O peso de três escombros asfixia o teatro brasileiro

Publicado em: 15/06/2015

Maurício Paroni de Castro*

 

São Paulo cresce e deixa escombros por onde passa. Nossa política cultural faz o mesmo. As principais leis de incentivo que alimentam todos os níveis da ação produtiva – governo, produtores, artistas – deixam ruínas sem valor histórico. Não discuto aqui outras áreas culturais ou cidades que não conheço. Muita coisa parece ter dado certo no cinema, por exemplo. Mas, já que estamos mudando de governo, gostaria de apontar três escombros que asfixiam o nosso teatro. E para removê-los não precisamos da autorização de Bush, que felizmente se lixa para essas coisas.

1. Nas cidades onde, em dado momento histórico, ocorreu a mágica cumplicidade entre multiplicidade e utopia civilizatória, a população se integrava com o teatro ao estar próxima dos locais de espetáculo e ao zelar por sua integridade arquitetônica. Era coisa de todos.

O Globe Theatre e outros teatros da Londres elisabetana existiram enquanto neles havia atividade teatral com significado concreto. Ali, o entretenimento veiculava e professava a liberdade, o sonho, a utopia. O período obscurantista de Cromwell, do fanatismo puritano e da peste se encarregou de destruir aqueles edifícios e tudo o que representavam. Isso não está tão longe do Brasil como parece. O uso dos espaços citadinos do Teatro da Vertigem possui o significado concreto mencionado acima. Essa riqueza precisará de um endereço, de um referencial público para o que foi construído artisticamente.

Em nossos dias, Paris deu um grande exemplo a propósito. Incentivou a divisão pública do tesouro teatral resultante das peregrinações de Peter Brook, atraindo-o para o Théatre des Bouffes du Nord, um edifício decrépito e periférico. A inteligência do gestor cultural chegou antes do dinheiro, que veio depois. O seu talento foi multiplicado mais do que quando dirigia na Royal Shakespeare Company, o mais rico teatro inglês.

Não vejo porque aceitamos ficar atrás de Paris. Há muito talento nos artistas de teatro brasileiros. E um talento heróico, subnutrido pelo depauperamento intelectual, pela perfumaria tecnológica e pela gestão antidemocrática dos espaços teatrais.

Os teatros que significaram alguma coisa para nós foram quase todos destruídos; aqueles que sobraram foram restaurados e são como limbos dantescos, separados como estão da população. O Oficina ainda continua vivo somente graças à determinação de seus integrantes, que é digna de heróis de Ésquilo.

Na música, há a Sala São Paulo e o Teatro São Pedro. No teatro, há o quê? Há a tentativa inteligente da Prefeitura de reconstituir socialmente a zona central da cidade. Chega a ceder alguns espaços a grupos de teatro. Entretanto qual conteúdo veicular ali, se os artistas brasileiros são forçados a serem heróis, em vez de criarem heróis? Morre a profissão e sobrevive o sacerdócio.

2. Serei um louco furioso, mas acredito nisto: o teatro sempre reciclou a ignorância. Dela se nutriu e com ela ficou forte. No Globe, a maioria do público era analfabeta. Analfabetos concretizam melhor e mais rápido as palavras de seus interlocutores. Por isso Shakespeare não abaixava o nível daquilo que fazia. Na commedia dell’arte, os atores eram também literatos cultíssimos. Estudavam Platão para concertar trechos de amor e de ódio.

Ao assistir a aparições de demônios, o público sentia medo real da idéia do demônio, não do demônio. A diferença é sutil, mas fundamental, é a mesma entre um teatro e um templo de fanáticos. A comunicação de idéias se dava graças ao domínio artesanal dos atores, que se servia da ignorância, mas não a propagava.

Sem artesanato não há teatro; artesanato se aprende nas escolas; as escolas de teatro no Brasil são caríssimas, frequentadas e mantidas por uma classe média obtusa. Os professores e uma minoria mais inteligente são atropelados por um sistema perverso que ensina a lógica da mendicância. Termina-se, então, por cultuar, construir e difundir uma estética de mau gosto e baixo nível, fundeada no preconceito.

3. Um dia, o ser humano percebeu dentro de si uma força secreta, íntima e imaterial. Ela tinha o poder de subjugar racionalmente as ações de seu corpo. A tal mistério deu o nome de “alma”. Era igual a ele próprio: desejava, esperava, sonhava, exigia existir para o outro. Projetou-a nos objetos, nos animais e, enfim, no outro.
O passo seguinte foi se mimetizar como objeto, vestir-se com a pele dos animais, mascarar-se com a face do outro. Esse universo, real e irreal ao mesmo tempo, materializou as agitações de sua “alma”. Muitos gostavam de assistir ao fenômeno. Era útil. Assim começou o teatro entre gregos, índios, negros, arianos. Admitindo ou não, somos seus herdeiros. Esse atestado de civilização, mesmo separado da religião, é sagrado e público.

Temos passado longe, muito longe, da civilização. Promovem-se “curtos-circuitos de modernidade”. Financiam-se espetáculos caríssimos por meio de leis de renúncia fiscal em que o grande beneficiário é o marketing de empresas. Rotula-se tudo isso de teatro enquanto indústria cultural. Esta, se fosse cultural mesmo, estaria falida sem mesmo ter começado a existir.

A renúncia fiscal não é nociva em si. É um dos meios para se empregar dinheiro público no teatro. Mas seria preciso ter a honestidade de admitir que esse dinheiro é público. O governo presta contabilidade, mas não pode prestar contas de para onde vão tais recursos, simplesmente porque ele se omite da decisão real. Quem decide são departamentos de marketing de empresas; elas escolhem qual artista ou atividade irão patrocinar. As empresas não têm culpa. A lei o permite e incentiva.

Na prática, as companhias teatrais com idéias concretas têm vida curta. A maioria nem nasce. Isso não é planejamento cultural, é fugir da responsabilidade da gestão política. Entre privatizar e pulverizar o senso de Estado, há grande diferença. A ditadura minou o teatro com a censura. O modelo cultural que se seguiu até aqui tratou essa instituição antiga – que necessita de preservação, renovação e vida citadina – como uma coisa velha, maquiando-a apenas.

O peso desses escombros asfixia silenciosamente o teatro brasileiro. Fortalece-se a selvageria em que já vivemos. Nesse ritmo, será normal topar com cambistas oferecendo ingressos para ver assassinatos ao vivo nas esquinas. Por tédio.
 

* Este é um artigo que foi publicado na Folha Ilustrada em 23 de dezembro 2002. Como se trata (ainda!) de uma discussão atual sobre o teatro e a cidade, faço sua republicação, gentilmente autorizada pelo editor do jornal Folha de S.Paulo.