O Dia das Borboletas

Publicado em: 10/04/2012

O dia era mesmo para ser arrepiante. Ao entrar na sala e cumprimentar os amigos da turma de Atuação, como faço todos os dias, Björk se fazia presente, mas não tirava o foco dos que abaixados faziam seu ritual diário. Os panos de chão saíram do monte que se fez perto do banco e aos poucos foram ocupando o varal improvisado no corredor. Enquanto isso, pensávamos silenciosamente no que iríamos fazer sobre o que aconteceu e que nos mexeu tanto a ponto de nos agredir. Não sabíamos que estávamos tão perto do dia que marcaria nossas vidas.

 

Ainda no preparo da sala, Björk cede lugar a Mychael Danna, com a música “The Winner Is”, e imediatamente fui tomado por um arrepio. Uma chave dentro de mim foi acionada. Às vezes sou meio cético, sinto dificuldade em acreditar em muitas coisas, inclusive em Deus, mas diante de algumas coisas da vida e de canções como esta, eu sei que Ele se faz presente. Não pela tristeza, mas sim pela beleza. Pela beleza da água, do olhar da criança, da lua, do céu. Perco qualquer tipo de argumento perante coisas desse gênero. Perdi toda a razão e agi pela intuição. Era essa a música. E foi ela a condutora de tudo o que estava por vir. Ela deu significado à tinta no corpo, ao negro das nossas roupas, ao olhar sem rumo, aos parafusos dependurados pelos corpos, às bandeiras vermelha e preta na parede da Escola, às lágrimas, aos sorrisos que inundaram nossos corações.

 

Posicionado no centro do pátio, de costas para a bandeira vermelha, comecei a olhar para as pessoas que estavam curiosas para saber o que aqueles 24 atores espalhados pela escola estavam querendo dizer. Talvez nem nós sabíamos com exatidão, mas na junção de todos os que passaram, começou-se um rabisco daquilo que para nós é importante e que palavras não foram necessárias, apenas olhares e gestos. Aos poucos meu corpo começou a se modificar, eu comecei a ficar amortecido e trêmulo e olhar para aquele tanto de gente em todos os andares do prédio, foi me emocionando. Perdi o controle quando o Diego, do curso de Cenografia e Figurino, passou por mim chorando, mas eu não vi tristeza no rosto dele, vi alegria. Foi o estopim, imediatamente fui contaminado e chorei. Já tinha saído do âmbito pessoal. A coisa já tinha saído de nós e passado para quem nos rodeava.

 

Depois do Diego, o segundo, o terceiro, o quinto, o décimo, outros tantos foram atingidos por algo que não sabemos o que foi, e nem precisamos. A partir de agora o ato foi muito mais além de qualquer proposta feita por nós. Um aprendiz, que até o momento eu não sei quem é, começou a andar entre os que estavam no pátio e sem saber virou o protagonista da história. Fiquei olhando para ele e vi quando ele retirou o tênis e a camiseta, colocou tudo no chão, abaixou e se deitou com os braços abertos bem no meio do sol. Já não estávamos mais sozinhos. Saí de onde eu estava e me juntei a ele, também de braços abertos.

 

O sol era muito intenso onde deitamos, não dava pra ver mais nada, a não ser as nuvens. Elas pareciam contagiadas com a mesma música que nos contagiou. Olhamos tão pouco para o céu que perdemos a noção do quanto ele se move. Depois de um tempo, levantei a cabeça para ver o que acontecia à nossa volta e me deparei com o pátio cheio de gente deitada como eu e aquele desconhecido. Foi quando a Stella passou jogando bombons e pirulitos sobre nossos corpos. Novamente chorei. Sentei quando o desconhecido se sentou e juntos ficamos tentando entender o que o pessoal da Escola estava fazendo ao mexer nas bandeiras. Foi então que vimos a bandeira preta sendo retirada. Naquele momento ela havia perdido o sentido.

 

O que foi que fizemos naquele dia? Soltamos borboletas pela SP Escola de Teatro e o bater de suas asas foi modificando o que nos rodeava. A partir de então, outras borboletas foram soltas e continuam sendo libertadas. Já não temos mais controle de onde elas vão querer pousar, nem do que seu bater de asas vai gerar. O que fizemos na manhã do dia 5 de abril de 2012? Se me perguntarem isso daqui a meio século, me julgarão senil quando eu responder: soltamos borboletas!

 

Véver Bertucci – Aprendiz de Atuação