Música, Cinema Mudo e Política Abriram a Programação do Último Território Cultural

Publicado em: 18/07/2011

Chegou ao fim o primeiro semestre de aulas da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco. Para finalizar esse período de estudo e aprendizado, o Território Cultural deste sábado (16/07) foi marcado por uma série de atividades especiais e um agradável clima de celebração. O início de tudo isso se deu no Teatro Anhembi Morumbi.

 

 

Cinema Mudo e Música

 

Logo às 9h, o espaço abriu as portas para o cinema, mais especificamente para “Ganga Bruta”, filme nacional de 1933, com direção e roteiro de Humberto Mauro. Qual a surpresa? A trilha sonora, executada ao vivo pelos aprendizes de Sonoplastia da Escola.

 

Enquanto o longa era transmitido no telão, durante uma hora e vinte minutos, os músicos se empenhavam em acompanhar as cenas com efeitos sonoros e melodias. Com exceção de quatro músicas que já existiam, todo o restante da apresentação foi planejada e composta pelos próprios aprendizes, que, para isso, se dividiram em seis grupos de três a quatro pessoas. 

 

“Foi até melhor do que eu esperava. Em apenas cinco semanas, eles tiveram uma preparação cinematográfica e souberam aplicar muito bem. Cada grupo tem a sua característica, e, ainda assim, eu diria que mais de metade do filme tem coisas muito boas”, analisa Raul Teixeira, coordenador de Sonoplastia.

 

Cintia Campolina, artista residente do curso que acompanhou o processo junto com os artistas convidados Ricardo Severo e Fábio Cintra, explica sobre o desafio proposto aos aprendizes. “Escolhemos o ‘Ganga Bruta’ porque, além de ser uma produção nacional, foi lançado em uma época de transição entre o cinema mudo e o falado.”

 

O período de preparação, segundo a artista residente, foi dividido em várias etapas. Primeiramente, os aprendizes estudaram filmes sem som, depois, se debruçaram sobre a presença do cinema mudo no mundo e no Brasil, analisaram roteiros de cinema, e, aí sim, partiram para os conceitos e cada grupo iniciou seu processo de criação.

 

Experimentar o desenvolvimento de trilhas sonoras para cinema, segundo Teixeira, é de grande proveito para os profissionais de sonoplastia que atuam no teatro. “São formas de criar muito parecida. A diferença é que no teatro o sonoplasta trabalha sempre com pessoas, lida constantemente com a criação do espetáculo. Por outro lado, no cinema, ele já recebe o filme pronto e adapta a trilha conforme achar melhor.”

 

A aprendiz Carol Guimares concorda com a importância da experiência e completa afirmando que “o que uniu os dois formatos foi trazer coisas ao vivo, sentir o filme e a reação do público, como no teatro. Nem tudo que fizemos foi ensaiado, algumas partes tiveram algum improviso também”.

 

 

De Olho na Política

 

Após um breve intervalo, a atenção do público presente no Teatro Anhembi Morumbi se voltou do cinema e música para a política. Para falar sobre o tema, ninguém melhor que uma pessoa inserida nesse meio há anos. E, ainda, com um diferencial: parte do seu coração pertencente ao teatro. Esta convidada é Soninha Francine, Presidente do Conselho Fiscal da Associação dos Artistas Amigos da Praça, que gere a SP Escola de Teatro.

 

Muito provavelmente, poucas pessoas presentes no espaço já passaram por tantas e tão variadas experiências profissionais como Soninha, que começou o bate-papo de maneira descontraída e informal, falando sobre o caminho que a levou até onde se encontra atualmente.

 

Atriz de teatro e até de cinema, jornalista esportiva, comentarista de futebol, apresentadora de televisão e, finalmente, política são as atividades exercidas ao longo de sua trajetória, repleta de voltas e reviravoltas. Soninha sonhou, ainda, ser professora de Educação Física, mas deixou de prestar o vestibular em razão do nascimento de sua primeira filha.

 

Narrada sua história, Soninha começou a falar sobre política, a área pela qual, segundo ela, hoje sente “tesão” em trabalhar. O mandato como vereadora, de 2004 a 2008; a candidatura para deputada federal, em 2006, e prefeita de São Paulo, em 2008; a atuação como subprefeita da Lapa, de 2009 a 2010; e a sua troca de partidos (entre PT e PPS) foram os temas comentados inicialmente.

 

Recebendo perguntas feitas pelos espectadores, que assistiam à palestra ao vivo pelo site da Escola, e pelos aprendizes que marcaram presença no encontro, a convidada não se esquivou de absolutamente nenhum assunto. Duas das questões, por exemplo, citavam um tema polêmico e bastante discutido atualmente: a Marcha da Maconha e a legalização da erva, tratados por ela com bom humor, seriedade e consciência.

 

“Interesso-me por política desde cedo. Minha mãe me explicava quando ainda era criança. Sempre fui militante, acompanhava as atividades da Câmara, tinha vontade de mudar o que estava ao meu redor. Mas com o passar do tempo, e depois de muitas frustrações, percebi que isso não era suficiente. Por isso, hoje o meu objetivo é o Executivo. Cargos parlamentares nunca mais”, desabafa.

 

A conversa foi tomando ar cada vez mais grave, como no momento em que Soninha disparou: “90% do que acontece no Parlamento é encenado. Só se vota projeto por acordos, nunca pelo conteúdo e pelas propostas que são apresentadas. Isso me revoltava”.

 

A convidada também falou sobre a importância do engajamento político para os aprendizes da Escola e jovens em geral, e se colocou a favor da legalização da maconha, por preferir que “a maconha não seja monopólio de bandido”.

 

Depois de comentar sobre o corpo docente que integra a Instituição, do qual destacou o esforço por unir harmonicamente a experiência de profissionais reconhecidos nacionalmente e o potencial de artistas mais jovens, a conversa chegou ao fim. “Espero que tenham gostado dessa minha história estrábica”, brincou.