Myriam Muniz por Aguinaldo Cunha

Publicado em: 29/03/2012

Lembrar Myriam Muniz é algo muito especial: é trazer de volta uma mulher única, de personalidade invulgar, que ocupa uma posição destacada na história do teatro brasileiro. Sempre presente, aliás, na memória de seus familiares, amigos, alunos e admiradores, e no registro de seus admiráveis trabalhos para o cinema e a televisão.

 

Não é por acaso que tem seu nome o prêmio de incentivo ao teatro da Funarte (espaço onde trabalhou como professora por longos anos) e uma das salas do Teatro Ruth Escobar, em São Paulo.

 

Como atriz e, principalmente, como pessoa, Myriam era singular, uma profissional e uma mulher com características muito próprias, especiais. Inteligente, sensível, intuitiva, emotiva, generosa. O que mais se destacava nela, porém, era sua personalidade forte e marcante que a distinguia das demais pessoas.

 

Essa singularidade de Myriam como profissional – uma atriz de grande presença, versátil na comédia e no drama, sobre quem Mariângela Aves de Lima escreveu um belo texto intitulado “A Comediante Myriam Muniz”, no livro biográfico-artístico de Myriam, “Giramundo”, organizado por Maria Thereza Vargas – vem, talvez, de suas raízes familiares, e se firmou nos tempos em que cursou, com talento e garra, a Escola de Arte Dramática de São Paulo, nos tempos do Dr. Alfredo Mesquita, final dos anos 1950.

 

No capítulo que escrevi para esse mesmo livro, “Raízes”, sobre nossas origens familiares (pois Myriam e eu, além de muito amigos, éramos primos, minha avó Marieta Fierro sendo irmã da mãe dela, tia Rosária), lembrei a família Fierro-Menchise da qual descendemos, os Fierro originários da pequena Spinazzola, na Puglia, e os Menchise oriundos da, igualmente pequena, Genzano di Lucania, na Basilicata. Lugarejos vizinhos, embora de regiões diferentes, do sul da Itália.

 

As duas famílias eram alegres, extrovertidas, falantes e amorosas, nas quais se percebia (principalmente, acho eu, nos Menchise) um humor muito próprio, muito característico, que Myriam herdou e aperfeiçou em alto grau, graças à sua inteligência, personalidade e percepção aguda da comicidade.

 

Sua trajetória profissional, no teatro, no cinema e na televisão (Myriam sempre, muito cuidadosa e exigente na seleção de seus papeis e das peças, filmes e novelas, ou minisséries das quais participou ao longo de sua carreira) revela esse traço forte e muito pessoal que ela imprimiu em todos os seus trabalhos artísticos.

 

Transcrevo aqui um pequeno trecho do texto de Mariângela acima referido: “Singular é o fato de que Myriam Muniz é cercada por uma certa unanimidade crítica que pode fazer restrições, por vezes, à criação de uma determinada personagem, mas que assinala a presença de uma excelente atriz em cena. Para ela escreveram importantes dramaturgos brasileiros, inspirados na nitidez de seu desempenho cênico e na inegável energia para comunicar suas criações… De berço, contudo, a formação de Myriam Muniz não é a do cômico, mas a do comediante na acepção francesa do termo, ou pelo menos na definição que lhe conferiu Louis Jouvet: ‘O ator pode representar apenas determinados papéis; distorce outros para que se adaptem à sua personalidade. O comediante, entretanto, pode desempenhar todos os papéis. O ator se apossa do papel, o comediante é possuído por ele.’ É essa ideia do comediante que presidiu a pedagogia da Escola de Arte Dramática onde se formou Myriam Muniz. Foi treinada não para escolher papéis, para não preferir o cômico ao dramático, mas para submerter-se a um sistema textual… Seu trabalho foi sempre integrado ao todo do espetáculo, posto em relação dialógica com os outros atores e fiel a uma concepção intelectual da personagem concebida por ela mesma e pela direção.”

 

Que saudades de ver Myriam em cena! Ainda adolescente, lembro-me dela no Teatro de Arena de São Paulo, em peças como “O Noviço”, “O Inspetor Geral” e “La Moschetta”. Pertencia ao elenco permanente, ao lado de Gianfrancesco Guarnieri, Juca de Oliveira, Lima Duarte, Antonio Fagundes, Dina Sfat e Paulo José, sob direção de Augusto Boal.  A seu lado, sempre presente, o amigo e mestre Flávio Império.

 

Anteriormente a isso, Myriam já havia trabalhado sob direção de Antonio Abujamra, em rápida passagem pelo Teatro Oficina, e com Dulcina de Moraes, Odilon de Azevedo e Conchita de Moraes. Não a vi nesses papéis, que marcaram o início de sua carreira.

 

Mais tarde, veio a “Primeira Feira Paulista de Opinião” (última peça de Myriam no Arena, ao lado da amiga Aracy Balabanian), e os filmes “Macunaíma” e “Cleo e Daniel”. Mais peças, nesse final dos anos 1960: “Marta Saré”, onde reencontrou Gianfrancesco Guarnieri e trabalhou, pela primeira vez, com Fernanda Montenegro, e “Tudo de Novo”, um musical com parceiros queridos como Guarnieri, Marília Medalha e Toquinho.

 

Na mesma época, a novela famosa, “Nino, o Italianinho”, que lhe deu uma imensa popularidade, logo rejeitada por ela, ciosa de sua privacidade. Antes disso, na televisão, em seu primeiro papel, teve um breve encontro profissional com Cleyde Yáconis e Ziembinski.

 

Nos anos 1970, o encontro profissional com o amigo Paulo Autran, com Silnei Siqueira e Flávio Rangel, em dois bons trabalhos de Myriam, em “Só Porque Você Quer” (nome dado, naquela montagem, à peça de Pirandello, “Assim É, Se Lhe Parece”) e ”As Sabichonas”. Já no início de seu longo e dedicado trabalho como professora (fundou o Centro de Estudos Macunaíma, ao lado do marido Sylvio Zilber, na antiga casa de Mário de Andrade), mais um excelente trabalho no palco, do texto de Leilah Assumpção, “Fala Baixo, Se Não Eu Grito”.

 

Sob sua direção, Elis Regina faria um show perfeito, que se tornou um clássico, “Falso Brilhante”. Emocionante, com magistral direção de Myriam.

 

Muitos shows e peças foram dirigidos por Myriam desde então. Como atriz, voltaria ao palco mais algumas vezes: “Pegando Fogo Lá Fora”, novo reencontro com Guarnieri, autor do texto, mais Célia Helena e Pietro Maranca; “A História Acabou”, parceria com o amigo Fauzi Arap, autor e diretor; e “Porca Miséria“, com Marcos Caruso e Jandira Martini, sob direção de Gianni Ratto.

 

No cinema e na televisão, Myriam faria magníficos trabalhos como atriz em “Amélia”, “Mar de Rosas” e ”Das Tripas, Coração” (trilogia dirigida por Ana Carolina), “Nina” (seu último trabalho no cinema), “Os Maias”, “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, “Brava Gente” (as duas primeiras, minisséries da Globo; a última, no SBT).

 

Saudades de Myriam também e, principalmente, como pessoa, de nossas longas conversas, sempre tão amiga, generosa, divertida e séria ao mesmo tempo. Recebia os amigos maravilhosamente bem, em sua casa decorada com arte e teatralidade, com muito bom gosto. Como realmente o mundo e o teatro ficaram mais pobres sem ela!

 

Seu jeito de ser, sua voz rouca e com sotaque italianado, sua personalidade inconfundível, sua graça ao contar uma história, suas opiniões a respeito do mundo, tudo nos enche de saudades.

 

Mas ela está sempre presente entre nós, em nossa memória, nas páginas da história do teatro brasileiro, nos registros do cinema e da televisão e na semente que ela deixou plantada em cada uma das felizes pessoas que a conheceram.

 

Saudades infinitas, Myriam!

 

 

Aguinaldo Cunha é crítico teatral.

 

Veja o verbete de Myriam Muniz na Teatropédia.

 

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