossa existência. Fruto da metodologia de ensino deste “direcionador” com o qual escolhi compartilhar meus dias. Primeiro motivar, depois conscientizar. Tiro e queda, eficaz e infalível. Verdadeiro educador, aquele que orienta para um objetivo, que indica o rumo a tomar, mentor, inspirador para uma percepção política, artística, literária; que tem o poder de influir em determinadas opiniões ou modificá-las, de descobrir, formar e encaminhar talentos, fazê-los florescer e abrir-lhes espaços. Sem traumas, sem imposições. Nesse sentido, cansei de ver e ouvir depoimentos e declarações, ao vivo ou por escrito, de ex-alunos de Comunicação e Teatro (lecionou também na FAAP, Mackenzie e Unitau), ex-colegas, ex-amores e amigos, reconhecendo seu empenho e agradecendo-o por tudo isso.

Alheio ao que escrevia sobre ele, minutos antes de concluir este texto, Rubão chamou minha atenção para um dos capítulos de “A Jornada do Escritor – Estruturas Míticas Para Contadores de Histórias e Roteiristas”, de Christopher Vogler (1ª edição, 1992), garimpado de sua biblioteca. Recomendo a leitura. O estágio quatro trata justamente do encontro com a figura sábia e protetora do mentor, de sua relação e conflitos com o arquétipo do herói, as fontes de sabedoria e sua influência crucial para que sejam ultrapassados os bloqueios da dúvida e do medo em relação à “região desconhecida”. Tudo a ver com nosso personagem. Acaso? Coincidência? 

Mas Rubão tem também seu avesso, suas sombras, seus mistérios e silêncios, suas contradições e manias, seus (muitos) momentos hilariantes. Igualmente dignos de nota, pela correlação que têm com a missão que elegeu para si mesmo. A começar pela organização, que não é bem sua praia. Com a mente voltada para assuntos mais relevantes, tira as coisas do lugar e não as devolve, vai embora sem olhar para trás, quem quiser que as reorganize. Que diferença faz? Verdadeira tortura e pesadelo para capricornianas de origem germânica, extremamente ordeiras e de personalidade contemplativa até certo ponto. Com o tempo e a convivência mais estreita, no entanto, me convenci de que essa aparente falha de comportamento pode ser encarada como o jogo de cintura, o desapego e a flexibilidade que me faltam, um exercício de liberdade, a contramão do imobilismo. Uma vez mais, é o direcionador entrando em ação!

Ao mesmo tempo, se fosse um objeto, Rubão seria um trator ou um rolo compressor, tal o impulso interno desenfreado com que se atira para alcançar um objetivo ou realizar um projeto (cultural, educacional ou de vida), dos quais não desiste até concretizá-los. Não se deixa abater, não faz dramas (só nos palcos), com serenidade e bom humor transforma adversidade em poesia, quando não em piada. “Quer emagrecer 20 quilos? Pois tenha um enfarte”, referindo-se à perda de peso que se seguiu ao susto que nos deu no final de 2011. Essa dinâmica já rendeu algumas trapalhadas e altas doses de estresse para ambos, mas devo admitir que funciona em 99% das vezes.

Cigano, nômade, cidadão do mundo, rolling stone dos trópicos, não pensa duas vezes em levantar acampamento em busca de uma geografia que tenha mais a ver com seus melhores instintos, qualidade de vida e aspirações do momento. E, em cada um deles, planta e faz germinar uma semente. Foi assim no Recife, em João Pessoa, Vinhedo, Campinas e agora em Águas de São Pedro. Chegar primeiro, fazer acontecer já, não deixar para amanhã. É a faceta pioneira de quem fundou, lançou e divulgou novos espaços, grupos e festivais teatrais no Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco e Paraíba, a partir de 1952. Entre os quais destacam-se Os Menestréis, primeiro jogral universitário do Nordeste, para a Universidade Federal da Paraíba (1960); o primeiro Teatro de Arena da Paraíba (1964); o Teatro da Criança de Pernambuco (1969), e a montagem dos primeiros laboratórios de Rádio e Televisão da Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero e da Universidade de Taubaté (1983).

Em 2006, um sonho antigo realizado. Permaneceu 40 dias na Grécia, em companhia da irmã Pabla, também sua cicerone, onde teve a oportunidade de  visitar as principais ruínas, monumentos, palácios, museus e sítios mitológicos – palco das grandes tragédias gregas – em Atenas e nas ilhas de Creta, Santorini e Mikonos. O passeio tinha um objetivo específico, pois serviu de subsídio para a montagem de “Iphigenia em Aulis”, de Eurípedes, que encenou naquele mesmo ano no município de Indaiatuba (SP). Retornou ao Brasil especialmente deslumbrado com a ilha de Creta, “pouco divulgada no turismo internacional, mas de importância histórica sem precedentes”, segundo ele. O que mais o impressionou, no entanto, foi o anfiteatro ao ar livre de Epidauro, às margens do Mar Egeu. Patrimônio mundial da Unesco, está bem conservado, sendo um dos maiores do seu tipo e de seu tempo, com 20 mil lugares e uma acústica perfeita.

Rubão é um pouco assim, forte candidato a tipo inesquecível da revista Seleções, desapegado e sem vaidades bobas, nem aí para honrarias, praticante da pontualidade e da honestidade, franco e idealista, caloroso e otimista. E absurdamente generoso. Brigador, mas sabendo fazer as pazes cinco minutos depois. Coloca tudo em pratos limpos e detesta arrastar correntes. Com exceção do tédio, vivo com ele todo um repertório de sensações e emoções, muitas vezes num único dia. Mudei com ele e por causa dele.  De cidade, de hábitos, de ritmo, de convicções. A ele devo o resgate da noção de pertencimento (ele vai entender). E a ele gostaria de dedicar minha reverência, meu carinho e amor eternos (Oh, my God!, ele vai entender…) e o seguinte pensamento: “Um homem que trabalha com as mãos é um operário; um homem que trabalha com as mãos e o cérebro é um artesão; mas um homem que trabalha com as mãos, o cérebro e o coração é um artista.” (Louis Nizer – pensador, poeta, escritor e advogado inglês, 1902-1994)

(*) Andança (de Paulinho Tapajós, Edmundo Souto e Danilo Caymmi)