Algumas palavras sobre Escola Livre II

Publicado em: 31/01/2014

* por Ivam Cabral, especial para o portal da SP Escola de Teatro


 

As origens da Escola Livre no sistema educacional

No início do século 20, o nome de Escola Livre teve destaque por Rudolf Steiner (1861-1925), que criou um sistema de pedagogia no qual a educação deveria ser integral, contribuindo para que um indivíduo se desenvolvesse de forma harmônica, por meio da intuição, da imaginação e do intelecto. O grande propósito era contribuir para a formação de seres humanos livres, capazes de imprimirem um norte às suas vidas.


A proposta do pensador ficou conhecida como Pedagogia Waldorf. Em 1919, durante o caos da Europa central, devastada pela Primeira Guerra Mundial, o pensador austríaco foi chamado para uma série de palestras aos funcionários oprimidos da fábrica de cigarros Waldorf-Astoria. Os trabalhadores acabaram convidando Rudolf Steiner a conduzir uma escola na qual seria oferecido ensino para os filhos dos trabalhadores da empresa.


A Escola Waldorf, como foi batizada, não tinha objetivos lucrativos. Deveria formar pessoas livres e dispostas a filosofar sobre suas vidas, sendo que a pedagogia utilizada se caracterizaria pela abordagem da questão escolar diante de uma perspectiva baseada na liberdade e igualdade, eliminando as relações autoritárias presentes no modelo educacional tradicional. Estava criada a Die Freie Waldorfschule (A Escola Waldorf Livre), sistema que mais tarde foi replicado em mais de 500 instituições de todo o mundo, e em cerca de 50 no Brasil.


Nesse modelo, originou-se uma metodologia sem avaliação de desempenho, e que respeitava cada individualidade e as idiossincrasias de cada um dos alunos. Estes deveriam ter aulas de arte em seus currículos e trabalhos manuais diversos, para que fossem valorizadas as experiências sensoriais de cada um deles. Sem contar o contato com a natureza, uma das premissas da escola.


Enquanto esta experiência era implantada na Áustria, nascia, na Inglaterra, a Escola Democrática. Foi fundada, em 1921, pelo escocês A. S. Neill, e funciona até hoje. Não possui a obrigatoriedade de atender aos padrões das escolas convencionais e tornou-se modelo no mundo todo.


Neill graduou-se em inglês e se tornou jornalista, até ser convidado a dirigir uma pequena escola em Gretna Green, onde começou pensar sobre formular uma educação libertária, transformando uma escola rígida num playground, como ele próprio gostava de dizer. “Os alunos cantavam enquanto produziam gráficos, comiam quitutes (que eles próprios haviam produzido) enquanto liam, penduravam-se em meus braços quando passeávamos em busca de recantos artísticos.”


Em 1917, Neill visitou a Little Commonwealth de Homer Lane, uma comunidade para adolescentes delinquentes, tomando conhecimento deste espaço harmonioso, no qual imperava o autogoverno.


Nos Estados Unidos também surgiram várias Escolas Livres, ainda na década de 1920, sob o modelo criado por Steiner e Neill. Os exemplos mais famosos são a Sudbury Valley School, a Play Mountain Place, The Circle School e Albany Free School. Na Austrália, o exemplo mais conhecido é o da Currambena Primary School.


Estas escolas passaram a existir também no Canadá, na Dinamarca, na Alemanha, na Finlândia, em Israel, no Japão, na Nova Zelândia, na Rússia, na Holanda, na Inglaterra e no Brasil, onde um dos exemplos é a nossa SP Escola de Teatro, que, em dois anos de funcionamento, já conseguiu encontrar um estilo de ensino sério e sólido, que culmina numa educação humanística, sem a rigidez e a severidade da escola tradicional. Uma Instituição na qual se induz o aprendiz a perceber suas qualidades de criatividade, autoconsciência e capacidade para manter a própria identidade.


Outro exemplo deste modelo bem-sucedido por aqui é a Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, criada na década de 1930, e famosa por promover conferências públicas e intercâmbio com instituições estrangeiras, preparando seus alunos para atuarem na vida social do País.


No Brasil há ainda o modelo adotado pela Escola Livre de Música da Unicamp (ELM), ligada ao Núcleo de Integração, Documentação e Difusão Cultural (CIDDIC) de Campinas (SP). Com cursos destinados a iniciantes e a músicos já experientes, a escola busca trabalhar ritmos brasileiros de maneira teórica e prática. A ideia nasceu em 1987 com a Banda Comunitária da Unicamp e foi reestruturada em 1991, por meio de uma banda-escola, que promovia, à época, atividades comunitárias e educação musical.


Na área de teatro, há diversos exemplos de Escolas Livres. Um dos mais famosos é focado apenas em formar atores. Trata-se da École Florent, fundada há 45 anos por François Florent, em Paris. Por lá já passaram nomes como Isabelle Adjani, Yvan Attal, Daniel Auteuil, Guillaume Canet, Isabelle Carré, Gad Elmaleh, Denis Podalydès, Audrey Tautou et Jacques Weber.


O lema da École Florent é: “Não há métodos, apenas experimentações baseadas num programa”. O fio condutor das aulas é livre e estimula o aprendiz a refletir sobre sua profissão, a encontrar o caminho de seu percurso pessoal, por meio de uma pedagogia criada pelo próprio Florent, que inclui a leitura de textos, o imaginário e a voz.

 

Na capital francesa, há um outro exemplo que se tornou conhecido. Trata-se da École Lecoq, criada nos anos 1980, pelo ator Jacques Lecoq. Ele também desenvolveu um método original de ensino, convidando profissionais do mundo todo a ministrar aulas e palestras em sua escola.


O grande lema da escola é o improviso. O sistema pedagógico é baseado em Waldorf e as trocas de experiência entre professor-aluno e aluno-aluno são incentivadas nos dois anos de duração do curso.


Outro exemplo na área de Teatro é a Escola Livre de Teatro (ELT) que, idealizada por Celso Frateschi em 1990, surgiu com a meta de oferecer para a comunidade o embasamento e os instrumentos necessários para se fazer teatro. Para estruturar e dirigir o projeto foi convidada a pesquisadora e diretora de teatro Maria Thais que, em pouco tempo e intensa atividade, formulou a proposta da Escola Livre de Teatro.


A maioria das Escolas Livres contemporâneas são estruturadas assim. Mais recentemente, elas também lançaram um olhar para as teorias do educador brasileiro Paulo Freire, para o qual quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender. “Ensinar inexiste sem aprender e vice-versa e foi aprendendo socialmente que, historicamente, mulheres e homens descobriram que era possível ensinar. Foi assim, socialmente aprendendo, que ao longo dos tempos mulheres e homens perceberam que era possível – depois, preciso – trabalhar maneiras, caminhos, métodos de ensinar. Aprender precedeu ensinar ou, em outras palavras, ensinar se diluía na experiência realmente fundante de aprender. Não temo dizer que inexiste validade do ensino de que não resulta um aprendizado em que o aprendiz não se tornou capaz de recriar ou de refazer o ensinado, em que o ensinado que não foi apreendido não pode realmente aprendido pelo aprendiz”, diz o educador em uma de suas obras mais importantes, “Pedagogia da Autonomia”.


Freire observa que o ato de ensinar exige rigorosidade metódica. “Uma das tarefas primordiais do educador é trabalhar com os educandos a rigorosidade metódica com que devem se ‘aproximar’ dos abjetos cognoscíveis (…). E essa condição implica ou exige a presença de educadores e de educandos criadores, instigadores, inquietos, rigorosamente curiosos, humildes e persistentes”, continua o teórico. O pensador ainda afirma que o papel do educador é fazer com que o educando seja desafiado. Diz também que não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino. Para isso, é necessário que o educando esteja intrinsecamente consciente de seu compromisso com a instituição de ensino na qual está inserido. Por fim, Freire observa que ensinar exige alegria, esperança e envolvimento do aluno, pois, só assim é que se atinge a política, a moral, a gnosiológica. “A esperança de professor e alunos juntos é poder aprender, ensinar, inquietar-se, produzir e, juntos, resistir aos obstáculos à nossa alegria.”