Cena Performativa e Contemporaneidade

Publicado em: 25/06/2012

Por Vicente Concilio
Especial para o portal da SP Escola de Teatro

No texto a seguir, Vicente Concilio, ator e professor da área de Teatro-Educação do Departamento de Artes Cênicas da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), fala sobre a cena performativa. Ele esteve no sábado (23), na sede Brás da SP Escola de Teatro – Centro de Formação das Artes do Palco, para acompanhar de perto o terceiro e último Experimento do Módulo Azul.

A investigação de uma proposta cênica que dialogue com as questões de nosso próprio tempo produziram oito experimentos no último sábado (23), nas salas da SP Escola de Teatro.

Tais processos partiram de um interesse pela cena dita performativa, a qual podemos compreender, de acordo com os estudos teatrais contemporâneos, como propostas que se interessam por investigar interfaces entre experimentos das artes performáticas (entendidas aqui na sua matriz ligada às artes visuais) e o espetáculo teatral.

Essas propostas, que passaram a ganhar força e presença relevantes no contexto teatral a partir da década de 60, caracterizam-se por buscar, na erosão de diversos aspectos das convenções teatrais, formas outras que discutem, simultaneamente, a condição do homem contemporâneo e o próprio ato da criação teatral (esse constante confronto dos artistas com a linguagem cênica).

Questiona-se tudo: a relação ator e personagem, emergindo a noção de presença cênica; a relação com a cenografia, cedendo lugar à conquista da teatralidade do próprio espaço espetacular; a relação entre texto e cena, com a construção de formas híbridas de origens diversas, o que reconstrói o papel do dramaturgo. Além disso, há a reelaboração do papel do encenador, cuja função de autoria fora conquistada arduamente no início do século XX, mas que hoje passa a organizar a polifonia dos artistas envolvidos no evento teatral, com constantes diálogos e provocações. Essas mudanças, obviamente, resultam em formas espetaculares, distintas e particulares, dificilmente enquadráveis em “movimentos” com discurso coeso. A autenticidade e relevância da cena, porém, ganha potência quanto mais intricadas essas formas e assuntos dialogam com questões de nosso tempo.

Giorgio Agambem, em seu livro “O que é o Contemporâneo?”, faz a seguinte afirmação:

“A contemporaneidade é, pois, uma relação singular com o próprio tempo, que adere a este e, ao mesmo tempo, toma distância dele. Os que coincidem de um modo excessivamente absoluto com a época, que concordam perfeitamente com ela, não são contemporâneos, porque, justamente por essa razão, não conseguem vê-la, não podem manter seu olhar fixo nela”.

Por esse raciocínio, o olhar fixo em seu tempo tem uma função muito clara aos artistas ditos contemporâneos. Não bastaria apenas perceber as suas luzes e evidências que caracterizam o tempo no qual se está inserido, mas, sim, iluminar as suas sombras.

Para o professor italiano, deve-se enxergar para compreender, criticar e iluminar o todo no presente, promovendo desde já um desejo diferente de futuro. A função do artista seria, então, a de enxergar um tempo adiante, projetando para além do presente as ações transformadoras e significativas desde agora.

Por isso, é instigante que, para além da compreensão formal acerca da cena performativa, tenha surgido, na abertura dos processos do último sábado, evidente interesse em interrogar a própria função da arte e do papel do artista no mundo de hoje.

 

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Texto (s) da Cena Contemporânea

Cena Imersiva

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