Helena Ignez por André Guerreiro

Publicado em: 27/03/2012

Tenho o privilégio de, há cerca de 15 anos, acompanhar de perto a arte de Helena Ignez e, desde 2005, ser um do seus principais colaboradores. Fui montador de “A Miss e o Dinossauro”, seu primeiro curta metragem. Fui diretor de fotografia de seu primeiro longa, “A Canção de Baal”, e, ainda, ator de seu mais recente filme, “Luz nas Trevas”, com estreia em maio próximo. Também tive o prazer de dirigi-la em dois espetáculos teatrais, de contracenarmos no palco e na tela e, mais recentemente, codirigirmos a montagem de “O Belo Indiferente”, de Jean Cocteau.

 

De um lado ou de outro do palco e da câmera, Helena é singular. Sempre se transformando, sempre fiel a si mesma. Não separa a ação do discurso, sua arte e seu pensamento dançam em fina sintonia. Atuando, dirigindo seus atores, escrevendo os roteiros, filmando, de uma forma ou de outra, estão sempre lá seu amor pela liberdade, a atração pelos tipos “outsiders”, o humor arguto e as dimensões política e espiritual. Caos e disciplina coexistem sem conflito em seus processos. Sua recusa pela acomodação é inspiradora.

 

Não por acaso, Helena vive cercada de jovens. Logo num primeiro encontro com a artista, o mito da Musa do Cinema Novo, da figura de destaque da cultura brasileira, dá lugar à artista do tempo presente, livre de rótulos, inquieta, pulsante e curiosa por conhecer seu interlocutor.

 

Estivemos juntos no Festival de Cinema de Calcutá, na Índia, onde visitamos o templo da deusa Kali, uma das experiências mais impressionantes que já vivi. Em um espaço caótico abarrotado de gente, com paredes em tons de vermelho, incensos queimando, sinos histéricos e muita vitalidade, os fieis atiram oferendas para dentro da garganta da deidade. Dentro do estômago de Kali só existe o vácuo; se a deusa não for, permanentemente, alimentada, devorará o próprio universo. Penso em Helena, com sua urgência e fome incessante de criação. Pobre de quem a impeça de criar.

 

 

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