Mudar para continuar o mesmo?

Publicado em: 22/01/2014

* por Marici Salomão, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

Tentativas de “fixação” do destino (i)

A marca da imbecilidade de grande parte do nosso jornalismo, sobretudo o televisivo dos canais abertos, se revela na repetição sem fim das mesmas notícias e sob o mesmo ângulo, sempre. As velhas narrativas repetindo-se à exaustão, dia a dia. E quando o “povo fala” (fui repórter de TV há muitos anos e usava-se esse jargão para as entrevistas de rua com os cidadãos) é sempre o mesmo tipo de edição: terminar com um choro nas ditas matérias tristes; finalizar com o riso nas ditas alegres. Ou seja, se quisermos procurar algo de novo no velho telejornalismo brasileiro, não encontraremos.

 

Essa repetição da fórmula (e dei apenas um exemplo, basicamente explícito, sem citar aqui exemplos subliminares), de causar náusea, leva-me para além da probabilidade do mal estar físico: faz-me pensar que é um expediente para forçar a sensação de que não é possível mudar nada neste país, das grandes às pequenas ações. Então, sempre a mesma visão sobre as enchentes ano a ano no Brasil – muda somente o número de mortos (e nem isso) – , sobre a corrupção, sobre o desgoverno nos presídios, sobre as catástrofes que matam em larga escala, sobre o desmoronamento do sistema de saúde, da política, da violência etc. Não se ouve nada de novo, não se tem um ponto de vista diferenciado, repete-se o mesmo tipo de narrativa como se não fosse uma repetição, mas um destino. E nada pior do que se entregar ao destino, quando é possível mudá-lo. 

 

Riso, choro, estatísticas, corrupção, desmando, violência, tudo igual no nosso telejornalismo. A introjeção no quadro da ignorância do “povo”, para a manutenção da ordem linguística: o que é que a gente pode fazer? Só rezando mesmo. Os homens querem assim, né? E o indefectível:

 

“A gente não pode fazer nada”. Frase das mais condenáveis: deveria ser proibida por todos os dogmas. Nada é pior do que pensar que nada pode ser feito. Nada pior que delegar ao poder (aliás, quem é mesmo o poder?) a capacidade de mudança. O poder, esse poder irreal, mas a quem delegamos nossa dignidade como cidadãos, não quer a mudança. Bem ao molho leopardiano: mudar algo para não mudar nada.

 

Voltando ao telejornalismo, parente desse “poder” instituído por nós mesmos: quanto mais perene, mais rendoso. À época das manifestações, em junho do ano passado e nos meses seguintes, o ponto de vista não era da abrangêncida da força de uma nação pedindo por mudanças, mas uma ênfase calcada nas imagens de “baderna” e “vandalismo”.  Ôpa, parece que pegou, né? Voltamos pra casa pra assistir à baderna pela televisão. 

 

No filme “O leopardo”, de Luchino Visconti, uma frase célebre: “Se quisermos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”. Dita por Alain Delon, na pele de Tancredi, a máxima repleta de ironia é dita como forma de querer proteger a aristocracia decrépita da ascensão da burguesia. Nada a defender ou atacar no romance de Giuseppe di Lampedusa, que originou o filme: apenas a sensação de que a aporia deve ter sido lida a fundo pelo nosso telejornalismo. Algo a fazer, além de desligar a televisão?