Imara Reis por Thiago Sogayar Bechara

Publicado em: 27/03/2012

O que me falta dizer à Imara?

 

Nada me faltou dizer à Imara Reis daquilo que eu precisava? Concentrei em nosso livro a essência do meu intuito de agradecimento? Estas respostas nunca tive e sei que não terei, senão a certeza de que escrever aquele big-pocket volume sobre ela foi, e continua sendo, meu próprio espelho e minha forma apalavrada de gratidão.

 

Um espelho refratado de minhas várias almas, para as várias almas encarnadas de alguém que só podia mesmo ser atriz. Sou escritor, o que de certa forma dá-me a mim também meus duplos. E, assim, amalgamamo-nos, eu e ela, adeptos inconscientes que somos da espiral verticalizada que Regina Braga utilizou em suas memórias para melhor dar a enxergar o percurso criativo de suas composições.

 

Assim também o é a vida. Poesia! Um ir-e-vir espiral; um aprender e então desaprender tudo! Um avançar e, então, voltar ao mesmo eixo fundamental. Contudo, sempre em novo patamar da torre, antes do novo recuo, para se cancelar.

 

Talvez isto seja mesmo um aprender a desaprendizagem em si! Imara é isso! Ela ensina o valor da pluralidade. Mas, um tipo todo aquariano de pluralidade, ela também é muito aberta à liberdade da restrição. Imara ensina adequação, portanto. Sobretudo por não ter nunca propriamente se adequado. E ter colhido os frutos bons e não tão bons que a existência neste plano nos concede. A existência espiritual dessa espiral. Porque de nada valeriam os tecnicismos deste ofício se não estivessem à disposição do ser humano as ferramentas da alma.

 

Brechts, Stanislavskis, Grotowskis e os ismos. Todos eles comportando em si suas próprias negações. O gérmen da não exclusividade. A fonte, a foz, o cerne. Imara está sempre embrião. Nasceu já tantas vezes que preferiu esconder de si sua certidão. Isso eu não sei, mas criei que sim e agora fica, porque agora existe! Assim, também, é o modo como Imara cria. Ainda crê. E faz de seus grandes mestres, somente grandes mestres. Somente isso, para não incorrer no erro de uma idolatria exclusivista e mouca aos outros cânones. E também porque os cânones são feitos para serem negados quando necessário. E os mestres para não serem canonizados. Porque sem referência fica duro se viver.

 

Nada me faltou dizer a ela? Olho o livro na estante de meu escritório e imagino como seja para ele – o livro – ser detentor da tarefa de conter uma mulher como Imara. Tarefa ingrata que se frustra logo à manjedoura. Ninguém nunca a conteve plenamente. E ele sabe que não será o primeiro a consegui-lo. ¡Gracias a la vida! Na própria capa, o rosto “monalítico” da atriz já está zombando, porque seu olhar escapa à lente e fita o lado sombreado, como quem avisa: “Não esperem ex-clarecimentos”. O livro inteiro olha para esta penumbra e dela extrai os traços mais marcantes, os indícios primordiais da essência.

 

O restante são fisionomias e essas mudam com Imara, como o tempo e as estações. Imara são Imaras, na vida e na arte! Plural, como sem fim é nosso livro. Olho agora para ele no espelho da sala, mas ela continua olhando a sombra, escusa, porque, profundamente consciente da “defesa do mistério” de que me falou certa vez Fernanda Montenegro, que aludia, em nosso encontro, ao título de seu perfil.

 

Faltou-me, sim, dizer à Imara que, antes de ser atriz e diretora, e que eu, antes de ser escritor ou qualquer coisa, não somos absolutamente nada. E que neste nada é que reside a única e intransigente possibilidade de plantarmos qualquer coisa. A partir do terreno vazio, do papel em branco e dos clichês todos do mundo que sirvam para criar a imagem do ser humano antes das alcunhas e dos grilhões de seus papéis sociais. Do homem, antes mesmo das cavernas. De nossa raiz celular, genética, atômica, astral, estrelar. O exercício de perscrutar um indivíduo, que exista ou viva apenas no âmbito do extraterreno, e buscar, então, nossa origem ancestral.

 

Isto, talvez, seja Clarice (explosão!). Mas é desta gênese que falam os gênios da composição de personagens? E a gênese bíblica? Entra em cena que horas? Seriam ambas a mesma, finalmente religadas pelo sentido etimológico de “religião”? Porque a arte para Imara é seu templo! E nossa crença! O que mais me falta dizer sobre ela? Oyá nos salve! Algo sobre a precisão de seus gestus. Sim, sobre as gestalts que se fecham, realizando plenamente o acontecimento mágico da incorporação? Não.

 

Então, encontro: ouvir. Ainda ouvir. É tudo o que me resta aprender para, de fato, dar a minha réplica na vida. Porque na vida não há deixas, nem pontos, nem dálias envelopando a ribalta. Quando um ator acaba, o outro começa. Ouvir é minha lição primeira e minha prova de algum aprendizado. Talvez fosse isto – ou não – o que me faltava realmente dizer à Imara: que, acima de qualquer função pedagógica ou documental, senti com nossos poucos meses de trabalho e van-filosofadas, um grande, infindável e poderoso prazer. Apenas isso. O prazer de ouvir você!

 

 

Thiago Sogayar Bechara é jornalista

 

Veja o verbete de Imara Reis na Teatropédia.

 

Para ver os outros depoimentos que compõem a semana em homenagem ao Dia Mundial do Teatro, clique aqui.