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Educar para as Diferenças

Publicado em: 24/06/2011

Janaína Lima trabalha na Pedagogia da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco. Entretanto, sua caminhada até chegar aqui não foi das mais fáceis. Aos 12 anos, iniciou sua trajetória profissional. Desde então, já foi assistente de protético, auxiliar de escritório, vendedora e educadora social, dentre outras ocupações.

 

Natural da Paraíba, veio à “cidade grande” com a proposta de assumir um cargo dentro da Coordenadoria da Diversidade Sexual do Estado. No entanto, com a mudança de governo, sua efetivação não foi realizada e Janaína se viu perdida no meio de mais de dez milhões de pessoas.

 

Como já estava morando em São Paulo, resolveu ir atrás de um emprego. A oportunidade surgiu para ser recepcionista na SP Escola de Teatro. Entretanto, após uma entrevista com o diretor executivo, Ivam Cabral, e seu assessor, Tato Consorti, foi estudada a possibilidade de que ocupasse um cargo na Pedagogia. E assim foi feito.

 

“Percebo que aqui na Escola as pessoas são abertas a compreender as questões de identidade e conseguem ver além das roupas e acessórios que você usa; olham para a pessoa que você é”, diz Janaína, que já sofreu muito preconceito por ser travesti.

 

Ela conta, ainda, que não aprendeu a aceitar esse desrespeito e tem lutado, incansavelmente, para que a discriminação que sofre no dia a dia – desde um simples olhar de reprovação até agressões físicas – se torne uma história do passado.

 

Para participar ativamente em prol das causas LGBTs, Janaína já fez assessorias em projetos e deu palestras em movimentos de travestis, em Campinas. “Esses trabalhos voluntários foram um diferencial muito grande em minha formação pessoal e profissional.” Entre os movimentos que se engajou, o Grupo Identidade é o que Janaína mais se identificou, por abordar o preconceito de maneira geral.

 

Além disso, ela diz que faz algo pela classe transexual que tem muito peso e força: assume, todos os dias, sua diferença e travestilidade. “É algo que a comunidade se beneficia, pois, quando faço isso, lido com o preconceito e as rejeições.” 

 

Em um Estado onde há grande diversidade de tribos, é paradoxal imaginar que cada indivíduo só esteja aberto a aceitar aquele que é semelhante a ele. Para ela, as pessoas precisam ser educadas a respeitar as diferenças.

 

Com relação aos seus planos para o futuro, Janaína tem projetos de criar um Centro de Memória da Travestilidade Brasileira, onde abrigará registros de grandes nomes que lutaram em prol do respeito à diversidade. A ideia tem por objetivo preservar essas lembranças, pois, caso contrário, as histórias se extinguirão, assim como ocorreu com Claudia Wonder, “uma pessoa muito à frente do seu tempo, cantora e atriz da década de 80, que faleceu há pouco tempo e caiu no esquecimento”, comenta.

 

Projetos, palestras e trabalhos voluntários são atividades concretas. Mas e os sonhos? As expectativas dela não são diferentes das de qualquer outro ser humano da face da terra: viver em um mundo onde não haja desigualdade, violência e desrespeito. Infelizmente, ela acha que precisaria nascer de novo para viver tudo isso e finaliza sua entrevista afirmando que “a diferença não é ruim, ruim é ter desrespeito por ela”.

 

Confira as outras matérias e sessões do Especial Semana da Diversidade SP Escola de Teatro: a entrevista com o escritor Carlos Hee; o Ponto sobre Oscar Wilde e sua obra “De Profundis”; e a história das recepcionistas Brenda, Flávia e LauraTambém um texto de Raquel Rocha, o Indica com Célia Forte e a matéria sobre a Parada Gay.

 

*A entrevistada selecionou sua foto para o perfil