O Processo Criativo de “Bella Ciao”

Publicado em: 21/05/2012

A antológica obra “Bella Ciao”, escrita por Luís Alberto de Abreu em 1981, serve como material de trabalho para os aprendizes do Módulo Verde da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco. Para que eles tivessem um contato ainda mais próximo com a peça, no último sábado (19), a Instituição recebeu o próprio autor em uma Mesa de Discussão, que abriu a programação do Território Cultural direcionado ao segundo Experimento desse Módulo.

Organizada pelo setor de Extensão Cultural da Escola, a conversa, que girou em torno do tema “Processos Criativos”, teve como mediador o roteirista, dramaturgo e diretor de cinema Rubens Rewald.

Concluídas as apresentações, Rewald foi o primeiro a falar, relembrando o início de sua trajetória no cinema e a forma como passou a fazer teatro. Também se disse um apaixonado por “Bella Ciao”, a qual descreveu como sendo “uma saga histórica rara de se ver no teatro”.

Ao discorrer sobre a obra, o artista destacou o diálogo entre os personagens e a História – o eixo temático dos aprendizes do Módulo Verde da Escola é a personagem, dentro das perspectivas do texto dramatúrgico –, além dos conceitos de alguns tipos que podem ser encontrados na criação de Abreu.

Logo quando assumiu o microfone, o autor já fez questão de ressaltar: “É um pouco difícil falar sobre o nosso próprio trabalho, pois nunca se tem noção da dimensão que ele alcança”. Segundo ele, um dos principais fatores da criação da peça foi a sua inexperiência em dramaturgia, já que este foi apenas seu segundo texto teatral.

Abreu explicou que viveu a infância no ABC Paulista, que, naquela época, como ele descreveu, era um enorme “fazendão”, e passou a se tornar o centro político do País no final da década de 1970, com a greve dos metalúrgicos. Interessado pelo assunto, começou a fazer pesquisas, que o levaram ao início do século, mais precisamente à imigração italiana no Brasil.

Indo cada vez mais fundo no levantamento de informações relacionadas ao tema e na realização de entrevistas – que, conforme ele disse, nortearam a criação –, o dramaturgo comentou que na ocasião pensou em fazer três sagas, e brincou que “quando se é jovem não se tem noção do perigo”, pois a quantidade de material já era abundante e até excessiva, o que foi resolvido com a adoção de um rígido critério de seleção sobre o que deveria estar presente na obra e o que podia ser dispensável.

“Você deve ir a campo, pesquisar e deixar o material falar. Não pode ficar fazendo deduções”, sugeriu, depois de atentar para a necessidade de se atribuir um “sentido inaugural” a uma obra, evitando que esta se torne mera reprodução.

Já ao fim do encontro, Rewald, tomando a palavra novamente, apontou a questão da demarcação do material como um dos principais elementos da fala de Abreu. Para ele, é essencial selecionar o que trabalhar dentro dos grandes temas. “É impossível trabalhar o todo”, completou.

Em sua primeira visita pela Instituição, Rewald se mostrou bastante empolgado com o projeto da Escola. “Estou encantado. Nunca estive aqui antes e achei o espaço físico e a energia fascinantes. Pelo que estou conhecendo, é uma experiência didática e artística muito interessante.”

Com o fim da conversa, os núcleos do Experimento retornaram às suas respectivas salas para dar início às aberturas de seus trabalhos. No final da tarde, outro encontro, desta vez com a atriz, preparadora corporal, diretora e professora de interpretação Renata Zhaneta, e o pesquisador e dramaturgo Felisberto Sabino da Costa, encerraram a programação deste Território Cultural com provocações sobre as propostas dos aprendizes.
 

 

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Texto: Felipe Del