Marco Nanini por Guilherme Weber

Publicado em: 29/03/2012

Havíamos acabado de estrear “Os Solitários”, espetáculo composto de dois textos de Nicky Silver, no Rio de Janeiro. No primeiro ato, Marco Nanini deliciava a plateia como uma menina de quinze anos, “grávida, amarga e disposta a se vingar.” Sua empatia com esta garota era de alta voltagem e de profunda compaixão, a mesma receita de entrega que ele usa para todas as suas personagens. A risada da plateia não falhava e vinha em ondas, como ele me ensinou a observar. “A gargalhada tem a mesma fluência de uma onda, há que atacá-la, antes que quebre, mas nunca antes disto”, me disse na cochia de um teatro uma vez. 

 

Sua Emma era uma criação observada com risos e muita piedade. Como disse Bernard Shaw, na grande comédia você ri com lágrimas nos olhos. Tarefa reservada para os mestres como Nanini e para o deleite de seus seguidores. Após, a estreia carioca, na casa de Nanini, abrimos o jornal que trazia a crítica que banhava de elogios sua composição, mas ele só tinha olhos para a foto que o mostrava vestido de noiva. Chocado ele falou: “Meu Deus, mas eu sou um senhor!” Seu choque em não ver estampado no jornal a imagem da menina que ele trazia em sua cabeça foi um dos momentos mais profundos que presenciei da relação de um ator com sua personagem.

 

A dor do ator ao se sentir traído pela realidade, enganado pela vida fora do palco, diminuído pela crueza da lente fotográfica foi o mais lindo exemplo de amor ao teatro que eu já presenciei. E a garota que ele criou foi uma de minhas melhores amigas pelo tempo em que ela viveu, guardada para sempre na minha memória. No meu coração e no do público que a amou, ela tinha o rosto exato que Nanini imaginou.

 

 

Veja o verbete de Guilherme Weber e Marco Nanini na Teatropédia.

 

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