Papo de Teatro com Rodrigo Matheus

Publicado em: 25/06/2012

Rodrigo Matheus é ator, artista circense e diretor 

Como surgiu o seu amor pelo teatro?
No colegial (hoje, ensino fundamental II). Queria participar de tudo: grêmio, cinema, teatro, o que havia em oferta. Depois de fazer a primeira peça de teatro no grupo da escola, não quis parar. E não parei. Fiz parte do grupo escolar, que era de teatro amador, durante três anos. Depois, de um grupo semi-profissional, também oriundo da escola. Até que surgiu meu primeiro convite para participar de um espetáculo profissional. No meio de tudo isso, entrei para a escola de circo e essa paixão se multiplicou. Ou seja, circo e teatro!

Lembra da primeira peça a que assistiu? Como foi?

Não me lembro. Ia ao teatro quando criança. Mas me lembro de várias que me marcaram, quando eu estava começando. Algumas foram “Lua de Cetim”, do Alcides Nogueira, direção do Márcio Aurélio; “Diário de um Louco”, de Gogol, com Elias Andreatto; o “Feliz Ano Velho”, do Pessoal do Victor, e o Plan K, grupo belga que se apresentou no Fiac (Festival Internacional de Artes Cênicas), da Ruth Escobar. E o primeiro espetáculo do Archaos, o circo francês, em 1986.

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro foi…
“Andalucía Amarga”, um espetáculo da Espanha, parte do Fiac, que se apresentou no Theatro Municipal, acho que em 1982 ou 83. Nunca me esqueci. Foi minha introdução ao teatro como ritual, um teatro de imagens impressionantes, fortes e cheias de significado (entre outras coisas, havia uma escavadeira no palco, que atacava um homem – lindo!).

Um espetáculo que mudou a sua vida.
“Diário de um Louco”, de Gogol, com Elias Andreatto e direção de Márcio Aurélio. Um ator, cinco pessoas na plateia e a entrega do Elias foi absolutamente inesquecível. Foi uma lição de amor e entrega ao teatro. Depois daquilo, nunca questionei apresentar um espetáculo para um só espectador. Se estou em um monólogo, eu faço mesmo assim. Sempre com esse espetáculo na memória.

Você teve algum padrinho no teatro?
Elias Andreatto.

Já saiu no meio de um espetáculo?
Não consigo sair. Sou um otimista, acho que terá alguma coisa que vai valer a pena. Às vezes me dou mal… Pelo que me lembro, saí apenas no meio do “Rua da Amargura”, com o Grupo Galpão, no Theatro Municipal. Eu estava sentado lá no topo e não via nada. Me deu um sono…

Teatro ou cinema?

Teatro, sem dúvida. Não existe nada melhor do que teatro bom. É verdade que, da mesma forma, quando é ruim, não existe nada pior. Mas, para um filme ser inesquecível, transformá-lo realmente, é muito difícil. Já peças conseguiram me tocar várias vezes.

Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê?
“Ubu Rei”, do Teatro do Ornitorrinco. Eu estava começando no circo e “Ubu” relançou o circo na modernidade, em São Paulo. Era muito bacana, com muitos amigos fazendo a parte circense.

Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê?
Claro! “Ubu Rei”, “Lua de Cetim”, os espetáculos da Carla Candiotto, com quem sou casado (“Chapeuzinho Vermelho”, “As Filhas de Lear”, “A Volta Mundo em 80 Dias”). Todos são espetáculos que propõem o ator como centro da encenação (em oposição à encenação e aos efeitos à frente) e têm atores antológicos em cena.

Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro?

Eu admiro os clássicos, Nelson Rodrigues e Plínio Marcos, pois seus textos trazem lições de estrutura. E gosto dos contemporâneos, Mário Bortolotto e Samir Yazbek, por exemplo, por mais opostos que possam ser. Dramaturgo estrangeiro, o Georg Büchner.

Qual companhia brasileira você mais admira?
Acima de tudo, a Intrépida Trupe, pela persistência, criatividade, e qualidade do trabalho. Em seguida, admiro muito a Companhia dos Atores, do Enrique Dias, do Rio de Janeiro, e o Grupo Tapa, de São Paulo. São coerentes, consistentes, regulares na produção. E vão mais fundo a cada produção. Eu sei o quanto é difícil manter a qualidade, manter a pesquisa em andamento, com as dificuldades que se têm para a produção no Brasil, sem a existência de políticas públicas consequentes. E essas companhias conseguem manter seu trabalho continuamente acontecendo. E, claro, o Galpão, de Belo Horizonte, que é maravilhoso!

Existe um artista ou grupo de teatro que você acompanhe todos os trabalhos?

É impossível! A oferta de espetáculos que existe em São Paulo é muito ampla, ainda mais se você tem filho… Mas eu tento acompanhar o trabalho do Enrique Dias, da Cia. Nova Dança 4 (da Cristiane Paoli Quito), do Le Plat du Jour, da Cia. do Latão, da Cia do Feijão (do Pedro Pires), da São Jorge de Variedades (da Georgette Fadel) e, principalmente, da Cia. Livre (da Cibele Forjaz). O Circo Zanni e o La Mínima.

Qual gênero teatral você mais aprecia?

Todos. O gênero não determina o meu interesse. Mas confesso que, como gênero, a comédia me chama menos a atenção – apesar de ser casado com uma palhaça!

Em qual lugar da plateia você gosta de se sentar? Qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro?

Na frente. Perto do cuspe dos atores. O pior lugar é aquele que nem permite ver o branco dos olhos dos atores, nem ter uma boa visão da encenação como um todo. O pior lugar onde já me sentei foi no Theatro Municipal, lá no poleiro, de onde não consegui ver nada do “Rua da Amargura”, do Grupo Galpão. Tanto que saí no meio, coisa que nunca faço.

Fale sobre o melhor espaço teatral que você já foi ou já trabalhou.
Que difícil! Já trabalhei em tantos teatros bons, como o Alfa, o Sesc Consolação, o Teatro Cultura Inglesa (esses três, os melhores de São Paulo, pela relação com a plateia, pelas equipes de excelentes profissionais, que gostam de trabalhar), vários espaços na Grã-Bretanha. Sei lá.

Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou?

Existe peça ruim, sim, e encenadores que se equivocam. Juntos, fazem miséria!

Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?

Sempre sonhei em fazer um espetáculo aéreo, com grandes atores, como o Gero Camilo, Matheus Nachtergaele e a Carla Candiotto. Mas há pouquíssimos atores capazes, hoje, de atuar com técnicas circenses interessantes, consistentes e com segurança. Infelizmente.

Cite um cenário surpreendente.

O cenário de um circo que vi na França, o primeiro do Archaos, que era uma lona sem lona, só com cordas (ele se chamava “Circo de Cordas” – e não podia chover…). E a escavadeira e o santuário gigante, cheio de velas acesas no meio da plateia do Theatro Municipal, na monagem daquele “Andalucía Amarga”.

Cite uma iluminação surpreendente.

A luz da cena de abertura do Wagner Freire para o “Salomé”, do José Possi Neto. E a primeira luz da Cibele Forjaz que vi (não me lembro mais de que espetáculo era), no Centro Cultural São Paulo.

Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.
Matheus Nachtergaele, no “Livro de Jó”; João Miguel em “Bispo”; Carla Candiotto em “Insônia”; Bruno Rudolf, em “A Volta ao Mundo em 80 Dias”; Marcella Vessichio, em “NuConcreto”, e muitos outros.

O que não é teatro?

Televisão e cinema. Só. O resto é teatro. Toda manifestação artística com um ser humano, ao vivo, é teatro.

A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?
Nossa, que pergunta perigosa! Mas acho que sim. Costumo dizer que tudo é teatro… Então, por que não?

Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?
Tudo. Mas com o ator em primeiro plano, sempre! Apesar da tecnologia.

Em sua biblioteca, não podem faltar quais peças de teatro?

Obras completas de Shakespeare, de Brecht e de Büchner.

Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.

Enrique Dias, Robert Lépage e Carla Candiotto. O Mário Bortolotto, Elias Andreatto e Matheus Nachtergaele, de novo.

Qual o papel da sua vida?
Leonce, de “Leonce e Lena”, do Büchner.

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admira.
Não saberia o que perguntar a autores. O diálogo com as obras se dá na criação, em como contar as histórias. Não consigo questionar essas histórias. O diálogo é entre os criadores e o público. Não tenho nada para perguntar a eles.

O teatro está vivo?

O teatro sempre esteve vivo, mesmo quando disseram que estava morto. Está vivíssimo, ainda mais agora, com o circo e a dança emprestando suas técnicas, estilos e princípios.