Inércia é a Herança

Publicado em: 10/11/2011

Um pai orgulhoso, quatro filhos e um odiado parente revolucionário foram as personagens da cena que o Grupo 8 do Módulo Amarelo compartilhou, ontem (9) à tarde, com o público presente na SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco.

 

Com a plateia situada ao redor do espaço central da sala, a apresentação começa com o pai, Ioiô Lavínio, cantando e, posteriormente, falando em tom altivo sobre as terras das quais era dono. Ao terminar, tem início um jantar com os cinco membros da decadente família baiana, que tenta, a todo custo, manter seu poder e influência de outrora. Na mesa ao redor da qual estão reunidos, um banquete norte-americano: hambúrguer, batata-frita e coca-cola, diretamente do McDonald’s, uma das evidencias da influência da cultura estrangeira na pesquisa desenvolvida pelo Grupo.

 

Cada um dos filhos começa, então, a se apresentar, fazendo um breve relato sobre sua vida. O primeiro é um soberbo policial federal, que, a todo instante, não hesita em levantar a pistola que ostenta e falar sobre sua disciplina. A segunda diz “acreditar na liberdade de expressão”, conceito que tenta demonstrar ao exibir suas toscas “obras de arte”. O outro filho é um alcoólatra que relembra, com saudosismo, um episódio em que, sob o efeito de bebidas, atropelou uma mulher. A última é uma jovem de atitudes fúteis que “se oferece” aos espectadores do sexo masculino. Uma característica em comum entre todos da família é que eles se enxergam como pessoas honestas e nobres.

 

Todos eles são instruídos pelo pai a odiar e jamais escutar Stalin José, parente da família que almejava uma revolução no País, pregando o fim do imperialismo norte-americano, a desigualdade social e a opressão que a ditadura militar impunha ao povo brasileiro.

 

A inércia da sociedade brasileira, tema condutor do trabalho destes aprendizes, era representada pela alienação demonstrada pelas personagens, não só por suas atitudes e narrativas, como pelo fato de que eram constantemente movimentadas pelos técnicos do grupo, sem demonstrar qualquer sinal de resistência. 

 

A sonoplastia, com músicas que davam o tom aos discursos apaixonados de Ioiô Lavínio; a dramaturgia, que utilizava diferentes ritmos para acentuar a disparidade entre imobilidade e mudança, e o cenário, repleto de elementos móveis, contribuíam para alcançar a proposta do Grupo.

 

Gustavo Bortoletto, aprendiz de Humor, que interpreta o filho policial, comenta sobre a apresentação. “Acho que foi dentro do esperado. Algumas coisas que tínhamos pensado deram certo, outras surgiram no momento e também foram legais. Como foi a primeira vez que apresentamos para o público, percebemos que quase tudo é completamente diferente dos ensaios.”

 

Para a próxima abertura de processo de trabalho do Grupo 8, que será realizada amanhã (11), Bortoletto afirma que os aprendizes podem fazer alguns retoques. “Espero alguns ajustes. Afinar melhor a música e a iluminação e que a gente consiga o espírito que tivemos na primeira sessão, de estarmos nos divertindo e, ao mesmo tempo, conectados com a personagem e com o grupo, para, assim, estender essa interatividade ao público.”

 

 

Josiane Souza, aprendiz de Humor do Módulo Vermelho, permaneceu na Escola durante a tarde para assistir às apresentações. “Gostei do texto, achei bem forte; outras coisas que me agradaram foram a distribuição da plateia, que ficava ao redor da cena e o jogo cênico de luz, que dialoga com o texto. A cena inicial, com o protagonista cantando, foi a minha preferida”, opina.

 

O Grupo 8 apresenta seu processo de trabalho novamente amanhã (11), entre as 16h e 17h30.

 

 

 

Texto: Felipe Del