Antunes Filho por
Danilo Santos de Miranda

Publicado em: 24/05/2012

Especial para o portal da SP Escola de Teatro

 

Antunes Filho está fora da ordem. Por isso, posso considerá-lo extraordinário. Este é o termo que tendo a usar com frequência, quando me refiro a este diretor de teatro com quem tenho o privilégio de dividir espaços de trabalho e fruições de belezas. É um mestre, daqueles que o tempo forja com preciosidade.

Se eu pudesse traduzir Antunes Filho por meio da palavra, o ideal é que fosse por aforismos (não sei se por vários ou apenas um): poucas palavras abrangendo um mundo de ideias. Pois é assim que Antunes se parece, com seus aprendizados, filosofias e seu corpo em concisão profunda, culminando em explosões cósmicas.

Antunes é seu trabalho: o teatro em sua completude. Recolhe o que pode da vida, dos escritos e visões sobre quase tudo que o fascina e transforma em sua lavoura, entregando-a para o mundo em forma de arte. Ele se parece muito com arte e caminha brincando com a seriedade com que esta nos transforma. É sério, concentrado e gigantesco em momentos precisos.

É um trabalhador incansável. Se há leveza, se há hiatos, se há silêncios ou epifanias, tudo foi erguido com cautela e aplicação. Se uma sílaba é capaz de compor uma nota celestial, foi porque percorreu minuciosamente o universo com seus infernos e umbrais. Sua genialidade é um produto do que faz fisicamente, de horas de leituras, de fruições, de meditações, de correrias.

Por mais que sejam fluidas, leves ou despretensiosas, muitas cenas construídas sob sua batuta, acompanhando o trabalho de Antunes por anos, vendo suas incursões pelos textos mais díspares (de Shakespeare a Mário de Andrade, de Nelson Rodrigues a Irmãos Grimm), parece que o que vem dele chegou como um toque divino, sem esforços, sem traumas. É como se nascesse com asas e voasse em meio e alheio aos olhares.

Mas não. O que vejo em Antunes é sangue, é o artista vertido em carne, é a arte virando pedra, virando flor, poesia, filosofia, física quântica, Tao; é a arte se tornando cadeira, coxia, plateia e ar; tornando-se os olhos de quem mira um espelho invisível, disposto por todo o palco.

Vem-me ao pensamento uma insistência de dizer que Antunes é um mistério. Algo mais forte, porém, me diz que não. Não há mistério nas coisas livres. O mistério está em nós em não compreendermos de forma completa, e muitas vezes tardia, as belezas criadas pela arte; o mistério está em utilizarmos somente as palavras para “decifrar” o que nos encanta. O trabalho de Antunes talvez esteja mais no caminho percorrido do que na chegada a um lugar; talvez esteja no âmbito do indizível, naquele silêncio que tanto ansiamos por nos abordar surpreendentemente, muito de vez em quando.

 

 

Danilo Santos de Miranda é diretor do Sesc São Paulo

 

Veja o verbete de Antunes Filho na Teatropédia