Antonio Abujamra por Marcia Abujamra

Publicado em: 27/03/2012

Nos últimos dois ou três anos, muitos dos e-mails dele começam com a palavra “madrugada”. Às vezes, são feitos apenas dessa palavra. Madrugada. Quem o conhece sabe que a noite é seu domínio. Seja porque, segundo ele diz, não consegue dormir, seja porque conhece como poucos a noite dos homens. Também, quem o conhece sabe que sua imperiosa necessidade de se comunicar faz com que mande e-mails a todos os amigos e conhecidos, que fale com todos e escreva cartas a todos e mande cartões postais de onde quer que esteja, Botucatu ou Moscou. Tenho muitos, guardo a maioria deles. 

 

Quando morei em Nova York, e recebi a primeira de suas muitas outras cartas, tive uma deliciosa surpresa: ao abri-la, encontrei um papel de carta que transbordava alegria. Era um papel de carta desenhado pelo Naum, nosso querido Naum Alves de Souza, com a alegria e o talento que Naum sempre consegue nos dar. E suas palavras para mim começavam assim: “O dia está tão lindo. Não fosse a vida eu até acreditaria em Deus”. Frase que anos depois eu usei no espetáculo “Van Gogh”, que dirigi com Elias Andreato. 

 

Pois é assim que eu o conheço. Cheio de vida e olhando os abismos de frente. “Quem gosta de abismos tem que ter asas” – e ele tem –, frase do Nietzsche, da qual ele se apropriou e frequentemente fala e muitos já ouviram, amaram e até acreditam ser dele. Como muitas outras. E ele é desse jeito mesmo, um homem exuberante em seu terror e luz. Talvez por isso ele tenha inúmeros amigos, inúmeros inimigos e milhares de fãs, que nele encontram a possibilidade de falar sem medo e por meio dele realizam seus pensamentos. 

 

São muitos anos de convívio e de provocações. Entre nós existe um pacto de sangue e amor raro de existir. E essa é outra de suas melhores características. Cresci ouvindo as mais diferentes pessoas reivindicando uma relação especial com ele. Diziam: “Eu o conheço como ninguém”; “Tenho uma relação única com o Abujamra”; “Só comigo ele faz isso, é especial o que nós temos”. E infinitas variações dessas mesmas frases, todos falando com orgulho que o conheciam como ninguém mais e que usufruíam de um contato especial que nenhuma outra pessoa jamais teria. 

 

Até que um dia eu entendi que especial era ele. Bem, esse é Antonio Abujamra, meu tio e pai. Já o Abu, o diretor responsável por trazer aos palcos brasileiros as ideias e métodos teatrais de Bertold Brecht e Roger Planchon, é uma figura pública que se mistura com essa. Uma figura que o público conhece e intui através dos mais de 150 espetáculos que dirigiu e atuou, das novelas e filmes que participou, do programa de televisão “Provocações” que continua fazendo e das muitas, muitas histórias que conta e que dele contam. 

 

Um talento violentamente delicado que, a partir da década de 1960, instaurou um novo teatro no Brasil, junto com outros grandes diretores da sua geração, como Antunes Filho, Zé Celso Martinez Corrêa, Amir Haddad e Flavio Rangel. Criadores que inventaram um teatro brasileiro repleto de som, beleza e fúria. 

 

 

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