SP Escola de Teatro

Bravíssimo | Fernanda Montenegro por Neusa Barbosa

Apresentação do livro “Fernanda Montenegro – a defesa do mistério”, de Neusa Barbosa para a Coleção Aplauso da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, de 2009 (para ler a obra, na íntegra, clique aqui)


Num País tantas vezes abalado pela descrença e pela decepção, Fernanda Montenegro, que em princípio é apenas uma atriz – embora de primeira grandeza – tornou-se uma espécie de patrimônio ético. Ainda que não o reivindique, o que só lhe aumenta a legitimidade, Fernanda transformou-se, nessas suas quase seis décadas de carreira e 80 anos de vida num valor absoluto, uma medida pela qual se avaliam os demais intérpretes do Brasil e por isso paira acima de quaisquer modismos e reviravoltas da arte e da política.


Na pátria do futebol, ela forjou para si, incansavelmente autodidata, um outro parâmetro de excelência – e por esse motivo é que se voltam para ela os olhos do público, nas muitas vezes em que a auto-estima nacional precisa de reforço para a confirmação da ideia de que há, sim, algumas coisas que deram certo no Brasil. Fernanda é um inequívoco caso de sucesso, e isso numa profissão tantas vezes abalada por suas próprias incertezas e por vaidades às vezes tão vãs quanto a busca da celebridade a qualquer preço. Nessas horas, Fernanda surge sempre como contraponto, como um tesouro do Brasil e, o que é melhor: não corre o risco de ser dilapidado.


Sobre Fernanda, sempre há um universo a dizer. Ter tanto a falar sobre ela é, por paradoxo, o que torna mais difícil afirmar qualquer coisa, por tudo o que já foi e é dito e escrito, em jornais, revistas, rádios e televisões. Ainda assim, livros sobre a nossa atriz maior são surpreendentemente escassos. Já se passaram 19 anos da publicação de sua única biografia – “O exercício da paixão”, da jornalista Lúcia Rito –, tornando essencial a atualização de uma história de vida que não cessa de percorrer novas direções.


Neste livro, Fernanda fala de si num depoimento feito em primeira pessoa, que permitirá aos leitores perceberem como as melhores definições sobre seu trabalho vêm dela mesma. Um depoimento construído por uma memória impecável, lucidez constante, ética profissional que a leva sempre a compartilhar as próprias conquistas com os colegas e um inatacável orgulho profissional, tudo isso embalado numa voz de expressiva densidade poética.


Era preciso atualizar este registro da trajetória de Fernanda, tarefa cuja dificuldade é motivo de celebração. Felizmente, ela pertence a uma geração de intérpretes que, para o bem da cultura nacional, não cogita a palavra aposentadoria. No momento em que este livro estava sendo finalizado – após um processo que se prolongou por mais de quatro anos, por causa da agenda frenética da atriz – ela se lançava a um novo desafio: o de estrelar seu primeiro filme internacional: “O amor nos tempos do cólera”, adaptação do livro homônimo do escritor colombiano e Prêmio Nobel Gabriel, García Márquez. Trata-se de uma produção inglesa dirigida por Mike Newell, filmada na Colômbia e falada em inglês. Um desafio, aliás, que foi o complemento de uma trajetória que começa com “Central do Brasil”, de Walter Salles, filme vencedor do Urso de Ouro e do Urso de Prata (de melhor atriz) no Festival de Berlim em 1998, que colocou Fernanda no mapa das atrizes indicadas ao Oscar. A primeira e por enquanto a única brasileira, aliás, a ter essa distinção – cuja pompa e circunstância ela examina neste livro com um lúcido senso de humor.


A trajetória vencedora desta atriz carioca, como ela mesma gosta de se definir, começou em Campinho, subúrbio do Rio de Janeiro onde, no dia 16 de outubro de 1929, nasceu Arlette Pinheiro Esteves da Silva. Mais tarde, numa daquelas noites quentes e repletas de conversas de quintal do subúrbio carioca, surgiu o sonho que levou a mocinha de 15 anos a vencer a timidez e participar de um concurso que a conduziu à Rádio MEC (Ministério da Educação e Cultura). Essa, que era a rádio cultural por excelência do País, foi a sua primeira e autêntica universidade. Ali, aproveitando uma farta biblioteca e discoteca, aprendeu música, literatura e locução, modulando a voz que o Brasil reconhece e deixando definitivamente, e por opção própria, de ser Arlette para tornar-se Fernanda – ainda sem saber que o destino a levaria ao encontro de outro Fernando, que foi seu marido por 55 anos.


O teatro, que é seu sangue e sua religião, começou antes de tudo, na infância, no fundo de uma pequena paróquia, numa apresentação da peça “Os dois sargentos”, quando ela tinha apenas 8 anos. Um acaso que se tornaria deflagrador dessa carreira exemplarmente construída nos teleteatros pioneiros da incipiente televisão brasileira. Ali se interpretava de Pirandello a Shakespeare, nos horários nobres hoje ocupados pelas novelas – e principalmente nos palcos de algumas das companhias de repertório responsáveis pelo excepcional salto de qualidade do panorama teatral dos anos 50. Foi nessa época que se criou um jeito brasileiro de fazer teatro, que bebia na fonte da melhor dramaturgia universal e nacional, como o TBC, a Companhia Maria Della Costa, o Arena e, mais tarde, o Teatro dos Sete. Esta última, a companhia singular que reuniu, ao lado da própria Fernanda, os talentos do cenógrafo e diretor Gianni Ratto, dos atores Sérgio Britto, Ítalo Rossi e do ator e diretor Fernando Torres na montagem de espetáculos marcantes, a partir de “O mambembe”, de Artur Azevedo, em 1959 – quando 83 atores no palco viram-se aplaudidos por uma plateia de 3 mil pessoas.


Todo esse momento de intensa criatividade do teatro brasileiro foi cortado pela ditadura militar instalada no Brasil em 1964 – e não é por outro motivo que Fernanda tantas vezes deixa de falar de arte para ocupar-se da política. De nenhuma outra arte foi tão inimigo o regime fardado, quanto do teatro. Primeiro com a censura, como sempre arbitrária, de textos e peças – como “Calabar”, de Chico Buarque de Hollanda e Ruy Guerra; “Trivial simples”, de Nelson Xavier, e tantas outras. Depois vieram ameaças à integridade física de atores e diretores. A própria Fernanda foi alvo, com Fernando Torres, de um atentado, quando um tiro atravessou a janela de um apartamento, pertencente ao amigo e diretor Celso Nunes, num período em que o casal vivia em São Paulo, em 1979. Nesses momentos de paranoia total, viram-se mesmo obrigados a representar suas peças com todas as luzes do teatro acesas para que o espetáculo não parasse. Na vida de Fernanda, o espetáculo sempre continuou – ao lado de colegas artistas como Flávio Rangel, Gianfrancesco Guarnieri, Augusto Boal, Antunes Filho e Millôr Fernandes, e tantos outros que compartilharam a árdua experiência de resistir aos anos de chumbo.


Das três áreas em que atua, o cinema foi a mais tardia na vida da atriz. Depois de recusar, por compromissos teatrais, a chance de estrelar “Terra em transe”, de Glauber Rocha – no papel que ficou para Glauce Rocha – ela estreou numa produção que para muitos de seus integrantes era também a primeira, ou quase isso: “A falecida” (1965), sob a sombra protetora do amigo Nelson Rodrigues, autor da peça original, numa adaptação dirigida por Leon Hirszman, o mesmo diretor com quem faria o luminoso “Eles não usam black-tie”. Neste livro, ela conta a origem da inspiração para a cena de catação de feijão, ao lado de Guarnieri, que figura sempre entre as mais antológicas sequências da história do cinema brasileiro.


Ao introduzir este relato, que não é uma autobiografia, pois a isso Fernanda não se dispõe – mesmo que suas cartas a políticos (no final deste volume), demonstrem que verve literária para isso não lhe falta – é tão difícil quanto fundamental, procurar escapar à redundância e ao deslumbramento, armadilhas quando se procura algo novo a acrescentar a seu respeito. Uma sábia unanimidade nacional, fazendo vênia a Nelson Rodrigues, um dos autores capitulares de Fernanda, para quem ele escreveu “Beijo no asfalto” (1961) e “Toda nudez será castigada” (que a atriz não pôde interpretar na época, por causa de uma de suas duas gestações de risco, no caso, a de Fernandinha, em 1966).


É preciso procurar ao menos ser justa com essa atriz que já deu tanto ao seu público, nos seus 59 anos de teatro e TV, com mais de 200 teleteatros, 57 peças, 20 novelas, 16 filmes, e que ainda muito mais dará. Certamente, eu gostaria de ter tido muito mais conversas com ela, ao vivo e por telefone – a que também tivemos de recorrer, para resolver as dúvidas desta edição. Sendo assim, este relato não é mesmo um tudo o que você queria saber sobre Fernanda, porque certamente já estará desatualizado ao ser lançado, por causa dessa sua bendita e incansável vitalidade.


Ainda assim, nessa curta convivência que tivemos, cabe um último comentário: Fernanda é tudo o que diz e também o que não diz. Sendo uma pessoa tão pública, ela consegue guardar em torno de si um espaço de discrição e reserva que não há como nem por que procurar romper. Há uma camada de mistério em torno dela, que, como definiu o cineasta norte-americano Samuel Fuller, em sua saborosa autobiografia (“A third face: my tale of writing, fighting and filmmaking”) é aquela terceira face que todos temos.


Ou seja, aquela que só nós mesmos vemos. Há que ter respeito pelo mistério dessa atriz, porque é dele que se alimenta esse sangue que não se repetirá jamais, na definição da poeta Cecília Meirelles, que a própria Fernanda escolheu como seu lema de vida.

 

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