O exemplo como forma de discurso

Publicado em: 17/02/2014

* por Marici Salomão, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

No mês passado, toquei no assunto das narrativas repetidas à exaustão para a manutenção da ordem e das ações calculadas daqueles que nós erigimos como detentores do “poder”, na política, na mídia, na cultura etc. E, curioso, que de tempos em tempos tentamos a derrubada do “poder”, usando as mesmas armas que esse “poder” oferece – violência, vingança e autoritarismo. Não é um contrassenso?

 

Citei o filme de Luchino Visconti, “O leopardo”, com a frase antológica: “Se quisermos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”. Mudam-se nomes, rostos, algumas estatísticas, e a fórmula produz seu efeito: a impressão de que algo se alterou, quando nada, nada se alterou, de fato.

 

Um bom exemplo a se pensar é na situação das mulheres no mundo.

 

Recentemente, no facebook, uma aprendiz querida da SP Escola de Teatro fez um apelo: chega de ser tratada como um produto, um pedaço de carne pelos homens. Sem citar fato específico ou detalhar exemplos, deixou claro que tem convivido constantemente com atitudes machistas de muitos colegas. “… e é insuportável toda vez que me veem antes como a criatura objeto portador de uma vagina do que como uma pessoa que busca amizade e livre interação”, escreveu.

 

Dou total razão a ela. Sou mulher. Seria burrice não pensar igual. Porém, já na marca dos 50, digo ouvir à exaustão esse tipo de discurso, e desde muito pequena – claro, muita coisa mudou graças ao feminismo, mas nem tudo. Ouvi esse discurso em casa. Nas ruas. Na escola. No trabalho. Parece-me que a própria cultura vai sendo fabricada para que a mulher, frente ao mundo patriarcal – que, aliás, ela própria ajuda a construir (por mais obsoleto que ele seja hoje) –, vá paralisando ao refletir e/ou se revoltar diante dos obstáculos machistas.

 

Porém, o que ocorreu na minha vida, é que nunca dei muito espaço para sofrer ou revidar atitudes machistas. Passei por cima dos papos de bar repletos de piadinhas e cantadinhas baratas. Briguei pelos meus sonhos (e continuo brigando), sem ficar pensando se eram de um homem ou de uma mulher. Na escola, nunca me senti rebaixada. Também nunca parei para pensar se a dramaturgia era um espaço tomado mais pelos homens do que pelas mulheres. Muitas vezes me fingi de cega para enxergar mais longe e poder seguir em frente. Claro que é preciso saber usar do limite: coisas inaceitáveis devem ser respondidas-cortadas no momento em que acontecem. Mas meu tapa mesmo na cara do mundo machista foi meu exemplo, mais do que meu discurso. Aliás, prefiro que meu exemplo seja meu discurso.

 

Neste domingo (16/2), na Ilustríssima, uma matéria de Raul Juste Lores (correspondente da Folha em Washington), bastante pertinente ao tema: ele escreve sobre a luta da atriz americana Geena Davis (Thelma & Louise) contra a invisibilidade da mulher na mídia. Sua tentativa de melhorar a imagem da mulher na TV e no cinema tem como base números alarmantes, levantados pelo seu instituto de estudos de políticas de gênero na mídia: nas duas últimas décadas, das personagens com falas em filmes, 71% eram masculinas e apenas 29%, femininas. É realmente terrível pensar que em boa parte das produções hollywoodianas a mulher é apenas a namoradinha do protagonista.

 

Acho incrível o exemplo de Davis, em lutar para mudar o papel subalterno das mulheres na mídia. Um excelente exemplo ela. Eu realmente acredito que o exemplo é quem muda e constrói um mundo melhor. O que precisamos, mulheres, é AUMENTAR os exemplos a serem seguidos.