Luiz Roberto Galizia por
Carlos Hee

Publicado em: 02/08/2012

O teatro é uma arte efêmera. Tudo ocorre num momento único e desaparece no tempo. O desempenho dos atores existe naquele espaço de tempo determinado, que é acompanhado por uma plateia única. Todos esses clichês, com os avanços atuais da tecnologia, acabam sendo apenas uma forma de diferenciar a arte de representar num espaço cênico para um público restrito da representação em massa do cinema e da televisão. Sem as modernas plataformas audiovisuais, o trabalho de grandes talentos do teatro acabaram desaparecendo com o tempo, como é o caso de Luiz Roberto Galizia, o criador do Teatro do Ornitorrinco, uma das figuras mais promissoras do teatro paulista, que desapareceu em meados da década de 1980.

Passados 27 anos de sua morte, praticamente nada se tem registrado de sua passagem pelos palcos de São Paulo. Assim como uma legião de artistas, Galizia foi vítima da aids, que chegou, por exemplo, a dizimar um elenco  inteiro do espetáculo “Nossa Senhora das Flores”, de Jean Genet.  Hoje, as novas gerações pós-80 não têm noção do que foi essa epidemia que chegou há três décadas de forma devastadora.

Essa introdução serve apenas para situar como conheci Galizia, em 1978, quando ele e Cacá Rosset haviam acabado de fundar o Teatro do Ornitorrinco. Nosso encontro foi casual, numa das madrugadas paulistanas. Por mero acaso, dei uma carona para ele na saída da boate Medieval. Ao ligar o som do carro, estacionado na Rua Augusta, a fita cassete que já estava no inserida era da cantora alemã Lotte Lenya, que cantava as músicas que seu marido, Kurt Weill, havia composto para as peças de Bertold Brecht. Coincidência ou destino, eram exatamente as canções que Galizia estava ensaiando para o espetáculo “Ornitorrinco Canta Brecht e Weill”, que estava prestes a estrear no antigo porão do Teatro Oficina. Selava-se, assim, uma amizade que duraria anos.

Galizia era um ator único, irrequieto e intenso. Estar ao seu lado não era manter-se em águas calmas. Tinha uma maneira peculiar de viver, com uma energia quase inesgotável. Com ele não aprendi nada sobre representação – um terreno que eu abandonara poucos meses antes de conhecê-lo, mas que apenas facilitou nosso relacionamento, na medida em que o acompanhava nos ensaios de “O Despertar da Primavera”, que ele dirigia para uma turma da EAD, em que a promessa do elenco era um aluno vindo do interior, chamado Edson Celulari. Enquanto corria o ensaio na Funarte da Alameda Nothman, já combinávamos onde e com quem nos encontraríamos em seguida, na madrugada.

Por meio dele conheci pessoas fascinantes, como o crítico Alberto Guzik, seu grande amigo e, posteriormente, meu, e a cantora Cida Moreira, que eu, então um iniciante no jornalismo, entrevistei numa Sexta-Feira da Paixão, durante um almoço, no apartamento do Galizia. Mas, no dia, seguinte, não me lembrava absolutamente nada do que havíamos conversado. Já que a entrevista acabou terminando em festa.

Vi Galiza em cena poucas vezes, já que ele não teve muito tempo para exercer sua profissão como deveria. Acompanhei a época dos pequenos espetáculos do Ornitorrinco, em que ele crescia no palco de maneira extraordinária. Ou na montagem de “Chuva”, uma superprodução de Jorge Takla, fracasso absoluto de público. Ou nas poucas vezes em que ele participou de filmes e eu o acompanhei nos sets de filmagem, em que passava horas filmando várias expressões sob o comando do diretor. Numa dessas, em que as filmagens eram num apartamento na Praça Marechal Deodoro, Galizia ficou horas fazendo caras e bocas para um filme que nunca chegou a ser concluído. Mas, com certeza, nos divertimos muito naquela noite, com comentários sarcásticos que ele fazia a cada grito de “Roda!” do diretor.

Naquele período, Galizia estudava em Berkeley, na Califórnia, defendendo seu trabalho sobre o diretor Bob Wilson e foi em Nova York que passamos pela situação mais estranha e – outra vez – coincidente. Eu estava aguardando o semáforo de pedestres abrir em plena Time Square, quando avistei, do outro lado, bem à minha frente, uma pessoa usando exatamente uma roupa, das botas à jaqueta, igual à minha. Vale lembrar, que eu e Galizia tínhamos a mesma estatura e tipos físicos bastante semelhantes. Da mesma forma que eu me surpreendia de um lado da rua, notei que a pessoa à minha frente tinha a mesma reação. Só quando cruzamos a Rua 44 é que nos reconhecemos e caímos na risada. A partir daquele momento, passamos quatro dias sem dormir, literalmente, aproveitando tudo o que a cidade poderia nos oferecer. Uma viagem ao underground de Nova York, que desapareceria poucos anos depois.

Ao retornar ao Brasil, Galizia já apresentava os sintomas iniciais da doença e impediam que toda sua criatividade e genialidade fossem postas em prática. Muitas pessoas passaram a evitá-lo, já que as informações sobre a epidemia da aids eram desencontradas e mais aterrorizavam do que informavam. Galizia, assim como centenas de outras pessoas vitimadas pelo vírus, passou a viver o pouco tempo que lhe restava num ostracismo social hoje inimaginável.

Fora os poucos filmes em que aparece, o trabalho de Luiz Roberto Galizia não foi registrado por nenhuma câmera high definition ou até mesmo de filmadoras 8mm. Ele foi de uma época em que o teatro era, de verdade, uma arte efêmera. Quem o viu sabe o que o teatro perdeu. Quem o conheceu sabe o tanto que todos nós perdemos com sua partida prematura.

Veja o verbete de Luiz Roberto Galizia na Teatropédia.