Papo de Teatro com Eduardo Semerjian

Publicado em: 18/04/2011

Eduardo Semerjian é ator

 

Como surgiu o seu amor pelo teatro?
Quase que por acaso. Aos 24 pra 25 anos, depois de tentar várias profissões e faculdades, fiquei um tempo desempregado por vontade própria. Queria um tempo para refletir. Uns amigos iam fazer um curso livre e acabei fazendo com eles. Logo depois entrei em Artes Cênicas, na Escola de Comunicação e Artes (ECA/USP), e nunca mais parei. Senti que era minha vocação.

 

Lembra da primeira peça a que assistiu? Como foi?
Lembro da que me marcou mais. Nem tenho certeza se foi a primeira a que assisti. Mas pra mim foi como se fosse a primeira vez. “Morte Acidental de um Anarquista”, em 1981, com Antonio Fagundes e a Cia. Estável de Repertório. A maior e mais bonita lembrança que tenho dessa peça era a energia, a presença do Fagundes. Marcou profundamente, e eu tenho isso claro na memória, mesmo 30 anos depois.

 

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro.
“Tierno Bokar”, direção de Peter Brook.

 

Um espetáculo que mudou a sua vida.
Um que assisti, novamente “Tierno Bokar”, de Peter Brook.
Um que participei, “O Fingidor”, de Samir Yazbek.

 

Você teve algum padrinho no teatro? Se sim, quem?
Tive pessoas que me ajudaram, mas nunca tive um padrinho.

 

Já saiu no meio de um espetáculo? Por quê?
Sim, saí, porque se tem algo que não suporto é ser maltratado quando estou no meio do público. Há peças que destratam o público.
 

Teatro ou cinema? Por quê?
Adoro cinema, mas escolho teatro, porque acontece ali, no momento presente, sempre! E você pode fazê-lo cada vez mais profundo.

 

Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê?
Um espetáculo do La Fura dels Baus, que assisti em 1991 ou 1992, Suz/O/Suz. Aquela energia me contagiava, tanto que eu andava em meio aos movimentos da peça pra ser atingido, pra ser acertado e me conectar com tudo aquilo. Deveria ser muito divertido fazer algo assim.

 

Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê?
Já, várias vezes. Ou porque acompanhava uma pessoa do elenco e via sua evolução. Ou porque gostei demais do que vi.

 

Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro? Explique.
Brasileiro, admiro Nelson Rodrigues, mas torço muito para que os novos dramaturgos se especializem cada vez mais para fazer da dramaturgia brasileira algo mais direto, mais sucinto e mais no ponto. Shakespeare é hors concours, então nem vou colocar na lista. Dos estrangeiros, tenho predileção por dois, e não posso escolher, pois gosto de ambos na mesma medida: Strindberg e Pinter.

 

Qual companhia brasileira você mais admira?
Nenhuma me chama tanta atenção a ponto de achar sensacional. Mas gosto muito do Grupo XIX, do Teatro da Vertigem e da Cia. Livre. São ousados dentro de suas propostas.
 
 

Existe um artista ou grupo de teatro do qual você acompanhe todos os trabalhos?
Nenhum em especial.

 

Qual gênero teatral você mais aprecia?
Tenho predileção por tragédia, mas não faço essa distinção específica para escolher uma peça para atuar, por exemplo.

 

Em qual lugar da plateia você gosta de sentar? Por quê? Qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro?
Depende muito porque os teatros diferenciam-se muito entre si. Mas basicamente gosto de ter certa distância para assistir à peça como um todo. Odeio sentar muito perto do palco, de uma maneira geral.

 

Fale sobre o melhor e o pior espaço teatral que você já foi ou já trabalhou?
O melhor espaço em que eu já trabalhei foi o Teatro do Campo Alegre, na cidade do Porto. Por causa da tecnologia, conforto e do espaço em si. Mas, no Brasil, há salas deliciosas, e a que mais gosto é o Teatro Frei Caneca. O pior foi o Teatro Municipal de Catanduva. As placas do teto desabavam no meio do espetáculo e havia um buraco enorme na coxia, onde as pessoas poderiam cair dentro de tão grande. Não sei como tinha autorização para funcionar.

 

Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou?
Claro que existem textos ruins, que podem ser “consertados” por uma concepção de direção, pelo elenco, ou até pela parte técnica. Mas não há a unidade num espetáculo assim, e isso o faz ser um espetáculo no meio do caminho. Mas há também peças fantásticas que o diretor consertou ou o elenco. Varia muito de montagem para montagem.

 

Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos?
Bom, vamos sonhar, então. Vou chutar alto: “Macbeth”, dirigido por Peter Brook, no Royal Albert Hall, em Londres. No elenco, eu fazendo Macbeth, Anna Magnani, mais jovem, fazendo Lady Macbeth, Steven Berkoff seria o Rei Duncan, Marlon Brando, mais jovem, faria Banquo. Algo assim.

 

Cite um cenário surpreendente.
Vou parecer arrogante, mas é mais pela minha surpresa com o resultado mesmo. O que eu fiz na minha única direção em “Uma Noite de Outono Antes da Paz”, de 2006. Jamais me imaginei fazendo cenografia e ficou lindo, conseguindo ser quase uma personagem da peça.

 

Cite uma iluminação surpreendente.
“Quartett”, de Bob Wilson. Das coisas mais lindas que eu já vi.

 

Cite um ator que surpreendeu suas expectativas.
Ricardo Blat, em “Na Solidão dos Campos de Algodão”, que vi acho que no porão do Centro Cultural São Paulo.

 

O que não é teatro?
Tudo que é feito para o próprio umbigo. O resto é teatro.

 

A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro?
Quando é feito com o intuito de ser uma expressão verdadeira de quem o faz, e que busque o outro, sem agredi-lo, mas também sem fazer concessões para agradar, sim, tudo é válido. Ou seja, no fundo, acredito que nem tudo é válido.

 

Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro?
Ser cada vez mais humano para contrabalançar a tendência tecnológica.

 

Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro?
A lista é vasta. Amo desde “Édipo Rei”, passando por “Hamlet”, “Tartufo”, “Jardim das Cerejeiras” e chegando a “Volta ao Lar”. Então, não pode faltar é diversidade de épocas e visões.

 

Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira.

Só citarei os vivos e brasileiros. Diretores: Antunes Filho e Charles Möeller/Claudio Botelho. Autora: citarei uma bem nova, que é Silvia Gomez, porque o que vi dela é genial. Ator/atriz: Norival Rizzo.

 

Qual o papel da sua vida?
Joseph Cartaphilus, do conto “O Imortal”, de Jorge Luis Borges.

 

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire.
Para Bertolt Brecht: como você se sente com tantas pessoas reduzindo seu teatro a algo meramente político, quando visivelmente você é muito mais abrangente?

 

O teatro está vivo?
Por enquanto, as pessoas estão vivas. E isso basta para haver teatro.