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O Grand Finale Azul

Publicado em: 24/05/2011

Durante exatos 32 dias, a SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco foi dominada por uma energia rara e inspiradora, algo que não pode ser traduzido em palavras, pois a subjetividade e a improvisação eram justamente as premissas condutoras do Experimento do Módulo Azul.

 

Foram dezenas de performances, realizadas por oito grupos que continham aprendizes de todos os cursos, em que predominaram a criatividade, a ousadia e a originalidade. 

 

O grupo Cinco deu fim ao que parecia interminável no dia 20/05, às 13h. Os aprendizes, que completaram o ciclo de mais de 30 horas sem dormir, se enrolaram em cobertores e, enfim, descansaram. A aprendiz de Direção Juliana Caldas comenta que o processo se tornou mais cansativo porque muitos estavam acordados desde quarta-feira (18) de manhã para deixar tudo pronto. “Alguns estão há 50 horas sem dormir. É complicado”, finalizou.

 

Com a ajuda de uma bula, o grupo Sete conseguiu passar a todos a ideia do “modo de usar” a apresentação. No dia 20/05, coordenadores, formadores e aprendizes de outros grupos entraram na sala iluminada por velas e ficaram esperando para ver o que viria. Depois de olharem para dentro de um cubo – construído no meio do ambiente – o público riu bastante. 

 

Os “enjaulados” no cubo representavam o cotidiano de forma intensa, beirando à loucura. Fumavam, gritavam, conversavam e jogavam objetos nos que assistiam à performance. Nem o diretor executivo Ivam Cabral nem a coordenadora de Dramaturgia Marici Salomão escaparam da farinha, que foi atirada contra o rosto do público.

 

Neste sábado (21/05), este período de constante aprendizado encerrou-se com chave de ouro, em um dia repleto de aberturas de processo.

 

O primeiro grupo a se apresentar foi o Oito, que ocupou a sala 26 para retomar sua performance. Como acabou? Com “remédios”, representados por suco e chocolates coloridos, distribuídos também para o público. A apresentação agradou a Raul Barretto, coordenador do curso de Humor. “Gostei bastante, eles fizeram um registro diferente do humor, mais inteligente e sem ‘bobeirinhas’. Em pouco tempo de trabalho, eles foram capazes de ouvir as críticas e melhorar, demonstraram uma grande evolução.”

 

A sala 39 foi a próxima a receber o público da SP Escola de Teatro, que queria ver novamente a exibição do grupo 1. Com poucas alterações em relação às duas primeiras apresentações, o grupo parece ter conseguido colocar em prática o que o diretor Adalberto Lima tinha em mente desde o início. “Nós vamos na contramão das outras performances. Já cansamos de ver coisas ruins no nosso cotidiano, então queremos mostrar as coisas que nos afetam de outra maneira”, disse ele.

 

Lima cita como uma de suas inspirações uma samambaia que cresce no pátio da Escola. “No início ela tinha apenas três folhas, hoje já tem 13. Passamos por ela e, às vezes, nem reparamos. Ou seja, será que a delicadeza, hoje em dia, não choca mais que aquilo que é brutal?”, questionou.

 

Dois andares abaixo, na sala Oito, o grupo Seis esperava o término dessa para apresentar a sua abertura de processo, que chamava a atenção já na entrada, com a porta da sala a ser utilizada imitando uma vagina. Dentro do ambiente, várias garotas se vestiam como se fossem retiradas de um sonho fetichista sexual, cada uma delas interagindo com o público à medida que este se aproximava ou as tocava. Foi necessário abrir o espaço durante várias sessões, para que todos da longa fila de espera pudessem matar a curiosidade.

 

Em seguida, os espectadores foram transportados a outro universo, na sala Seis, com a performance do grupo Quatro, que manteve a mesma estrutura de suas duas primeiras apresentações, porém, com a remoção de um texto que era recitado no final da exibição e uma novidade: um ator seminu e completamente pintado de branco ficava no centro do pátio, com alguns fones pendurados ao seu corpo. 

 

Quem optava por colocar os dispositivos no ouvido, escutava um texto, mas quem se atrevia a encará-lo era premiado com algumas palavras do ator, cochichadas ao pé do ouvido, como se ele partilhasse um grande segredo.

 

O grupo Dois, enquanto isso, mostrava seu processo na sala 34. Até o meio da exibição, poucas alterações em relação às suas outras performances, mas, na parte final, uma cena nova. No momento em que uma das atrizes é enterrada sob uma pilha de sapatos, os demais atores comem miojo e bebem vinho utilizando os calçados acumulados como recipiente.

 

Grissel Piguillem, a formadora responsável pelo grupo, explica que “a performance e a performatividade são conceitos extremamente difíceis de ser explicados. É  muito complicado julgar uma apresentação dessa modalidade”.

 

Para encerrar o dia e a fase do Experimento do Módulo Azul, o grupo Três apresentou sua performance, pautada na relação entre morte e fracasso.  A sala 26 foi tomada pela “dança ritualística”, pelos batuques e pela dança das cadeiras realizada pelos atores. 

 

Com a estrutura semelhante à das outras aberturas de processo, o grupo incluiu um “desabafo” de um dos atores, que reclamava da postura do coletivo em relação ao desenvolvimento da performance e afirmava que só queria se divertir e fazer o que gosta, sem se preocupar com os conceitos existentes sobre essa área do teatro.

 

Assim terminava o Experimento do Módulo Azul. Marici Salomão, coordenadora do curso de Dramaturgia, acompanhou atentamente todas as aberturas de processo e relata que, segundo seus critérios de avaliação, algumas se destacaram mais do que as outras. “As propostas cujas instâncias criativas, do texto a técnicas de palco, dialogaram e se atritaram realmente, ofereceram resultados mais interessantes: camadas de discursos que conseguiram colocar-nos, espectadores, em lugares outros que não os habituais”, observa. 

 

O aprendiz de Atuação Renato Macedo da Silva, que fazia parte do grupo Três, informa que não sabe exatamente definir o que é performance ou performatividade, mas complementa: “Acho que realmente não importa saber. Não existe resultado a ser avaliado, era uma experimentação. Rolaram várias coisas legais e com certeza aprendemos muito”.

 

A partir de agora, os aprendizes do período matutino se dedicam à Formação, na qual serão submetidos a uma avaliação do estudo desenvolvido ao longo do semestre e do Experimento, sistematizando os conhecimentos vivenciados na prática e ampliando o repertório teórico e técnico.

 

Confiram, amanhã, todas as fotos das últimas apresentações do Módulo Azul na Galeria Multimídia.