“Quem são os corpos que produzem arte?”, questiona a performer Michelle Mattiuzzi

Publicado em: 05/03/2018

A performar Michelle Mattiuzzi durante encontro com aprendizes na sede Brás. Foto: Bruno Galvincio/SP Escola de Teatro

HAYLA CAVALCANTI*
Especial para a SP Escola de Teatro

“A questão é: Quero alardear esse mérito próprio branco escravocrata com pompa, já que a circunstância é o cinismo de que, na realidade, o pós-colonial não existe”. A frase foi escrita no experimento “Merci, Beaucoup Blanco!” (2010), pela performer, escritora e pesquisadora do corpo Michelle Mattiuzzi, que esteve no último sábado (3) na SP Escola de Teatro, no auditório da sede Brás. Ela conversou sobre seus trabalhos – políticos e viscerais – e sobre o fazer artístico principalmente da mulher negra na arte.

Alardeando esse mérito citado a cima, frase retirada de “Merci, Beaucoup Blanco!”, Michelle exibiu durante o encontro, em vídeo, este trabalho iniciado em 2010, além de também mostrar aos aprendizes dos cursos regulares o “Experimentando o Vermelho em Dilúvio”.

No debate – importante material pra se fazer pensar o tema deste semestre na Escola (“Corpos Desviantes: Contra a imposição de corpos padronizados”) – a performer compartilhou o processo artístico desde as primeiras experimentações ao formato atual, sempre costurado ao seu corpo: “Eu, mulher negra, fora dos padrões e das simetrias aceitas pela normatividade de uma sociedade colonial que afirma as representações da supremacia eurocêntrica, digo ao povo que fico”, escreveu ela em “Merci, Beaucoup Blanco!“.

No encontro, Michelle Mattiuzzi destacou ainda as performances desenvolvidas – e assim consequentemente a arte – como a ação/lugar possível para mostrar este corpo e as questões a ele atreladas. “Gosto de tratar questões de raça através do meu trabalho. Ele já diz muita coisa”.

A artista também falou sobre a importância de discutir temas como o proposto neste semestre, dentro da Escola e na arte em geral. “Esse é um movimento muito importante pra pensar a arte contemporânea. Quem são esses corpos que produzem arte? Quais são os corpos que correspondem a esse fazer artístico?”.


>> Trecho de entrevista feita com Michelle Mattiuzzi, após encontro na sede Brás.

Hayla: Como você entende esse caminho da política e da arte juntas?
Michelle: A arte é imaginação, e imaginar é um ato político. A gente vive hoje sonhando, mas a gente sonha materialidades, né? E a arte não. Você sonha e deseja imaterialidades e irrealidades, então, assim, é você voltar à imaginação. Você sai do lugar do autômato, você sai do lugar da pessoa que não se questiona, e começa a se questionar. E aí nesse sentido que fico pensando na minha obsessão em relação a ficar sempre com um trabalho artístico. Tem a ver com essa coisa de imaginar, de estar sempre imaginando, sempre imaginando, sempre imaginando. E não estancar.

O que eu percebo e entendo como arte tem a ver com essa coisa da imaginação política. E aí tem um recorte social que a gente vive no país e no mundo que é só 1% da população que tem acesso a esse lugar da imaginação política – então fazer esse movimento que eu faço dentro do espaço de arte, sabendo do contexto que eu venho, sabendo quem eu sou, é quebrar essa imaginação política elitizada, gourmetizada que fica só num grupo seleto. Então sou eu quebrando essas expectativas de morte, com mais de 30 anos. Eu sobrevivi e vivo de uma coisa que é inimaginável pra uma pessoa como eu. Nesse sentido eu consigo perceber que isso é política. É quebrar as estruturas e dizer não.


HAYLA CAVALCANTI
é jornalista e bailarina. Aprendiz do curso regular de Atuação da SP Escola de Teatro.




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