Chá e Cadernos | Dois recados para evitar pesadelos

Publicado em: 23/05/2017

Mauri Paroni – Chá e Cadernos – 100.1
 
“O chefe do governo manchou-se várias vezes, durante sua carreira, de crimes que, diante de um povo honesto, teriam merecido a condenação, a vergonha e a privação de todas as autoridades governamentais.”
 
Porque as pessoas toleraram e até mesmo aplaudiram esses crimes? Em parte por insensibilidade moral, em parte por interesse próprio, em parte por astúcia e vantagem pessoal. A maioria, naturalmente, deu-se conta daquelas atividades criminosas, mas preferiu dar o seu voto ao forte em vez de ao justo. Infelizmente, o povo italiano, se deve escolher entre o dever e a vantagem, mesmo sabendo qual seria o seu dever, escolhe sempre a vantagem.
 
Assim, um homem medíocre, grosseiro, de eloquência vulgar mas com fácil efeito, é um exemplo perfeito de seus contemporâneos. Para um povo honesto seria, no máximo, o líder de um partido com poucos seguidores, uma personagem meio ridicularizada por maneiras, atitudes e delírios de grandeza ofensivos ao bom senso das pessoas, por causa de seu estilo enfático e despudorado. Na Itália, tornou-se o chefe do governo. E é difícil encontrar um exemplo italiano mais completo. Admirador da força, venal, corruptível e corrupto, católico sem acreditar em Deus, pretensioso, vão, falso de boa índole, bom pai mas com muitas amantes, serve-se de quem despreza, cerca-se de desonestos, mentirosos, ineptos aproveitadores; mímico inteligente o suficiente para fazer efeito sobre um publico vulgar mas, como qualquer mímico sem personalidade, sempre imagina ser a pessoa que pretende representar.”
 
Este texto de 1945, da italiana Elsa Morante (1912-1985), refere-se ao ditador fascista Benito Mussolini (1883-1945). Com pouco esforço podemos reconhecer traços de semelhança com muitos governantes contemporâneos.
 
Trata-se de uma utopia às avessas de um pesadelo que nos remete diretamente a “A Peste”, de Albert Camus (1913-1960) romance publicado em 1947, pouco após o fim da Segunda Guerra Mundial. É uma alegoria sobre a guerra e a ditadura nazista e sobre o mal sempre pronto a eclodir.
 
Estamos em Oran, na Argélia dos anos 40. Bernard Rieux, médico francês, ao despedir-se de sua esposa, doente grave que vai viajar a tratamento, topa com um rato morto. Há milhares deles, sem que se dê muita importância ao fato. Rieux percebe o perigo quando o porteiro de seu edifício morre improvisamente, enquanto mais e mais pessoas apresentam os mesmos sintomas do morto. Ninguém quer acreditar, mas trata-se da peste!
 
Oran é declarada em quarentena. Ninguém pode entrar ou sair. O jesuíta Paneloux está convencido de que a peste é um castigo de Deus; Há quem lucra com a falta de alimentos, como Cottard; Grand, um burocrata da prefeitura, tenta escrever um romance mas não vai além de revisar continuamente a primeira frase; o jornalista Rambert tenta fugir à França para reencontrar-se com a amada. Rieux combate a doença ajudado por Jean Tarrou, ex-estudante de direito que recusa o cinismo dos tribunais. Tarrou trabalha duro com Rieux, que, longe de sua esposa moribunda, dedica sua existência aos doentes. Convencem o jornalista a permanecer na Argélia no combate à epidemia.
 
O absurdo da morte é inevitável. Mas eles não cedem ao que a obra de Camus descreve ser o suicídio interno: desistir da luta diante da certeza da morte.
 
Continua-se a morrer. A peste evolui de bubônica a pneumônica, muito mais contagiosa; não há mais lugar nem para sepulturas. Inventa-se um soro que experimentam numa criança doente, que morre em grande sofrimento. Nenhuma esperança: a peste não termina. Grand adoece. Rieux aplica-lhe o soro que, surpreendentemente, cura o amigo.
 
A epidemia diminui e a quarentena é suspensa. A população vai às ruas, eufórica. O comerciante Cottard, enlouquecido com a cessação dos lucros, atira na multidão e acaba preso. Rieux sabe da morte de sua esposa. Tarrou relaxa seus cuidados higiênicos e se contamina. Morre, deixando cadernos em que anotara os acontecimentos vividos durante a quarentena. Fica advertido o sempre possível retorno da peste quando Rieux revela ser o narrador do romance com base nas notas de Tarrou.
 
Aos que se dizem escritores, sobrou a propaganda.
 
Bibliografia
 
Opere, vol. I, Mondadori (Meridiani), Milano 1988, L-LII., via Svergnini, Italians
 
La Peste, Albert Camus
 
Le Mythe de Sisyphe, Albert Camus
 
L’Hmme Révolté, Albert Camus
 



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