Papo de Teatro com Valmir Perez

Publicado em: 03/09/2012

Valmir Perez é lighting designer

Como surgiu o seu amor pelo teatro?
Meus vínculos e minha paixão pelas artes cênicas surgiram bem cedo, ainda no curso de primeiro grau. Tive a oportunidade de conhecer alguns professores que me incentivaram na área.

Lembra da primeira peça a que assistiu?
Se me lembro, foi um espetáculo infantil na escola pública onde eu estudava. Era uma escola modelo, com métodos pedagógicos bastante avançados para a época. Basicamente, o espetáculo tratava de lendas brasileiras, mas não me lembro muito bem de seu conteúdo, apenas da experiência sensorial, que para mim foi muito importante.

Um espetáculo que mudou a sua vida foi…
Acho que todo bom espetáculo muda as nossas vidas.


Um espetáculo que mudou o seu mode de ver teatro foi…
A “Trilogia Kafka”, com direção de Gerald Thomas. Uma forma de linguagem muito interessante e mágica, resolvendo assuntos muito atuais.

 
Você teve algum padrinho no teatro?
Como iniciei meus estudos na Unicamp, tive a sorte de ter vários padrinhos, cada qual me passando experiências muito ricas e importantes.

Já saiu no meio de um espetáculo?
Não, nunca fiz isso. Acho que é um comportamento que não dignifica ninguém. Na minha opinião, mesmo que um espetáculo seja ruim no nível técnico, ou que seja inconsistente e até mesmo preconceituoso, não vejo necessária uma saída arrogante, mesmo porque, para se ter uma ideia da obra, temos de apreciá-la até o final para, depois, dentro de certos limites, podermos desenvolver uma crítica construtiva.


Teatro ou cinema?
Sinceramente, atualmente sinto que tanto a arte cinematográfica quanto a cênica teatral estão necessitando de uma reavaliação, evolução de conceitos. O cinema, por se tratar de uma arte que possui ligações muito fortes com o poder constituído dos estados, e o teatro, por falta mesmo de uma evolução dos artistas e dramaturgos. Já não vejo nem a mim e nem a sociedade discutida “seriamente” e “profundamente” em nenhuma dessas manifestações. Somente em raras exceções.


Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê?
Talvez “Piaf, a Vida de uma Estrela da Canção”, com Bibi Ferreira, pela simples razão de vê-la construir essa personagem.

 
Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê?
Não. Nunca fiz isso, talvez porque eu tenha uma grande facilidade de apreensão dos conceitos sutis que estão em jogo num espetáculo.


Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro?
Brasileiro eu admiro bastante o saudoso Plínio Marcos, por ter sido um homem de teatro com coragem para se lançar contra os absurdos da ditadura. William Shakespeare, por trazer à tona a espiritualidade de suas personagens.


Qual companhia brasileira você mais admira?
No momento, nenhuma. Acho que a maioria delas está num processo que eu definiria de “atrás de seu próprio tempo”.


Existe um artista ou grupo de teatro que você acompanhe todos os trabalhos?
Não.

Qual gênero teatral você mais aprecia?
A comédia. É nela que realmente percebemos quem é bom e quem não é.

Em qual lugar da plateia você gosta de sentar? Qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro?
Gosto de me sentar mais no centro eà frente do palco. Não me lembro de ficar incomodado com meu lugar em nenhum teatro.


Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou?
Creio que uma das coisas que precisamos ter em mente é que precisamos definir o que é algo “bom” ou algo “ruim” sobre os palcos. Em que sentido, tecnicamente, no nível de expressão, no nível conceptual, de relação com a sociedade?


Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?

Não gostaria de ver um espetáculo dos meus sonhos. Se fizesse isso, certamente estaria mostrando o quanto minha imaginação, mente e espiritualidade estariam engessadas em algum pré-conceito.


Cite uma Iluminação surpreendente.
 Cada iluminação, dentro de um espetáculo, deve surpreender pela sua interação com esse espetáculo, e não pela sua grandiosidade ou beleza estética.


Cite um cenário surpreendente.

Idem à resposta anterior, para cenário.


Cite um ator que surpreendeu as suas expectativas

Seria injusto com muitos citar o nome de algum em particular.

O que não é teatro?
Apenas o que não tem vida sobre os palcos. O resto, tudo.


A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?
Essa ideia é muito perigosa. Ela sugere que a arte seja apenas entretenimento, e não ciência do subjetivo.


Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?
Talvez mostrar às pessoas que as tecnologias são apenas ferramentas. São meios, e não fins. Talvez, também, informá-las que, mesmo com toda a nossa tecnologia crescente, ainda não resolvemos os problemas básicos da maioria das pessoas neste mundo.


Em sua biblioteca, não podem faltar quais peças de teatro?
Não possuo biblioteca de textos, assim como não tenho uma biblioteca de roteiros de cinema, assim como não possuo também uma biblioteca de partituras.


Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.
Aqui, como numa das perguntas anteriores, me sentiria injusto ao citar nomes.


Qual o papel da sua vida?
Creio que evoluir meu espírito em todos os sentidos e participar da vida universal com mais e mais amor, verdade e sabedoria.


Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire.

A pergunta vai para todas as pessoas que fazem teatro no mundo: “Para que serve a arte, apenas para entreter?”.


O teatro está vivo?

O teatro só estará vivo se acompanhar seu tempo, se envolver com as lutas modernas, se tiver a capacidade de deixar evoluir como caminho expressivo do espírito humano, carregado de amor e conhecimento.