Papo de Teatro com Flávio de Souza

Publicado em: 16/04/2012

Flávio de Souza é escritor, ator, dramaturgo e diretor

 

 

Como surgiu o seu amor pelo teatro?

Quando fiz um curso de teatro e artes plásticas na Faap (quando tinha cursos livres). Eu tinha de 6 para 7 anos. Fiz o papel de Dom João Ratão numa versão de “O Casamento de Dona Baratinha”.

 

Lembra da primeira peça a que assistiu? Como foi?

“O Rapto das Cebolinhas”, de Maria Clara Machado, numa montagem amadora. Adorei a história e o fato de estar acontecendo ao vivo, logo ali.

 

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro.

“O Balcão”, de Jean Genet, na direção demente, grandiosa e genial de Victor Garcia – isso aconteceu no fim dos anos 60, em São Paulo.

 

Um espetáculo que mudou a sua vida.

“Vida de Cachorro”, a primeira peça que eu dirigi, escrita por mim.

 

Já saiu no meio de um espetáculo?

Sai de pouquíssimos, mas saí, sim. Porque estava achando insuportável ficar sentado vendo aquilo. Teatro pode ser a coisa mais maravilhosa, o tempo passa e a gente não percebe, a gente se emociona, se diverte, aprende. Mas quando é ruim, é praticamente um castigo.

 

Teatro ou cinema? 

Para assistir, cinema. Para fazer, teatro.

 

Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê?

“A Verdadeira História da França”, do grupo francês Royal de Luxe. Foi a coisa mais espetacular que eu já vi. Em São Paulo, foi apresentado no vale do Anhangabaú, o cenário era um livro de mais ou menos 10 metros por 15, que ia sendo aberto, e iam se formando cenários como naqueles livros antigos e, em uma das páginas, onde tudo era feito de metal, acontecia um incêndio em um navio.

 

Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? 

Os que eu dirigi, claro. Como espectador, alguns espetáculos de amigos ou de ídolos. Eu assisti a “Master Class” seis vezes, por exemplo. Foi como ver seis espetáculos diferentes.

 

Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro? 

Artur Azevedo. Escreveu por volta de 200 peças, escreveu de tudo que gostava, fez peças populares, escreveu para ser visto e não para ganhar prêmios, acompanhava as montagens, lutou para que acabasse o preconceito contra os atores (só conseguiu fazer com que diminuísse), lutou para que fosse construído o Teatro Municipal do Rio, que era para ser a sede de um grupo de repertório mantido pelo governo, com elenco só brasileiro (o que não existia, pois os atores brasileiros, em sua grande maioria, eram coadjuvantes de atores portugueses). E ficou bem decepcionado quando viu que iam construir um teatro enorme, onde só seriam apresentados concertos, óperas, balés, e quase nada de teatro de texto. Criou a Caixa Beneficente Teatral, para ajudar atores desempregados, pagar funerais para atores pobres (a grande maioria), escreveu uma coluna sobre teatro onde dava opiniões, sugestões, fazia homenagens e quando criticava os dramaturgos e atores era bondoso e dava conselhos, além de ressaltar as qualidades. Enfim, foi o primeiro homem de teatro, e um dos mais empenhados da História.

E Shakespeare. Todo mundo sabe o porquê.

 

Qual companhia brasileira você mais admira?

Os Parlapatões.

 

Existe um artista ou grupo de teatro do qual você acompanhe todos os trabalhos? 

Marília Pêra. Se bem que eu perdi os últimos, o que eu lamento profundamente. Vê-la no palco é um grande prazer, uma aula, uma degustação artística.

 

Qual gênero teatral você mais aprecia? 

Comédia dramática.

 

Em qual lugar da plateia você gosta de sentar? Qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro? 

O lugar que mais gosto é na fila G, H, mais ou menos. Dependendo do tamanho do teatro, mais para trás – se a platéia for pequena, por exemplo. Eu prefiro não ser visto pelos atores. Porque eu não gosto de ver pessoas conhecidas na platéia. Porque eu sei que, se não gostar, vou fazer umas caretas involuntárias. Porque muito atrás você não “entra” no espetáculo, e muito na frente você fica vendo detalhes e não vê o palco todo.

O pior foi na primeira fileira, em um espetáculo de um amigo. Eu tive ataque de riso, e ele também, e a peça era um drama. Mas uma exceção: numa viagem a Londres, descobri que no National Theater – teatro de repertório mantido pelo governo, onde trabalharam, entre outros, Laurence Olivier e Anthony Hopkins  –   as três primeiras fileiras são vendidas no dia da apresentação, e muito mais barato. Achei que ia ser ruim. Foi ótimo, neste caso foi bom ver os detalhes, ver os melhores atores do mundo em ação.

 

Fale sobre o melhor e o pior espaço teatral que você já foi ou já trabalhou?

Um centro de convenções em Fortaleza, onde uma peça em que eu era ator foi apresentada em 1984. Era grande demais, sem acústica, úmido, cavernoso, enorme – dava para se perder no caminho entre os camarins e o palco. Enfim, era um auditório que estava sendo usado como teatro, e há pelo menos duas mil diferenças entre um e outro.

 

Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou? 

Existe peça ruim, sim. E muitas vezes o encenador se equivoca. Mas os atores, cenógrafos, figurinistas, iluminadores, etc., também podem se equivocar. É duro ver um espetáculo em que todos, num grande movimento homogênio, se equivocam. 

 

Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos? 

Uma comédia musical com Marília Pêra, Irene Ravache, Denise Fraga, Ilana Kaplan, Marisa Orth, Ary França, Henrique Stroeter, Laura Cardoso, Débora Olivieri, Marcelo Mansfield, Denise Freitas, Regina Elena Mesquita, Leonardo Neiva, Hugo Possolo, Cláudia Riccitelli, Edna D’Oliveira.

Cenário de Gringo Cardia. Figurinos de Carlos Gardin. Luz de Jorge Takla. Visagismo e direção de arte de Fabio Namatame. Música de André Abujamra. Direção musical de Jamil Maluf. Regência de Miguel Briamonte. Texto, letras e direção de Flávio de Souza.

 

Cite um cenário surpreendente.

O cenário que o Gringo Cardia fez para a a montagem dirigida pelo Jorge Fernando da minha peça“Fica Comigo Esta Noite”. Era incrível, ele fez uma casa explodindo. Tinha uma cama no meio, várias mesas, fogão, outros móveis, geladeiras, quadros, roupas, eletrodomésticos, objetos pelo palco e alguns presos em fios, a impressão era de que a casa estava mesmo explodindo.

 

Cite uma iluminação surpreendente.

A da montagem do musical “Cabaret”, do Jorge Takla, em 1989/90. A iluminação era dele, e eu já tinha visto outros desenhos de luz dele, mas como eu estava no palco, fui ficando num estado de euforia e graça, sentindo-me “banhado em luz”. E o mais surpreendente é que não teve aquele ensaio de luz longo e desgastante, a gente só tinha que ir para as marcas que a luz acendia certo, a gente não tinha que se adaptar à iluminação, ela já estava pronta. Pareceu mágica.

 

Cite um ator que excedeu suas expectativas.

Henrique Stroeter. Eu sabia que ele era talentoso, inteligente, batalhador, bom de interpretação, corpo e com a capacidade que eu mais admiro em atores: a de fingir que é outra pessoa, se esconder atrás do papel, sem dar show de personalidade e celebridade, sem nunca ser “Henrique Stroeter em…”. Mas ele ficou excelente. Está cada vez melhor. 

 

O que não é teatro?

Eventos que não tem nenhum ser humano ao vivo.

 

A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?

Sim. Se o público concorda, é outra coisa. Eu, por exemplo, detesto ser vítima de número de platéia. Já passei perto de estapear uma atriz que queria que eu fosse para o palco e insistiu. Eu cheguei a apertar a mão dela com bastante força, espero que tenha machucado. Acho sacanagem usar as pessoas que vieram ver você para fazer graça. Odeio ser abordado. Uma vez achei engraçado, porque os atores eram amigos e eles não foram agressivos. Acho bem ridículo cenas de orgia em que as pessoas fingem mal que estão praticando sexo. Quase sempre o pênis dos atores está mole, o que acaba com qualquer possibilidade do público fingir que está acreditando. Tem gente que detesta ver vídeo em peças. Dependendo como for, eu acho ótimo. Enfim, acho que os artistas têm que ter liberdade para fazer o que quiserem. Mas precisam saber que podem sofrer consequências, como plateia vazia, a plateia se esvaziar, as pessoas da plateia devolverem agressões, etc. 

 

Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?

O de sempre. Diziam que o teatro iria acabar na época da criação das tragédias gregas. Não conseguiram nem vão conseguir substituir seres humanos. Com suas qualidades e defeitos.

 

Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro? 

Shakespeare, Nelson Rodrigues, Tennessee Williams.

 

Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira. 

Enrique Diaz, Tom Stoppard, Denise Freitas. 

 

Qual o papel da sua vida?

Um personagem de uma peça que eu ainda vou escrever e não posso contar como é, porque não dá certo.

 

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire.

Para Shakespeare: Quem é você, afinal? 

Para Nelson Rodrigues: Você continua escrevendo, aí onde você está?

Irene Ravache: Quando você vai fazer uma peça minha?

Ilana Kaplan: Vamos fazer aquela peça?

 

O teatro está vivo?

Sim. No Brasil poderia estar mais vivaz, dependendo menos dos atores fazerem telenovelas e de leis.