Dulcineia já não mora aqui

Publicado em: 05/05/2014

* por João Branco, especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

 

“A loucura, longe de ser uma anomalia, é a condição normal humana. Não ter consciência dela, e ela não ser grande, é ser homem normal. Não ter consciência dela e ela ser grande, é ser louco. Ter consciência dela e ela ser pequena é ser desiludido. Ter consciência dela e ela ser grande é ser gênio.”

Fernando Pessoa

 

 

O K Cena – Projeto Lusófono de Teatro Jovem, lançado em 2012, é uma iniciativa do Teatro Viriato (Viseu, Portugal), em parceria com o Teatro Vila Velha (Salvador-Bahia, Brasil) e Instituto Camões/Centro Cultural Português – Pólo do Mindelo, com o apoio local da Mindelact – Associação Artística e Cultural (Cabo Verde). O projeto prevê a promoção de oficinas orientadas pelos encenadores “residentes” de cada estrutura parceira e vocacionadas para a abordagem ao trabalho de ator, com vista à preparação dos grupos locais para a montagem do espetáculo, que será dirigida pelo encenador “convidado”.

 

No seu segundo ano, o projeto K Cena tem-se revelado das experiências mais enriquecedoras da minha vida artística, pelas suas características peculiares que colocam três encenadores numa espécie de placa giratória cujo epicentro é uma obra literária riquíssima e plena de múltiplos signos e possibilidades de exploração. Na edição de 2014, eis-me envolvido até ao tutano com a obra-prima de Cervantes, “D. Quixote de la Mancha”, na belíssima cidade de Viseu, Portugal, tendo como parceiros de viagem dez adolescentes generosos, criativos e com a coragem necessária para enfrentar as duas vias pelas quais resolvemos viajar pela monumental obra do escritor espanhol: as causas perdidas e a loucura.

 

Sem temor, sem rede, sem preconceito, partimos de um ponto de ordem para mim fundamental: só iríamos falar aquilo que eles quisessem dizer, sentissem vontade de gritar, o que fosse. Sendo jovens adolescentes num país vivendo uma crise profunda – que é muito mais do que uma crise financeira – eles surpreenderam-me no primeiro embate e trouxeram a morte, a liberdade, a culpa, a angústia, a vaidade, a perda de memória e a solidão para a linha da frente da dramaturgia deste espetáculo.

 

O universo plástico criado, os movimentos desenhados em cena, as sonoridades propostas em cada relato individual, foram fruto sobretudo das suas propostas, dos seus desejos, das suas vozes, das suas vontades de falar e de não calar, de serem loucos, numa sociedade onde desde muito cedo lhes é vedada tantas e tantas vezes a possibilidade de voar além do rente solo da normalidade cotidiana.

 

Já Beckett dizia: “Todos nós nascemos loucos. Alguns permanecem”. E para a maioria que teve o azar de não permanecer há sempre a esperança do teatro, que é a maior via rápida que conheço na luta contra a triste rotina diária, que não nos deixa ser mais, ser diferente, ousar, sonhar acordado, rir alto, gritar sem razão aparente, chorar por tudo e por nada, viver outras vidas e tornar a viver a nossa, sem culpa, sem remorso, sem penitência.

 

“Dulcineia já não mora aqui” foi o nome que escolhemos para um espetáculo que teve um acolhimento extraordinário por parte do público, nas suas três apresentações, bem no final de abril. Escolhemos este título porque aquela que foi a maior musa inspiradora do mais universal dos loucos (perto de D. Quixote, só mesmo o Rei Lear de Shakespeare), foi uma invenção da sua cabeça e enquanto ela existiu, ele se deu a si próprio o direito de viver aventuras mil. Ela, Dulcineia, foi o motor da sua sandice, a força motriz da sua capacidade visionária que transformou a sua vida num exemplo para milhões de pessoas, de todas as idades, de todas as culturas, de todos os quadrantes, há muitas e muitas gerações. Dulcineia foi o coração da sua humanidade.

 

É urgente, pois, chamarmos de volta às nossas vidas as Dulcineias de cada qual. Só elas nos poderão salvar de uma vida enfadonha, solitária e sem tempero. É urgente perdermos o medo de elas tomarem conta das nossas existências, porque a vida é curta e cada instante conta para o balanço que sempre se faz em cada final.

 

E, por fim, para colocar de pé uma alegoria desta amplitude e com esta ambição de tocar nas pessoas, sem a certeza de o conseguir fazer, resta-nos agradecer todos aqueles que fizeram do todo uma força infinitamente maior do que a soma das partes. Os meus parceiros K Cénicos Graeme Pulleyn e Márcio Meirelles, cavaleiros de incalculável valia e coragem; o generoso Roberto Terra – personificação do que eu gostaria que fosse o meu Sancho Pança – que sempre me aparou durante todo o processo; a formidável equipa do Teatro Viriato que nos fez sentir invencíveis e capazes de superar todos os desafios; e o meu exército de dez insuperáveis cavaleiros e damas, que fizeram desta aventura por terras de Viseu uma doce e magnífica jornada.

 

Foi bom fazer parte deste sonho louco, bem acordado para a vida. O que mais, além do teatro, nos permite vivências como essa?