SP Escola de Teatro

Bravíssimo | Betty Faria por Tania Carvalho

 
Apresentação do livro “Betty Faria – rebelde por natureza”, de Tania Carvalho para a Coleção Aplauso da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, lançado em 2006 (para ler a obra, na íntegra, clique aqui)
 
Os anos fizeram muito bem a Betty Faria. E essa afirmação não é simples. Aos 64 anos, a atriz, que sempre foi o símbolo da mulher bonita, gostosa, faceira, interessante, de nariz arrebitado, corpo com tudo em cima continua igual. Só que com mais rugas e sabedoria. 
 
Budista praticante (da corrente do budismo de Sutra de Lótus) ela analisa o passado, tem certezas sobre o presente e pressente o futuro dentro de uma ótica bem particular: a que não se deve fazer “causas” com pensamentos, palavras e ações porque os efeitos aparecem. E podem ser devastadores. 
 
Ela define os últimos anos da sua vida, desde a virada do século, como uma grande provação espiritual, “uma prova de fé”. Doenças, contrato não renovado, a morte do pai, enfim, situações que colocariam qualquer um deitado. Mas Betty permanece de pé – e acha que tudo foi um grande benefício – e tem coragem de falar sobre isso, com tanta paixão, quanto de seus inúmeros sucessos acumulados em uma carreira de mais de quarenta anos. 
 
Nos nossos primeiros encontros, Betty foi cautelosa, talvez temendo as famosas “causas e efeitos”. Com o tempo, porém, foi descontraindo mais um pouco. Nossas conversas mudaram de lugar, passamos da sala de estar de seu lindo apartamento em frente à praia do Leblon para uma aconchegante salinha íntima na cobertura, banhado pelo ar fresco do mar e falamos muito. Sobre tudo. 
 
Betty nem sempre é prolixa, ao contrário. Ela dividia os assuntos em doses homeopáticas. Um dia contava uma parte. No outro, acrescentava mais um ponto. Porém sempre intensa, cheia de sentimentos, pausas, olhares, dúvidas. 
 
Se o assunto podia ser mais polêmico, ela pedia para desligar o gravador. Afinal, ela não está no mundo para criar desafetos. Isso, porém, não impediu que ela falasse dos bons e maus companheiros de trabalho, dos amigos e dos nem tanto que em momentos de sua vida ampararam-na ou viraram a cara. 
 
Muitos comentários, porém, foram reavaliados, riscados até após a última entre muitas revisões feitas por ela. Mais do que tudo, porém, Betty falou do seu trabalho. E do budismo, claro, para o qual foi dedicado um capítulo inteiro. (Acho até que ela gostaria que fosse todo o livro sobre o assunto). 
 
O mantra básico – o Daimoku do budismo do Sutra de Lótus – é “Nam-Mioho-Rengue-Kio”. Diariamente Betty se concentra em frente ao pequeno altar e repete-o sem parar. Garante que os melhores insights de sua vida surgiram nestes momentos. E recomenda. 
 
Militante da causa, tentou até me converter, explicando-me todas as coisas boas que o budismo pode proporcionar, emprestando-me algumas publicações, que serviram para escrever melhor sobre o assunto. Confesso que ouvi atenta, taurina como ela, disciplinada. O que mais me comoveu, no entanto, foi a necessidade que ela sente imperiosa de ajudar os outros. É assim com os amigos, com os filhos, com quem trabalha – uma provedora de emoções, definitivamente. Não foi difícil encontrar um título para o livro. Ela é uma rebelde nata. 
 
Já nasceu em Copacabana colocando as sapatilhas, contrariando o pai general. Usou biquíni pequeno, destruiu o tabu da virgindade, casou sem se casar no papel, teve filhos de dois pais diferentes, enfim, uma libertária desde os anos 40. 
 
Rebelde como ela só. E alguém nasce com aquele nariz à toa?! Mas, hoje, rebeldia quase apaziguada, ela continua vibrante e apaixonada, em busca de novos caminhos profissionais. 
Enquanto trabalhávamos na feitura do livro, ela estava empolgadíssima com novos projetos, dentre eles um pocket show, onde pretende reunir o que mais gosta: cantar, dançar e representar. Pessoalmente, assume com o maior amor seu papel principal, o de avó de Giulia, Valentina, João Paulo e Antônio. 
 
E para quem jamais a imaginou em um personagem como esse, divirta-se. Ela está muito bem. Com vocês, a Betty mulher, atriz, mãe e avó. E budista, com certeza. “Nam-Mioho-Rengue-Kio”. 
 

 

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