Palco 50

Publicado em: 04/06/2014

* por João Branco, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

Fazer teatro é difícil. Fazer teatro em Cabo Verde é ainda mais difícil. Quem, como eu, conhece muito bem a história do teatro cabo-verdiano, reconhece que a grande maioria dos projetos teatrais foram aparecendo e desaparecendo nas ilhas à mesma velocidade que nos visitam os ventos do deserto do Saara. São raros os casos de companhias de teatro que resistem à erosão do tempo, às necessidades de sobrevivência do dia-a-dia que tantas e tantas vezes obrigam muitos a deixar as suas cidades para tentar a sorte em terra longe. 

 

O caráter amador do nosso teatro crioulo confere-lhe uma áurea poética e misteriosa mas é também o resultado de uma fragilidade que ajuda a explicar o súbito aparecimento e posterior desaparecimento de tantos projetos ligados ao teatro, nomeadamente de companhias e coletivos cênicos, espalhados pelas nove ilhas habitadas do nosso arquipélago atlântico. 

 

Por isso, quando no próximo dia 20 de junho for lançado na cidade do Mindelo o livro “Palco 50” e estiver concretizada a abertura de uma grande exposição de fotografias que tem o mesmo nome, teremos uma noção mais clara do fantástico percurso que o Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo realizou ao longo dos seus vinte e um anos de vida. 

 

“Palco 50” porque a companhia mindelense comemorou no último mês de março a sua produção teatral nº50 com “Quotidiamo – esta não é uma história de amor”, peça original escrita a oito mãos por quatro autores de quatro países diferentes, sendo que o escriba brasileiro foi o nosso muito querido Ivam Cabral.  O autor cabo-verdiano, Abraão Vicente, cronista, artista plástico e, pela nossa mão, dramaturgo, escreve no prefácio do livro que “o melhor que se fez na cena artística cabo-verdiano do ponto de vista conceptual, criativo e de invento artístico mora nesse antro de experimentação e ousadia”. Conclui no seu testemunho, porque está também ciente da quase inevitabilidade do caráter efêmero do nosso teatro, que “se o teatro acontece, acontece por uma razão. Se acontece insistentemente há cinquenta peças na cidade do Mindelo também há um motivo. É a paixão pelo palco, sem dúvida, mas também o fato de existir um grupo com os contornos, a garra e a vontade do GTCCPM. “

 

Fomos os primeiros a colocar em cena obras de escritores nacionais tão importantes como Germano Almeida ou Armênio Vieira, o nosso poeta, Prêmio Camões. Encenamos peças de dramaturgos cabo-verdianos como Mário Lúcio Sousa – atual Ministro da Cultura de Cabo Verde, ou Caplan Neves, um talento invulgar da nova geração de escritores nacionais. Fomos os pioneiros na adaptação crioula de clássicos da dramaturgia universal, como Shakespeare – com a trilogia “Romeu e Julieta”, “Rei Lear” e “Tempestade”; Garcia Lorca – com outra trilogia, “Casa de Bernarda Alba”, “A sapateira Prodigiosa” e “Bodas de sangue”; ou Molière, com “Medico à força” e “Escola de mulheres”, entre muitos outros. Encontramos a nossa Compadecida através de Suassuna, a nossa espera pela chuva através de Beckett, os nossos prisioneiros através de Vitor Hugo.

 

Diversificamos a cada peça, experimentamos novas linguagens, utilizamos máscaras estranhas, lançamos o clown teatral, fizemos teatro com mais texto ou com mais corpo, mas sempre com imensa alma. No país da música, fomos pioneiros na cumplicidade artística com inúmeros artistas locais, entre os quais Luis Morais e Orlando Pantera, dois históricos da nossa historiografia musical, infelizmente já desaparecidos. Envolvemos artistas plásticos conceituados na criação de cenários, figurinos e adereços. Somos reconhecidos pela qualidade plástica das nossas encenações e pela ousadia das nossas propostas. Não é por acaso que este é também o grupo de teatro de Cabo Verde mais internacional de sempre, com mais de três dezenas de participações em festivais no exterior. 

 

Cinquenta peças não são cinquenta outra coisa qualquer. Não são cinquenta moedas ou cinquenta bolachas. A possibilidade de celebrar este momento tão especial com o Palco 50 marcará de forma inolvidável o meu percurso enquanto homem e artista de teatro. Até porque o teatro, é preciso dizê-lo, tem que ser visto para que dele se possa falar. A sua natureza presencial e tridimensional a isso obriga. Todo o resto são marcas que podem valer muito e trazer-nos no futuro preciosas pistas para quando o presente se transformar num passado longínquo. É o que o Palco 50 pretende: deixar uma marca, uma impressão digital de cinquenta linhas.