Egressos da SP Escola de Teatro integram coletânea “Dramaturgia Negra”

Publicado em: 17/06/2019

Em São Paulo, lançamento do livro “Dramaturgia Negra” contou com participação de parte dos autores. (Foto: Vitor Vieira/Funarte)

“Não é possível criar novos imaginários sem a elaboração e a partilha de novas narrativas”, enfatiza Dione Carlos, aprendiz egressa do curso de Dramaturgia da SP Escola de Teatro, sobre a coletânea “Dramaturgia Negra”, lançada pela Funarte no início do mês. O título reúne 16 textos teatrais escritos por autores negros da atual cena brasileira.

“A dramaturgia trabalha com a palavra viva na cena, com experiência biofísica, com representatividade. Você vai ao teatro para ver outro ser humano sendo outra possibilidade de existência, e isso inclui, em um país desigual como o Brasil, poder se ver de um modo que você nunca imaginou”, defende Carlos. “O teatro não precisa de nós, nós precisamos dele. Precisamos dele como um espaço de reinvenção”, completa a autora, que já publicou outros três textos teatrais no livro “Dramaturgias do front”, de 2017.

Também atriz, com passagem pela Companhia Teatro Promíscuo, no novo livro Dione Carlos apresenta “Ialodês”, peça que reúne cinco mulheres num jogo em defesa da ancestralidade e da liberdade.

Maria Shu e Rudinei Borges dos Santos, também egressos da Escola, fazem parte da seleção de autores feita pelo pesquisador, ator e diretor teatral Eugenio Lima e também pelo escritor e produtor cultural Julio Ludemir.

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Com exceção de “Récita”, da poeta carioca Leda Maria Martins, todos os espetáculos em “Dramaturgia Negra” já foram encenados. Além dos nomes citados, estão na coletânea textos teatrais de Aldri Anunciação, Cristiane Sobral, Grace Passô, Jê Oliveira, Jhonny Salaberg, Jô Bilac, José Fernando Peixoto de Azevedo, Licínio Januário, Luh Maza, Rodrigo França, Sol Miranda e Viviane Juguero.

“Uma pessoa afrodescendente que escreve é algo como um disparate, porque há um imaginário crucial e cruel do que é ser negro na cultura brasileira: escravo e bandido”, justifica Rudinei Borges dos Santos, nome que já assinou mais de dez textos teatrais e é fundador do Núcleo Macabéa, da Cooperativa Paulista de Teatro, que tem como foco a dramaturgia e a história oral em comunidades periféricas, e cuja peça “Transamazônia” esteve em cartaz neste semestre, na sede Roosevelt da Escola.

Santos participa da coletânea com “Medea Mina Jeje”, uma releitura da obra de Eurípedes. Na versão do autor brasileiro, a protagonista é uma escrava que decide matar o filho como meio de bloquear o que o destino lhe reserva. “Pouco escrevemos sobre a felicidade – quase como se o nosso teatro revelasse que uma pessoa negra ou parda não pode ser feliz no Brasil. Talvez por isso a dor, advinda da exclusão e da violência, seja o maior impasse da dramaturgia escrita por autores negros”, defende.

Também roteirista, e com textos encenados em Cabo Verde, Suécia Portugal e França, Maria Shu está presente em “Dramaturgia Negra” com “Quando Eu Morrer, Vou Contar Tudo a Deus”. Baseada em uma história verídica, o espetáculo conta a trajetória de um menino refugiado que para chegar ao continente europeu é faz a travessia em uma mala de viagem.

“Dramaturgia Negra”, que já foi lançado em São Paulo e no Rio de Janeiro, pode ser encomendado pelo e-mail: livraria@funarte.gov.br.

Confira os depoimentos de Dione Carlos e Rudinei Borges dos Santos:

DIONE CARLOS

Reunir 16 dramaturgias escritas por diferentes dramaturgas e dramaturgos já seria algo louvável, mas reunir 16 obras com dramaturgias negras é, verdadeiramente, um feito histórico em nosso país. Basta pensar na quantidade de dramaturgias escritas por negros, negras ou mesmo por mulheres, lidas durante a nossa formação artística-acadêmica, por exemplo. É uma questão quantitativa, de exclusão de certos pontos de vista, em detrimento de uma homogeneidade de visão de mundo, de pensamento eurocêntrico e masculino.

Não acredito mais em arte universal, isto é parâmetro colonizador inventado por colonizadores. O que ocorre em nosso país, enfatizo, é uma questão quantitativa, resultante de um processo discriminatório que inviabiliza a produção de determinadas obras/artistas, uma vez que resultam de experiências de camadas da sociedade, seja por uma questão de classe social ou etnia, cujas experiências não são consideradas como algo passível de elaboração artística.

“Todos os dias perdemos talentos neste país. A ausência destas vozes nos mantém neste estado de passividade e alienação sobre nós mesmos, afinal, a maioria da população deste país é afro-indígena-descendente e não tem acesso às formas como os povos nativos enxergam o mundo e elaboram a condição humana. Penso que você pode conhecer uma nação de duas maneiras: O modo como o seu povo encara a morte e através da literatura/dramaturgia produzida por eles. Neste sentido, temos uma disputa pelo tempo e por outras narrativas.

Registrar 16 vozes, portadoras de contra-narrativas, uma vez que suas autoras e seus autores não se encaixam no perfil hegemônico presente e recorrente no meio artístico, é uma forma de registrar outras vozes e visões de mundo. É algo tão importante que ultrapassa o tempo, pois sempre foi urgente para nós, enquanto sociedade, ouvirmos outros pontos de vista. Não é apenas uma resposta ao que está ocorrendo agora, pois estamos vivendo uma recolonização, já passamos por isso. Não somos inexperientes.

De escravidão, silenciamento, apagamento, extermínio, entendemos bem, pois somos alvos destas ações há muitos séculos, só não contavam que seríamos dramaturgas e dramaturgos ou algo equivalente. Que poderíamos produzir narrativas e imaginários, que haveria um público para estas obras. Pois bem, há. Sempre foi uma questão quantitativa imposta e não de qualidade.

Estas 16 obras são respostas ao tempo, não apenas no qual foram escritas, mas ao tempo dos silenciados. Acredito nestas obras como louvações, pois resultam de muitas outras vozes. E se “Do caos nasce a ordem”, como diz o provérbio africano, estamos no melhor caminho, pois não há certo, nem errado, apenas “reexistência” e é por ela, acredito, que escrevemos.

Não é possível criar novos imaginários sem  a elaboração e a partilha de novas narrativas. Como sonhar com algo que eu nem sabia existir? Eu jamais sonhei em ser dramaturga, eu precisei descobrir a dramaturgia, depois tive que me convencer que poderia escrever . Não era algo inserido no meu ambiente escolar, tampouco familiar.

A dramaturgia trabalha com a palavra viva na cena, com experiência biofísica, com representatividade. Você vai ao teatro para ver outro ser humano sendo outra possibilidade de existência, e isso inclui, em um país desigual como o Brasil, poder se ver de um modo que você nunca imaginou. Eu vou ao teatro para me colocar em dúvida, não para ter certeza e sair acalentada, mas eu vou ao teatro, também, para descobrir que eu posso ser algo além do que eu imaginava, aliás, do que me ensinaram a imaginar.

O teatro é muito poderoso, é uma arte milenar, de encontro. Quando penso em teatro, a palavra Theomai é a que me parece fazer mais sentido, pois refere-se ao ato de “olhar com intensidade”. “Escrever é inscrever-se”, é reescrever a própria história, ampliar-se, convidar outras pessoas a fazer o mesmo. Acho que somos convocados em algum momento da vida.

O teatro não precisa de nós, nós precisamos dele. Precisamos dele como um espaço de reinvenção. Quando eu comecei, não havia acesso aos materiais que agora integram algumas grades de escolas de teatro, resultado de uma exigência absolutamente justa de jovens aprendizes. Acessar obras/pensamentos de artistas como as professoras Leda Maria Martins e Maria Thaís, por exemplo, são verdadeiros privilégios para quem se dedica ao teatro, uma vez que ambas ampliam o que entendemos como manifestação teatral. Neste sentido, estamos formando uma geração de artistas com múltiplos pontos de vista.

Eu me sinto privilegiada por viver este momento, este tempo e estar dentro das salas de aula e na cena teatral, aprendendo, escrevendo, orientando outras dramaturgias, realizando junto com outras pessoas. Isto, o teatro me proporcionou e sei que pode fazer o mesmo por outras pessoas, que nem sabem precisar quais seriam os seus sonhos. Talvez o teatro nos devolva esta capacidade, por meio da imaginação. E eu não consigo pensar em nada mais maravilhosamente perigoso.”

 

RUDINEI BORGES DOS SANTOS

O teatro brasileiro é por excelência branco, colonizado e excludente. Aqui ainda é uma afronta o surgimento de visões de mundo que não sejam forjadas por uma elite intelectual branca, com saberes de matrizes europeias. Aliás, a Europa branca ainda é o parâmetro de civilização no país. Uma pessoa afrodescendente que escreve  é algo como um disparate, porque há um imaginário crucial e cruel do que é ser negro na cultura brasileira: escravo e bandido.

Não há ainda, de fato, uma dramaturgia negra no Brasil. Há um conjunto de escritos que procuram alcançar o real. Talvez juntos, ainda como cegos em meio ao tiroteio, nos esforçamos para entender e explicar a atrocidade do passado e do presente. Aos dramaturgos negros tampouco é autorizada a metafísica. A realidade é tão acachapante para um dramaturgo afrodescendente que qualquer coisa que fuja dela talvez pareça alienação. E o pior que pode nos acontecer é o alheamento.

Pouco escrevemos sobre a felicidade – quase como se o nosso teatro revelasse que uma pessoa negra ou parda não pode ser feliz no Brasil. Talvez por isso a dor, advinda da exclusão e da violência, seja o maior impasse da dramaturgia escrita por autores negros.

Se algum dia houver uma dramaturgia negra no Brasil ela não precisará de um novo William Shakespeare ou um novo Nelson Rodrigues. Precisará de um autor negro que, disposto ao voo, lance raízes fundas para a questão mais valiosa de todos os tempos: a emancipação da pessoa humana.




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