Intercâmbio: Diretor relembra aprendizado em Portugal

Publicado em: 07/07/2020

Higor (de azul, em pé), durante ensaio de peça em Portugal. Foto: Acervo pessoal.

POR HIGOR LEMO
Especial para a SP Escola de Teatro

“Grã-remédio é ter o espírito armado à má fortuna”. Não poderia começar de forma diferente. Essa citação representa muito da experiência que vivi durante mais de 3 meses pesquisando e trabalhando teatro na Europa. Esta frase, do espetáculo “Castro”, escrito pelo dramaturgo português Antônio Ferreira (1528 – 1569) é uma das peças mais realizadas em Portugal, país em que realizei há pouco um projeto de pesquisa, através do programa de intercâmbio da SP Escola de Teatro.

Logo que concluí o curso de Direção, escrevi e apresentei o projeto à escola, o qual foi aprovado também pela instituição parceira, a Escola Superior Artística do Porto (Esap). Desembarquei, então, no início deste ano, em Portugal, para execução do projeto que me possibilitou integrar diferentes turmas dos três anos de formação do curso de teatro, pois lá, diferente daqui, a formação acontece em três anos.

E é aqui que preciso retomar à citação do espetáculo “Castro” e à má fortuna, quando uma pandemia abate o mundo. Contudo tinha eu o grã-remédio e o espírito armado.

Apesar de todas as impossibilidades causadas pela condição sanitária global que todos vivemos e sabemos, foi uma experiência maravilhosa, daquelas que apenas o teatro seria capaz de proporcionar. Aprendi grandiosamente, tanto com as formas clássicas, característica essa extremamente marcante no teatro português, como também com a vanguarda das possibilidades que a pandemia impôs ao fazer teatral e todas as adaptações necessárias. Foram grandes descobertas. Tive a vivência de produção teatral em um tempo que ainda não existia na história do nosso ofício, e para além disso, pude presenciar uma conduta social e política completamente diferente da nossa, e por isso, um case de sucesso mundial de como enfrentar a situação que hoje vivemos.

O intercâmbio possibilitou experiências e possibilidades de compartilhar formas de fazer artístico teatral, mesmo em meio à situação atual. Os resultados desse projeto foram incríveis, além do que não se pode mensurar, como experiências, sensações e conhecimento; produzi também materialidades que seguem em curso, como por exemplo, o programa Teatron_, que é um encontro semanal com profissionais do teatro para pensarmos nossa arte; um livro sobre processos teatrais que pretendo em breve lançar; projetos teatrais que seguem em desenvolvimento e serão apresentados assim que possível. Fiz parte também do processo de montagem de um espetáculo durante a pandemia, culminando em uma apresentação pública realizada no dia 15 de junho, após o relaxamento das medidas de distanciamento social serem anunciadas pelo governo português, e assim realizamos, talvez, a primeira apresentação teatral aberta ao público na cidade do Porto após a quarentena, tendo eu com isso vivido mais essa indescritível experiência de como pensar a volta aos teatros, pois isso tudo, como lá, também passará por aqui.

Se faria tudo outra vez? É óbvio que sim. Comecei com uma citação teatral e termino com outra, dessa vez do espetáculo “À Espera de Godot”, de Samuel Beckett, que diz: “O que terá de fazer é começar de novo”.




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