Papo de Teatro com Otto Jr.

Publicado em: 11/06/2012




Otto Jr. é ator


 

 

Como surgiu o seu amor pelo teatro?
A partir de uma investigação interna, depois dos 20 anos de idade, quando percebi que passaria a maior parte da minha vida trabalhando e, portanto, precisava fazer algo que amasse. Do contrário, seria insuportável viver. Descobri que era o teatro.

Lembra da primeira peça a que assistiu? Como foi?

Pluft, o Fantasminha, de Maria Clara Machado. Não foi nada de mais. Eu era bem pequeno, entre 7 e 8 anos de idade. Apenas gostei. Foi em Unaí-MG.

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro foi…
Um espetáculo chamado “36 horas”, texto de Luciana Pessanha e direção de Giorgio Ronna. Vi no Rio, na década de 90. Não havia ali nenhuma revolução nesta montagem, mas a maneira como o texto foi escrito e, principalmente, a atuação dos atores no pequeno espaço do Porão da Casa de Cultura Laura Alvim, no Rio de Janeiro, me impressionaram muito à época. Esse trabalho estabelecia uma comunicação direta comigo, quebrava com as atuações e encenações rígidas e antigas, que era o que eu sempre via. Percebi uma nova possibilidade de se fazer teatro. Vi a peça algumas vezes.

Um espetáculo que mudou a sua vida.
Certamente “Deve Haver Algum Sentido Em Mim Que Basta”, trabalho no qual atuei e ajudei a criar, junto com meus colegas da Cia. Teatro Autônomo, no Rio, em 2004. Foi um trabalho muito especial, em muitos aspectos (atuação, direção, cenografia, trilha sonora, luz) e também nas condições que tivemos para realizá-lo. Tenho muito orgulho desse trabalho. Ganhamos o prêmio APCA de melhor espetáculo do ano, em São Paulo, em 2005.

Você teve algum padrinho no teatro?
Não tive.

Já saiu no meio de um espetáculo?
Por mais que eu não esteja gostando do que estou vendo, fico até o final. Mas já saí de uns dois ou três espetáculos, que eram realmente insuportáveis.


Teatro ou cinema?

Demorei muito para fazer Cinema e, atualmente, em 2012, estou em lua-de-mel com ele. Mas não dá para dizer este ou aquele. Gosto de atuar e ponto. Teatro, cinema e TV. São searas diferentes, com prazeres e dificuldades diferentes.

Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê?
“O Doente Imaginário”, do Grupo Galpão; “Traição”, do Harold Pinter, numa montagem que vi com direção do Ary Coslov…


Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê?
Sim. Quando gosto muito, e se tenho tempo, sempre fico com vontade de ver de novo. É uma maneira de descobrir mais coisas da montagem e entender e reafirmar o porquê de eu ter gostado do trabalho.


Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro?

Eu gosto muito de dialogar com o meu tempo, aqui e agora, então, vou citar os contemporâneos, Roberto Alvim, Walter Daguerre, Daniela Pereira de Carvalho, Pedro Brício, Julia Spadaccini, Rodrigo Nogueira e também as dramaturgias criadas pelas Companhias, como a Cia. Teatro Autônomo, Armazém Companhia de Teatro, que são assinadas pelo Paulo de Moraes e pelo Maurício Arruda de Mendonça. Poderia citar mais. Dos estrangeiros, gosto dos clássicos, Pinter, Ibsen, Tchekov, Shakespeare e ainda Andrew Bovell, David Eldridge…


Qual companhia brasileira você mais admira?
Não tem “a que mais admiro”. Gosto de muitas. Companhia dos Atores, Galpão, Armazém, Teatro da Vertigem, Irmãos Guimarães e o Núcleo Resta Pouco a Dizer e, claro, a. Cia Teatro Autônomo.

Existe um artista ou grupo de teatro que você acompanhe todos os trabalhos?

Não. Sempre tem quem eu goste de ver, mas não tenho essa fixação.


Qual gênero teatral você mais aprecia?

Gosto do teatro bem feito, independentemente do gênero.


Em qual lugar da plateia você gosta de se sentar? Qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro?

Varia de trabalho para trabalho. Depende. E com relação ao pior lugar, não sei, mas me lembro de quando fui assistir a uma ópera no Theatro Municipal do Rio e fiquei no último lugar, lá em cima, muito, muito, muito alto, parecendo um poleiro. Foi engraçado.


Fale sobre o melhor espaço teatral que você já foi ou já trabalhou.
Isso é muito relativo. O espaço é ideal em relação ao trabalho que se está realizando. Já trabalhei em muitos lugares, os mais diversos. Do Guairão lotado, em Curitiba, a um galpão no Crato-CE. De um teatro no interior de Minas, onde o técnico local nos pediu para “torcer para não chover”, pois as goteiras eram muitas, até a inauguração de um teatro em Manaus, em que a estreia atrasou meia hora, pois estavam acabando de fazer os últimos retoques… Em todos esses lugares, foram apresentações muito boas.


Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou?

As duas coisas.


Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?

Não sei dizer. Ainda está por vir. Está sempre vindo…


Cite um cenário surpreendente.

De uma peça argentina que vi no Rio, em 2011, chamada “El Passado Es Un Animal Grotesco”. Uma estrutura de madeira redonda com quatro “fatias”, que ficava girando durante todo tempo da peça. Os atores ficavam o tempo todo em movimento. E, quando paravam, dava a sensação de um close de cinema, para nós, que estávamos sentados e estáticos na plateia, pois eles vinham vindo de longe e começavam a se aproximar de nós por conta do movimento da roda. Muito interessante e bem pensado.


Cite uma iluminação surpreendente.

Na peça “Deve Haver Algum Sentido Em Mim Que Basta”, da Cia. Teatro Autônomo. O espaço cênico ficava todo no interior de uma caixa revestida com aquele papel de cúpulas de abajur. Atores e público eram acomodados dentro dessa caixa. A luz do Renato Machado ficava toda fora dessa caixa. Funcionava como uma vibração, um abraço. Não era possível ver de onde ela estava saindo. Era como sentir a luz.


Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.
O Zé Carlos Machado no filme “Eu Receberia as Piores Notícias Dos Seus Lindos Lábios” direção do Beto Brant e Renato Ciasca. Eu li o romance homônimo, do Marçal Aquino, assim que foi lançado e tinha certeza de que se tornaria um filme, por conta da parceria que o Marçal e o Beto têm. Enquanto eu lia, pensava em como poderia ser feito o personagem Ernani, um pastor, sem cair nos clichês. Lendo, eu via que não era um clichê mas, para realizá-lo… uma verdadeira cilada. E o Zé Carlos Machado fez de uma maneira magistral. Um prazer assisti-lo.


O que não é teatro?

Difícil responder a essa pergunta. É uma discussão longa e acho que sem-fim.


A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?
Acho que teatro é arte. E arte pressupõe liberdade. Das artes, acho que o teatro é muito conservador e, por vezes, fico muito irritado quando ouço isso ou aquilo não pode, que “não é assim que se faz teatro”. Ora, como é que se faz? Quem falou que não pode? O que vai acontecer se for feito da maneira “dita” que não se pode fazer? Vão prender os realizadores? Se for feito com responsabilidade, com embasamento, fundamento, pensamento… Acho que sim, tudo é válido.


Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?
O teatro vai se atualizando naturalmente, na medida em que as novas gerações vão chegando. Muitas vezes com resistência num primeiro momento, mas logo, se as inovações vistas em cena vão sendo assimiladas e quase que despercebidamente.


Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro?

“Hamlet”.


Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.

A minha resposta para essa pergunta vai sempre ser diferente. A minha admiração muda de tempos em tempos. Hoje, vou citar então: o diretor Jefferson Miranda, o autor Harold Pinter, o ator Zé Carlos Machado e a atriz Gisele Fróes.


Qual o papel da sua vida?
Atuar, mais e mais. O maior número de papéis possíveis.


Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire.
Para Shakespeare: “Posso te dar um abraço?”.


O teatro está vivo?

Eternamente.