Não estava pronto…

Publicado em: 14/07/2014

Esta crônica não é minha. Cedi o espaço para que pudéssemos ter o testemunho direto de um cabo-verdiano que nunca tinha saído do espaço das ilhas, para aterrar no vasto e louco mundo da metrópole São Paulo. Fica aqui, na primeira pessoa, o sentir do Ricardo Fidalga, depois desta injeção de teatro oriunda da SP Escola de Teatro (ele cursou Humor na Instituição).

 

João Branco

 

“Se me perguntarem hoje se algum dia da minha vida eu pensei em estar na SP Escola de Teatro, nem que fosse para visitar, eu responderia sem pestanejar que sim, mas que ainda tinha muito caminho pela frente até chegar aí, imaginem então o que foi para mim poder estudar naquela que é a melhor escola de teatro da América Latina.

 

Posso com toda a certeza do mundo afirmar que existe um Ricardo antes e um Ricardo depois da SP Escola de Teatro. Ter tido a oportunidade de frequentar um Curso Regular durante esse semestre foi um dos maiores privilégios que eu pude ter até hoje. Esse curso foi a melhor experiencia que eu já tive, não só no que toca ao teatro, mas num aspeto geral como experiencia de vida, por estar pela primeira vez num país estrangeiro, com pessoas desconhecidas, estudando teatro, fazendo novas amizades, podendo ser testemunha de inúmeras coisas novas, aprendendo muita coisa a cada dia que passava e o que é melhor: me divertindo e sentindo parte daquilo tudo.  

 

Na Escola fui recebido por todos de braços abertos, da melhor forma possível, com todo calor, amizade, generosidade, carinho e simpatia do povo brasileiro, sempre tentando fazer-me sentir em casa, querendo me integrar em tudo, e me ajudando no que podiam. Acho que durante toda minha estadia em São Paulo, nunca consegui sentir-me um total estrangeiro, pois meus colegas, formadores, amigos, nunca me trataram como tal. Claro que sempre tiveram noção disso, porém sempre tentando me fazer sentir igual a eles, e sempre da melhor forma possível. 

 

Mas vamos falar do que realmente importa, teatro, pois isso foi meu foco, claro que sempre tentando absorver um pouco de tudo mas sempre com uma meta: aprofundar meus estudos, conhecimentos e noções do mundo e do teatro no mundo, absorvendo tudo o que eu conseguisse na SP para me fortalecer e para também depois da melhor forma passar isso aos aprendizes e amantes dessa arte que está dentro de mim, aqui em Cabo Verde.

 

Durante o intercâmbio, na SP, tive o prazer e a honra de aprender com vários artistas, que fazem teatro há muitos anos, que têm anos de experiencia, que estudaram e aprenderam com grandes mestres e que acima de tudo amam aquilo que fazem. Tive aulas de acrobacia e corpo da criança, improviso, ação e conflito, comicidade, construção de personagem, e outros, com a carga horária total de 452 horas. Vou confessar que nunca me senti tão à vontade e tão feliz numa escola/sala de aula como me senti na SP, não só por se tratar de teatro mas por terem sido pessoas como Nereu Afonso, Ronaldo Aguiar, Luciana Viacava, Daniela Biancardi, Dagoberto Feliz e Suzana Aragão a darem essas aulas, pelo rigor e pela didática com que as aulas eram ministradas, e sempre num ambiente leve de descontração, sem hierarquia mas sempre com responsabilidade e respeito entre todos. Além disso, também tenho que mencionar os colegas espetaculares que eu tive.

 

Assisti a espetáculos incríveis, com diretores e elencos fora de serie, conheci e conversei com grandes nomes do teatro brasileiro, fiz formações de extensão cultural com artistas residentes e estrangeiros, conheci lugares, coisas e pessoas que nunca vou esquecer, que contribuíram para que tudo fosse perfeito do jeito que foi.

 

Certamente ficou um pedaço do meu coração em São Paulo, e eu trouxe junto comigo pedacinhos de muitos corações brasileiros, de amigos que espero rever, lembranças boas de um monte de coisas, mágoas de um monte de coisas que deixei por fazer, e saudades de tudo o que presenciei e guardei na memoria, e espero ter feito uma boa introdução aos próximos cabo-verdianos que se ingressarem na SP.

 

Agradeço muito à SP Escola de Teatro e ao Mindelact pela oportunidade e por me terem ajudado a não estar pronto. Saudações teatrais.

 

Ricardo Fidalga

Ator cabo-verdiano”