Papo de Teatro com Marcio Abreu

Publicado em: 01/08/2011

Marcio Abreu é ator, dramaturgo e diretor

 

Como surgiu o seu amor pelo teatro?
Desde criança tive uma relação forte com o teatro. Era uma das minhas brincadeiras mais recorrentes. Fiz teatro na escola e depois foi um caminho natural até a profissionalização.

 

Lembra da primeira peça a que assistiu? Como foi?
Provavelmente não, mas como a memória tem algo de invenção, eu tenho algumas imagens de peças pra criança, todas misturadas, mas o que eu me lembro mesmo é de ter visto, ainda criança, o Paulo Autran em cena, numa peça adulta, é claro, e isso me marcou pra sempre.

 

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro.
“Cédric Andrieux”, do coreógrafo Jérôme Bel.

 

Um espetáculo que mudou a sua vida.
“Volta ao Dia…”, uma peça que escrevi e dirigi a partir de uma pesquisa sobre a obra do Julio Cortázar. Foi o momento em que passei a me dedicar mais radicalmente à escrita e à direção.

 

Você teve algum padrinho no teatro? Se sim, quem?
Tive a sorte de encontrar grandes mestres e artistas com os quais trabalhei, que são muito importantes pra mim como Santiago Garcia, Luis Carlos Teixeira, Fernando Peixoto e Luís Melo.

 

Já saiu no meio de um espetáculo? Por quê?
Sim. O teatro é onde vamos pra fazer parte de um fenômeno coletivo, no qual algo de verdade deve acontecer ali entre as pessoas. Quando isso não acontece e, ainda por cima, existe algo pretensioso, fico com vontade de ir embora. Nem sempre vou, pois tenho a esperança de que em algum momento vai mudar. Sou otimista.

Teatro ou cinema? Por quê?
Os dois, sempre. São experiências estéticas distintas e complementares na formação do espectador.

 

Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê?
Os da Pina Bausch. Ela criou mundos maravilhosos nos quais eu gostaria  de viver.

 

Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê?
Sim, muitas vezes. Quando gosto sempre quero mais. E sempre é uma nova experiência. “Romeu e Julieta”, do Grupo Galpão e do Gabriel Villela, assisti várias vezes, perdi a conta.

 

Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro? Explique.
Difícil responder em poucas linhas. Vou ficar só na dramaturgia contemporânea pra ser mais objetivo. Gosto muito do Newton Moreno. Ele transita por universos inquietantes e distintos e a arquitetura dos seus textos é também responsável pelos sentidos que porta. Tenho gostado bastante da obra do Ivan Viripaev, um dramaturgo russo que conheci há pouco tempo e de quem montei a peça “Oxigênio”. Sua obra é política, sonora e universal.

 

Qual companhia brasileira você mais admira?
Muitas, poderia preencher toda essa página. Os grupos e companhias no Brasil dos últimos anos se fortaleceram significativamente.

 

Existe um artista ou grupo de teatro do qual você acompanhe todos os trabalhos?
Não. Eu tento, mais isso é muito difícil. Quem trabalha muito não consegue ver tudo.

 

Qual gênero teatral você mais aprecia?
Não vejo o teatro pelo gênero. Gosto de teatro. Ponto.

 

Em qual lugar da plateia você gosta de sentar? Por quê? Qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro?
Isso depende da peça e da configuração do espaço e da encenação. Gosto de estar num lugar onde possa ter acesso ao que acontece.

 

Fale sobre o melhor e o pior espaço teatral que você já foi ou já trabalhou?
Os melhores espaços são aqueles que podemos realmente usar e nos quais os técnicos, a direção e toda a equipe são a favor do teatro e fazem parte do processo. Os piores são os burocráticos e frios e onde tanto faz ter na programação uma formatura ou uma peça de teatro.

 

Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou?
As duas hipóteses são verdadeiras. Há casos que nem mesmo o encenador pode solucionar.

 

Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?
Sem querer cair no lugar comum, o que estou fazendo agora. É sempre o que estou fazendo no momento. Eu costumo sonhar acordado.

 

Cite um cenário surpreendente.
A Veraneio de “Romeu e Julieta”, do Grupo Galpão.

 

Cite uma iluminação surpreendente.
“Paraíso Perdido”, do Teatro da Vertigem.

 

Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.
Raul Cortez. Eu demorei pra vê-lo no teatro. E foi inesquecível!

 

O que não é teatro?
O que prescinde do homem. O que não promove o encontro entre as pessoas. O que é morto.

 

A idéia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?
Cabe, mas não significa que será arte. Não há garantia na arte.

 

Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?
O teatro é também o seu passado. O sentido histórico no teatro é fundamental pra se pensar o porvir. A tecnologia sempre esteve presente no teatro em todos os tempos, não é uma novidade.

 

Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro?
Os clássicos e os contemporâneos que têm a questão do “como dizer” aliada à questão de “o que dizer”.

 

Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.
Antunes Filho, Jean-Luc Lagarce, Luís Melo, Renata Sorrah.

 

Qual o papel da sua vida?
A minha própria vida.

 

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire. (Por favor, explicite para quem é a pergunta)
Prefiro ler os seus textos.

 

O teatro está vivo?
Sempre.
 

Foto: Elenize Dezgeniski