Papo de Teatro com Bruno Perillo

Publicado em: 02/05/2011

Bruno de Abreu Perillo é ator e diretor

 

 

 

Como surgiu o seu amor pelo teatro? 

Quando criança, lembro de ter ido ao teatro ver algumas peças infantis. Na adolescência também fui algumas vezes. Mas o que me apaixonou de verdade foi quando entrei num grupo de teatro amador, aos 18 anos, aqui em São Paulo, onde podíamos, enfim, criar, dirigir e atuar – aprendendo então sobre tudo o que envolve um espetáculo teatral. 

 

Lembra da primeira peça a que assistiu? Como foi? 

Uma das mais antigas que me lembro de ter visto foi o infantil “Tistu, o Menino do Dedo Verde”, com direção de Silnei Siqueira. Tenho vagas lembranças dela, mas são boas e marcantes. No entanto, quando meu pai me levou para ver “Romeu e Julieta”, do Antunes Filho, eu fiquei mexido, tocado pelo que vi em cena, ao sentir o que era possível se criar em cima de um palco. 

 

Um espetáculo que mudou o seu modo de ver o teatro. 

Dois espetáculos que eu vi nessa época em que fazia teatro amador foram determinantes para eu me decidir pela carreira teatral: “O Tempo e os Conways”, de J.B. Priestley, e “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues, ambos com direção de Eduardo Tolentino de Araújo e com o Grupo Tapa. Me impressionaram demais e, naquele momento, percebi o que eu queria fazer da vida. Recentemente, “Les Éphémères”, com direção da Ariane Mnouchkine. 

 

Um espetáculo que mudou a sua vida. 

“Otelo”, de William Shakespeare, com o Grupo Folias d’Arte, direção de Marco Antonio Rodrigues. Foi uma peça de enorme sucesso. Passamos mais de um ano trabalhando nela, traduzindo, concebendo, estudando e ensaiando. O Marco havia recém-chegado de Moscou e trouxe valiosíssimos tesouros stanislavskianos de lá – que foram muito utilizados na construção das cenas e de cada personagem. O resultado foi um espetáculo de rara qualidade, considerado pela Revista Bravo como um dos melhores da década (2001 – 2010). 

 

Você teve algum padrinho no teatro? Se sim, quem? 

Considero os atores Brian Penido Ross, Zécarlos Machado, Denise Weinberg, Guilherme Sant’Anna, Luiz Baccelli e o diretor Eduardo Tolentino de Araújo os meus padrinhos. 

 

Já saiu no meio de um espetáculo? Por quê? 

Ah, sim, de alguns! Mas isso mais no início da carreira, quando somos mais intransigentes com linguagens diferentes da nossa. E aí você fica mais indignado! 

 

Teatro ou cinema? Por quê? 

Como ator, na realização do trabalho, definitivamente eu adoro ambos, suas diferenças e suas particularidades. E acho fundamental fazer as duas coisas. Só que acredito que a formação de base do ator ainda está no teatro. 

 

Cite um espetáculo do qual você gostaria de ter participado. E por quê? 

Hummm, acho que são vários… Lembro de um agora atualíssimo, “Inverno da Luz Vermelha”, de Adam Rapp, direção de Monique Gardenberg. Mas acho que o mais forte é: “Navalha na Carne”, de Plínio Marcos, direção do Tolentino também. 

 

Já assistiu mais de uma vez a um mesmo espetáculo? E por quê? 

Muitos e muitos. Adoro assistir. Gosto de entender o que acontece de diferente em cada apresentação da mesma peça. As peças que eu dirigi, por exemplo, assistia a praticamente todas as apresentações.

 

 

Qual dramaturgo brasileiro você mais admira? E estrangeiro? Explique. 

Podem ser dois? Nelson Rodrigues e Plínio Marcos, no Brasil. Shakespeare e Beckett no resto do mundo. Cada um desses tem uma característica muito diversa e única, e genialidades que ultrapassam suas épocas e os eternizam. Óbvio, não dá pra comparar e nem fazer escala de valores entre eles. Mas eles trazem mundos inteiros em suas obras, com conteúdos e formas extremamente lapidadas e profundas. E, claro, existem outros que me marcaram demais: Harold Pinter, Jorge Andrade, August Strindberg e Oduvaldo Vianna Filho. 

 

Qual companhia brasileira você mais admira? 

Não vou citar as duas em que trabalhei e trabalho que são a minha vida inteira de teatro: TAPA e FOLIAS D’ARTE. Admiro o Grupo Galpão, de Belo Horizonte. 

 

Existe um artista ou grupo de teatro do qual você acompanhe todos os trabalhos? 

Sempre que tem uma peça do Antunes Filho eu procuro assistir, mesmo não gostando sempre, assim como também do Enrique Diaz, do Tolentino, do Marco A. Rodrigues e da Cristiane Paoli Quito. Acho importante acompanhar pensamentos teatrais diversos para alimentar os nossos parâmetros. Mas, sinceramente, procuro assistir a tudo que posso. Adoro ver teatro. 

 

Qual gênero teatral você mais aprecia? 

Boa questão… Me formei no realismo do Tapa e migrei para o teatro mais épico-musical do Folias. Hoje o que mais me mobiliza é a aproximação da linguagem teatral com os movimentos de dança contemporânea, de companhias como CIA NOVA DANÇA 4 e CIA OITO NOVA DANÇA. 

 

Em qual lugar da plateia você gosta de sentar? Por quê? Qual o pior lugar em que você já se sentou em um teatro? 

Em geral gosto de sentar na frente… gosto de olhar os atores bem de perto. Acho que o pior lugar foi no Sesc Vila Mariana, para ver o “Hamlet” do Peter Brook. Teatro enorme, lotado e eu vi da última fileira! Péssimo! 

 

Fale sobre o melhor e o pior espaço teatral que você já foi ou já trabalhou? 

Não tem muito isso não. Eu adoro espaços chamados alternativos. Dá pra aproveitar cada espaço de maneira a valorizá-lo sempre. Mas o que incomoda é uma equipe de técnicos despreparada ou de má vontade. 

 

Existe peça ruim ou o encenador é que se equivocou? 

Existe texto ruim! Muito difícil conseguir salvar um texto ruim! E, claro, o encenador pode acabar com um texto bom. 

 

Como seria, onde se passaria e com quem seria o espetáculo dos seus sonhos? 

Quero muita dirigir um espetáculo que una um texto contemporâneo aos movimentos da dança contemporânea. Se passaria num espaço cênico de imensa profundidade, para no máximo cem espectadores. Seriam atores-bailarinos e vice-versa. 

 

Cite um cenário surpreendente. 

O cenário de “Aldeotas”, peça com direção da Quito. Era um tapete branco. Mais simples impossível. 

 

Cite uma iluminação surpreendente. 

A luz de “ENSAIO HAMLET”,  com direção do Enrique Diaz. Um tipo de luz que eu adoro, precisa e contando a história junto com a peça. 

 

Cite um ator que surpreendeu suas expectativas. 

Brian Penido Ross em “RETRATOS FALANTES”. 

 

O que não é teatro? 

Aquilo que tenta reproduzir no palco o que se faz na TV. Esta é a pior prática que se pode ver no teatro. 

 

A ideia de que tudo é válido na arte cabe no teatro? 

Sim! Tudo o que estiver ao alcance dos artistas-criadores e que, de alguma maneira, caiba naquele palco é válido. É daí que surgem ideias e imagens inovadoras. 

 

Na era da tecnologia, qual é o futuro do teatro? 

O teatro é talvez a única arte que, em sua essência, permanece tal qual era desde os gregos. E isto é maravilhoso: o fato de ele só acontecer ali, com alguém fazendo para alguém, naquele único momento. E isto é insubstituível. 

 

Em sua biblioteca não podem faltar quais peças de teatro? 

Vamos lá: “Medeia” de Eurípedes; “Hamlet” e “Macbeth” de Shakespeare; “As Três Irmãs” e “Jardim das Cerejeiras” de Anton Tchekhov. “Esperando Godot”, de Samuel Beckett; “Senhorita Julia” de August Strindberg; “Um Bonde Chamado Desejo” de Tennessee Williams; “Vestido de Noiva”, “Senhora dos Afogados” e “Álbum de Família” de Nelson Rodrigues; “Rasto Atrás” de Jorge Andrade; “Corpo a Corpo” de Oduvaldo Vianna Filho;  “Ânsia (CRAVE)” de Sarah Kane. 

 

Cite um diretor (a), um autor (a) e um ator/atriz que você admira. 

Diretor: Peter Brook. Autor: Harold Pinter. Ator: Zecarlos Machado. Atriz: Denise Weinberg. 

 

Qual o papel da sua vida? 

Treplev, de “A Gaivota”, do Tchekhov. Jean, de “Senhorita Julia”, do Strindberg. Vado, de “Navalha na Carne”, do Plínio Marcos. Vivacqua, de “Corpo a Corpo”, do Vianinha. Pedro, de “Vestido de Noiva”, do Nelson Rodrigues. 

 

Uma pergunta para William Shakespeare, Nelson Rodrigues, Bertold Brecht ou algum outro autor ou personalidade teatral que você admire. 

Shakespeare, como você conseguiu juntar, em suas peças, o universo infinito das facetas humanas? 

Nelson Rodrigues, queria entender as tuas inspirações para escrever o “Vestido de Noiva”… 

Brecht, você e o Kurt Weill nos deram, talvez, as mais lindas canções da história do teatro. Como funcionava a sua parceria com ele? 

Peter Brook, como foi aceitar e manter um grupo juntando pessoas de culturas tão diferentes? 

Antunes Filho, é possível escapar dos seus próprios clichês e armadilhas? É possível se recriar sempre? 

 

O teatro está vivo? 

Sempre. Às vezes, é preciso garimpar na merda, mas é de lá que se tiram as pérolas.